Após quase quatro anos de espera, finalmente o terceiro filme da franquia Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore (Fantastic Beasts: The Secrets of Dumbledore) chega para dar continuidade as aventuras dentro deste universo bruxo, entrega as aguardadas respostas das lacunas deixadas anteriormente, inicia o fechamento de alguns arcos, enquanto dá abertura para o tão esperado confronto principal. Há personagens novos, enquanto os veteranos se destacam ainda mais em uma trama satisfatória, mais densa e um pouco menos mágica na aventura. Os Segredos de Dumbledore é melhor que o segundo filme, não é perfeito, tem suas falhas, mas ainda assim vale a pena assistir.
******CONTÊM SPOILERS******
Com direção de David Yates, em Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore, o professor Alvo Dumbledore sabe que o poderoso mago das trevas Gerardo Grindelwald está se movimentando para assumir o controle do mundo mágico. Incapaz de detê-lo sozinho, ele pede ao magizoologista Newt Scamander para liderar uma intrépida equipe de bruxos, bruxas e um corajoso padeiro trouxa em uma missão perigosa, em que eles encontram velhos e novos animais fantásticos e entram em conflito com a crescente legião de seguidores de Grindelwald. Mas com tantas ameaças, quanto tempo Dumbledore permanecerá à margem deste confronto?
A história engrena com Newt de encontro com a espécie Qlit, um raro animal fantástico que tem o grande poder de enxergar a essência da alma da pessoa, a bondade ou maldade, aquele que é puro de coração e digno de ser o grande líder do mundo bruxo. Tal espécie não é só protegida por magizoologista, como também é caçada por Grindelwald, uma vez que deseja tomar o poder para, assim, iniciar uma guerra na qual dizimará o mundo dos trouxas, respigando severamente no universo mágico.

No geral, o roteiro de Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore entrega uma narrativa satisfatória, preenchendo as lacunas deixadas no filme anterior, além de apresentar novos plots e dar início ao encerramento de outros que, talvez, não valha a pena se estender por mais tempo, o que é um ponto positivo.
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Já os diálogos são bons e conseguem elevar o drama e emocionar pontualmente, porém é possível sentir a ausência de uma magia mais forte e trabalhada nesta aventura na qual reforçaria uma naturalidade maior das ações dos personagens, como o próprio Jacob é moldado aqui. No geral, os personagens são bons e cativantes à sua maneira, mas permanecem em uma postura “classuda” demais do início ao fim, o que perde um pouco do encanto e, consequentemente, reduz a dramaticidade que é salva em conversas singelas e sensíveis.
Um ponto que fica muito a desejar são os cortes das cenas, especialmente no decorrer do segundo ato do filme, pois é possível notar uma espécie de “colagem” de cenas aleatórias em que um dado momento acompanha-se uma ação de um personagem e, repentinamente, isso é cortado levando a atenção do público para outro lugar. Entendem o que quero dizer? Infelizmente, esta montagem é incômoda e melhora minimamente no terceiro ato.
Com relação às referências ao universo já conhecido de Harry Potter, o filme entrega uma nostalgia boa, dosada e sem ser forçada na qual um olhar atento ou fã das histórias vão se deparar e reconhecer cenários como Hogwarts e A Sala Precisa, além de rostos familiares como da professora Minerva McGonagall (Fiona Glascott).
Mais reflexivo e político

Se o segundo filme deu pinceladas na atmosfera política com referências à Segunda Guerra Mundial, Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore mergulha na década de 1930 na qual desenvolve toda a trama sob um cenário com questões políticas ainda mais fortes, tornando-se parte da trama central do filme em que o público acompanha as eleições de quem ocupará o posto de líder do Mundo Bruxo.
Se tem um detalhe que é muito interessante no filme é esta temática que ganha uma força complacente que, por sinal, faz o espectador conectar a ficção com a realidade que vive. “Tempos perigosos colocam homens perigosos no poder”, talvez a frase não seja exatamente assim, mas é uma frase que fica na cabeça do público no instante em que ela é pronunciada, o que pode provocar reflexões diversas. Talvez não fosse este o propósito, mas o filme sabe acertar em cheio.
Mesmo com uma temática relevante e polêmica, o filme carece de dar espaço para vozes que mereciam ser ouvidas tanto pelos apoiadores quanto pela concorrência. Este é o caso da candidata Vicência Santos, Ministra da Magia brasileira que ganha vida pela performance de Maria Fernanda Cândido, uma excelente atriz que soube representar positivamente o brasileiro dentro do universo bruxo. No entanto, Vicência Santos tem apenas uma ou duas falas simples e o filme perde a grande chance de dar voz aos candidatos em discursos que poderiam tornar o momento mais significativo. Uma pena isso não ter acontecido.
Menos sombrio

