Uma Família Feliz chega aos cinemas e traz um suspense dramático de aparências, cujas entrelinhas da perfeição expõe dramas da maternidade, pressões sociais e uma ruptura mental em meio a um mistério que ronda estes personagens.
É um filme que não entrega tudo mastigado, cada informação brota naturalmente na narrativa para pegar o espectador de surpresa, que irá encaixar peça por peça para compreender o que se passa, culminando em um desfecho brutal que pode dividir tanto as opiniões quanto os sentimentos. É um filme ousado ao tratar de temáticas relevantes e polêmicas na sociedade.
Com direção de José Eduardo Belmonte e roteirizado e argumentado por Raphael Montes, autor do livro ‘Uma Família Feliz, na qual o filme adapta, a trama acompanha a história de uma família feliz e aparentemente sem problemas. Eva e Vicente são pais de filhas gêmeas e, agora, Eva está grávida do seu terceiro filho.
Quando Eva dá à luz ao filho Lucas, a alegria surge no olhar da mãe e de todos. Mas, aos poucos, este sentimento é consumido por uma depressão pós-parto, em que Eva questiona a sua capacidade de ser mãe, cuidar da casa e do marido e ainda focar em seu trabalho na construção de bonecos bebês reais (reborn), enquanto aparenta gratidão e plenitude para as pessoas de fora, mesmo que suas expressões faciais e corporais digam o contrário.
E esta aflição interna se complica quando coisas estranhas ocorrem quando as filhas gêmeas aparecem com hematomas pelo corpo. Com isso, Eva é acusada de machucar as meninas, levando o marido a afastá-la da família, além de uma retaliação feita pelos vizinhos do condomínio e amigos. Agora, ela precisa lidar com sua fragilidade, enquanto procura pela verdade para provar a sua inocência e, assim, reestruturar sua família. Mas, talvez, este seja um caminho sem volta…

Uma Família Feliz mostra que há algo de muito errado com esta família, quando a sequência inicial mostra um corpo sendo enterrado, Eva desesperada e com ódio nos olhos, enquanto coloca uma das filhas no carro e vai em alta velocidade de frente para um caminhão. Obviamente, temos um começo impactante que faz o espectador se prontificar a prestar a atenção para saber o que está acontecendo.
Com este gancho perfeito, a narrativa já retorna para sua linearidade em que conhecemos cada integrante desta família: Vicente é um jovem advogado em ascensão; Eva é mãe, dona de casa e trabalha como artesã de bonecos bebês reais, talvez um talento nutrido desde a infância como a história aponta; e as filhas gêmeas Ângela, muito agitada, extrovertida e que parece não se importar com o seu redor; e Sara, que é mais tímida, recatada e inteligente. Mas é uma garota doente e isso é notado pela peruca que usa.
O caos se engatilha quando a atmosfera da alegria diminui ao percebermos Eva lutar contra a depressão pós-parto. Ela entra em conflito entre cuidar de um recém-nascido que não consegue amamentar; cuidar das meninas mais crescidas que necessitam de atenção, especialmente por querer seus desejos realizados de imediato, sem ainda ter um filtro mais racional para lidar com os problemas em volta; o trabalho que exalta o seu talento, tornando-se a válvula de escape de uma rotina exaustiva; e fingir aos amigos, familiares e vizinhos uma plenitude, mesmo que seu rosto, corpo e mente demonstrem exaustão.
E quando as meninas e o bebê surgem com hematomas e a pele marcada, tanto os personagens quanto o público logo suspeitam de que Eva possa ser a culpada. Mas por quê? Como ela fez isso? Quando? Onde?