Em Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore temos a aguardada apresentação do ator Mads Mikkelsen como Grindelwald, que antes era interpretado pelo ator Johnny Depp, demitido da franquia no final de 2020. Mesmo com a troca de atores – na qual o filme não entrega nenhuma justificativa para a mudança – a essência do personagem permanece com pequenas modificações. Mads entrega um Grindelwald que continua inescrupuloso, ruim, cuja persuasão ganha mais força dentro do cenário político usado como palco para atrair mais seguidores com um discurso de ódio camuflado por promessas para um bem maior a todos (mas é somente a favor e unicamente dele).
No entanto, o ator entrega um Grindelwald mais sóbrio e menos sombrio, um detalhe que ficará por conta da opinião de cada um. Na minha opinião, a versão de Grindelwald do filme anterior é mais nocivo, causando um temor crescente que chega às escondidas. Além disso, a caracterização do Grindelwald neste terceiro filme está mais simples e menos impactante, um ponto que eles poderiam ter modificado para dar mais vida ao personagem e fazer o próprio ator desaparecer temporariamente. Entendem o que quero dizer?
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Com relação a grande reviravolta deixada como gancho no final do segundo filme, as respostas são geradas nesta nova sequência. O Credence, agora conhecido como Aurelio Dumbledore, é filho de Aberforth Dumbledore (Richard Coyle), irmão de Alvo Dumbledore. Tal lacuna criou muitas teorias sobre este personagem ser um irmão esquecido da família, quando a verdade é que Credence é sobrinho de Alvo, uma justificativa mais plausível e condizente dentro da história.

O plot do personagem interpretado por Ezra Miller ganha um preenchimento satisfatório, porém a prioridade de Credence nesta trama é reduzida, uma vez que o seu drama se baseia nos sentimentos de solidão e esquecimento, alimentado pelo lado sombrio na qual é usado para atacar aqueles que querem impedir Grindelwald, como o próprio Dumbledore. Aliás, a cena do confronto de Alvo e Credence no meio da rua de Londres é uma sequência bonita, contemplativa e emotiva que ganha ótimos efeitos especiais.
Acredito que o arco do Credence chegará, de fato, ao fim no quarto filme, apenas para dar um desfecho digno, uma vez que ele está bastante enfraquecido e perto da morte, como representa a própria Fênix que segue ao lado, uma explicação dada por Dumbledore. É um personagem que já necessita de um ponto final em sua trama.
A resistência

A atuação do ator Eddie Redmayne como Newt Scamander continua ótima e excêntrica, reafirmando sua boa performance já vista nos dois primeiros filmes. A relação do protagonista com os demais personagens fica mais forte e confortável em Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore, especialmente com o seu irmão Theseus, (Callum Turner) que ganha um espaço e uma química fraternal maior. Aliás, eles protagonizam uma sequência hilária em que a dupla precisa dançar e mexer os quadris para conduzir um grupo de escorpiões e, consequentemente, fugir das garras do escorpião gigante. É uma cena que garante diversão e ação ao mesmo tempo.
Um ponto interessante dentro do desenvolvimento de Newt é que o personagem utiliza mais de suas habilidades de magizoologista, usando sua varinha apenas em ocasiões pontuais.
Desta vez, o filme traz menos espécies fantásticas ao universo, focando apenas na relevância do Qlit e nas criaturas já apresentadas como Pelúcio e Tronquilho que, em alguns momentos, roubam a cena com extrema fofura.