Se tem uma coisa que Uma Família Feliz sabe trabalhar é com a narrativa que aponta, e cita as informações em cenas, diálogos rotineiros, conversas casuais, desenhos e observações com o propósito de não entregar tudo mastigado. Com isso, cria-se evolutivamente uma atmosfera de suspense bastante enigmática, em que o espectador permanece em um limbo constante em que as informações o jogam de um lado a outro. Além disso, esta ousadia exige que o público exercite a linha de raciocínio para juntar as peças deste quebra-cabeça antes da verdade ser escancarada.
Assim, o filme embala esta história para destrinchar um lado mais obscuro da maternidade, um assunto ainda visto como tabu, na qual a figura materna é questionada e julgada por não ser perfeita, por mostrar falhas, por não ter e dar a atenção – idealizada externamente – aos filhos e por querer dividir o tempo para si e não somente ao papel de mãe. E é exatamente isso que vemos acontecer com Eva antes da acusação grave, especialmente quando Vicente trata o seu trabalho com desdém, criando uma ferida interna que, mais a frente, alimentará a bola de neve.
E quando a perfeição da maternidade é brutalmente trincada com a acusação, seguida de um linchamento virtual e pessoal, mais informações são adicionadas na história para entendermos, de fato, como funciona os bastidores desta família. Isso choca gradualmente quando o público tem a sua atenção voltada para vários lados desta história: como era a vida de Vicente antes de conhecer Eva? Como as filhas lidam com a chegada do irmão recém-nascido? Como os pais e a irmã Ângela lidam com a doença de Sara?
Além disso, o filme também faz a gente mergulhar na mente de Eva para entendermos e sentirmos exatamente o mesmo que ela, entre um cansaço físico e mental em meio a depressão pós-parto, além de possíveis lapsos de memória que podem estar apagando momentos cruciais onde as respostas se encontram. E isso aumenta cada vez mais o mistério e a angústia por não termos uma resposta na palma da mão, tornando o filme instigante.

A atriz Grazi Massafera está fenomenal na pele de Eva, que é colocada como o pilar deste caos. A atuação é minuciosa, crescente, conflitante e explosiva à medida que a trama atinge um patamar. E juntamente com o público, a protagonista também descobre e se choca ao lidar com uma verdade indigesta.
O ator Reynaldo Gianechinni é Vicente, um pai extremamente amoroso e atencioso, além de um bom marido. Mas a desconfiança em torno deste personagem cresce conforme sua personalidade sonsa e duvidosa brota nas entrelinhas para causar mais dúvidas. É um personagem que desperta raiva por permanecer com os olhos vendados diante do que está realmente acontecendo, sem demonstrar vontade em procurar pela verdade.
As filhas gêmeas interpretadas por Luiza Antunes e Juliana Bim entregam dúvidas e receios ao apresentar personalidades bem distintas e questionáveis para uma criança. Só digo uma coisa: prestem atenção.
Considerações finais

A reta final de Uma Família Feliz finalmente apresenta a verdade por trás deste mistério que se torna impactante aos nossos olhos, culminando em um desfecho brutal que se conecta ao que foi visto na primeira cena. É um final que não é totalmente explicado, sendo levado por atos impulsivos e crus, cuja resposta e explicações estão somente na mente do responsável por este desfecho.
Claro que a interpretação também fica por conta do próprio espectador, que irá avaliar o final de acordo com todas as informações dadas na história, um ponto que dividirá opiniões, mas que também pode agradar muitos. Aliás, há uma cena pós-créditos fundamental que despertará sentimentos ainda mais conflituosos. E é uma cena sensacional.
Uma Família Feliz entrega uma narrativa que prova que uma vida perfeita e de aparências pode ter as rachaduras mais profundas. Um suspense que sabe construir uma atmosfera duvidosa em constância, entrega informações importantes de forma natural, cria-se um limbo ao espectador para analisar e julgar os personagens, chocando quando a verdade surge.
Uma Família Feliz entrega uma história complexa e bem construída com um final que irritará os fãs de ‘finais explicados’.
Ficha Técnica
Uma Família Feliz
Direção: José Eduardo Belmonte
Elenco: Grazi Massafera, Reynaldo Gianecchini, Luiza Antunes e Juliana Bim
Duração: 1h55min
Nota: 3,9/5,0