Do lado dos trouxas, o filme traz de volta o seu maior representante, Jacob (Dan Fogler), um dos maiores acertos dentro do elenco da franquia. Jacob traz a naturalidade e espontaneidade que falta nos demais personagens, quebrando um pouco a postura “classuda” dos demais, o que envolve mais os sentimentos do espectador no decorrer da história, seja no seu reencontro com Newt; na cena em que ele ganha uma varinha do Dumbledore; confronta inimigos no mesmo espaço; reencontra e protege a Queenie, o seu grande amor; luta e se sacrifica para proteger quem ama. Sem dúvidas, Jacob ganha um ótimo desenvolvimento neste terceiro filme.
Com relação aos novos personagens, temos a apresentação de Lally Hicks (Jessica Wlliams), professora de Hogwarts e quem luta ao lado de Dumbledore e o grupo. Lally é determinada, extremamente inteligente e expert em magia, mas a sua postura extremamente elegante a torna um pouco robótica nos diálogos e com menos encanto. De novo, há uma grande falta de naturalidade em certos personagens, como a Lally.
Qual o segredo, Dumbledore?

Já adianto que há segredos sim e a trama faz jus ao título do filme, porém, talvez as descobertas não causem tanto impacto, especialmente naqueles que acompanharam as divulgações do filme, e quem conhece a história do Dumbledore dentro do universo de Harry Potter.
Assim, o que fora dito antes é afirmado no filme, como o fato de Dumbledore (Jude Law) ter sido apaixonado por Grindelwald na época da juventude, o que leva ambos a realizarem o pacto de sangue, uma vez que prometeram lutar juntos para um bem maior ao Mundo Bruxo. Tal motivação para este pacto faz o público entender a razão para o Alvo não lutar contra o vilão. Para que o embate prossiga, é necessário que o pacto seja quebrado, como vemos na primeira conversa dos dois no início do filme e, é claro, no confronto ao final do filme.
Outro detalhe que ganha um bom desenvolvimento é o passado de Dumbledore em que o filme faz questão de adentrar para mostrar a relação com Aberforth, a briga entre eles (por conta de Grindelwald) que ocasionou na morte da irmã Ariana, um ponto já mencionado nos livros de Harry Potter na qual o roteiro resgata e reafirma para, assim, o espectador compreender o que realmente gira em torno de Dumbledore e como isso afeta as pessoas próximas.
E o final?

A reta final de Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore entrega um desfecho bom como o golpe de Grindelwald e o resultado da eleição na qual Qlit reconhece Dumbledore como o verdadeiro líder de coração puro, mas escolhe Vicência Santos como a nova líder.
Além disso, o filme apresenta o início de possíveis encerramentos de alguns arcos, como o tão aguardado casamento da Queenie (Alison Sudol) e do Jacob. É possível que eles retornem no 4º filme, mas pelo menos este ‘plot do amor’ já está finalizado.
Além disso, há a participação especial de Tina Goldstein (Katherine Waterston) que faz apenas uma ponta, indicando que seu arco será mais desenvolvido nos dois últimos filmes ao lado de Newt Scamander.
Por fim, o público assiste a derrota de Grindelwald, a quebra do pacto e um Dumbledore rumo à preparação para, finalmente, ter o seu confronto com o vilão de uma vez por todas, agora que o caminho está livre.
Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore é melhor que o segundo filme, mas não é perfeito. Há falhas consideráveis e entrega um drama mais interessante que pode emocionar pontualmente. A nostalgia permanece de forma dosada e os personagens continuam cativantes à sua maneira, com alguns em destaque maior. Vale a pena dar uma chance e continuar acompanhando a jornada desta franquia mágica.
Ficha Técnica
Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore
Direção: David Yates
Elenco: Eddie Redmayne, Jude Law, Mads Mikkelsen, Ezra Miller, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Katherine Waterston, Maria Fernanda Cândido, Jessica Williams, Poppy Corby-Tuech, Richard Coyle, William Nadylam, Victoria Yeates, Oliver Masucci, Dave Wong e Fiona Glascott.
Duração: 2h22min
Nota: 3,0/5,0