Sabe aquele suspense despretensioso, com boa produção, bom elenco e uma história que vai direto ao ponto a partir de uma premissa simples, instigante e sem firulas? O Telefone Preto (The Black Phone) é o exemplo de que uma trama de horror bem executada sem fugir da sua proposta minimalista pode ser um ótimo acerto em vários aspectos, desde os personagens fortes e cativantes, jump scares bem utilizados e um desfecho plenamente satisfatório. Vale a pena assistir e vou te dizer o porquê.
Com direção de Scott Derrickson (Doutor Estranho, A Entidade, O Exorcismo de Emily Rose), O Telefone Preto é baseado no conto ‘The Black Phone’ do livro Fantasmas do Século XX, escrito pelo autor Joe Hill, e conta a história de Finney Shaw, um menino de 13 anos, inteligente, tímido e inseguro que, um dia, é sequestrado por um assassino sádico. O garoto é preso em um porão à prova de som e o único objeto no cômodo é um telefone preto desconectado. Porém, quando o telefone toca, Finney descobre que pode ouvir as vozes das vítimas anteriores do seu sequestrador.

O Telefone Preto se passa na década de 1970, o que faz a ambientação ganhar um cenário com filtro vintage como se o espectador estivesse acompanhando o desenrolar da trama em um rolo de filme antigo, aumentando a atmosfera do suspense que não hesita em pesar a dose de agressividade nesta ambientação, especialmente por parte dos personagens mirins que resolve os conflitos na base da violência, sem dispensar a boa dose de sangue com socos, chutes, empurrões e pedradas, tornando tudo ainda mais cru, bruto e visceral.
É nesta cidade pequena que o filme introduz o assassino sádico cujo prazer está em sequestrar as crianças das redondezas, camuflado pela imagem de um mágico bondoso e atrapalhado que dirige uma van, na qual um balão preto é deixado como único vestígio de onde a vítima foi vista pela última vez.
A aparição do assassino não exige nenhum ataque feroz, apenas a sua presença é o suficiente para que o espectador saiba que o pior está por vir. Aliás, é possível até enxergar algumas similaridades com It – A Coisa, como a presença do balão, a figura imóvel do vilão prestes a fazer uma nova vítima, o estilo retrô dos cenários e, é claro, as crianças perambulando em suas bicicletas como o centro das atenções deste mal que circula o local.

O ator Ethan Hawke dá vida ao assassino sádico, que assusta menos com as palavras e mais com sua postura imponente e a máscara cuja faceta muda de acordo com o humor e seu comportamento diante da próxima atitude que terá.
É importante deixar claro que, em nenhum momento, a história tem como objetivo mostrar o passado deste vilão ou entregar alguma justificativa para explicar a razão para o que ele faz. O antagonista age por simples prazer sádico, em uma brincadeira na qual a vítima é induzida a aceitar o seu jogo doloroso e fatal. O que importa não é motivação deste mal, mas como o protagonista irá sobreviver e sair desta situação.
Ethan Hawke está ótimo na pele desta figura monstruosa, mas quem rouba a cena são as crianças interpretadas por Mason Thames – inclusive, este é o seu primeiro trabalho no cinema – e Madeleine McGraw. Os dois interpretam os irmãos Finney e Gwen, que moram com um pai duro, inflexível a qualquer tipo de barulho e agressivo ao ensinar alguma ‘lição’ aos filhos, o que rende uma cena bruta entre pai e filha que pode até servir de gatilho para alguns.

De um lado, temos uma Gwen mais ‘dura na queda’, que rebate as atitudes do pai (Jeremy Davies), se impõe na escola e encara qualquer um que lhe desafia, seja nas palavras ou na força, o que rende alguns alívios cômicos no decorrer da história. O que torna esta personagem ainda mais interessante é o fato da garota ter um dom paranormal peculiar, um ponto que contribui positivamente durante as reviravoltas da trama.
Já Finney é introspectivo e inseguro, sempre mantendo-se de pé a todo momento em que é confrontado por alguém, seja com o bullying que sofre na escola ou o comportamento hostil do pai. São estas dores e cicatrizes que servem de muleta para Finney adquirir força, confiança e não desistir de salvar a própria pele quando cai nas mãos do sequestrador.
Boa parte do desenvolvimento de O Telefone Preto se passa no porão frio e com poucos recursos, mas suficientes para ajudar o protagonista a encontrar meios de sair dali, apoiado por um telefone que toca misteriosamente. Esta atmosfera paranormal torna tudo ainda mais instigante, seja pelas vozes misteriosas que ecoam nas ligações, as dicas dadas ao garoto e os jump scares bons, pontuais e nada gratuitos, que garantem o bom e velho susto que faz o espectador dar um pulinho na cadeira.
A dinâmica de vítima e sequestrador é instigante e inteligente, pois Finney não facilita o jogo sádico do vilão, tornando a situação entediante ao antagonista enquanto o garoto ganha tempo e espaço para pensar e agir de forma prudente.
Considerações finais
A reta final causa medo e angústia em que tudo pode ir por água abaixo a qualquer instante, caso um movimento seja atrasado ou uma decisão seja contrária. No entanto, o desfecho é bom, satisfatório e com uma luz ao fim do túnel para todos.
O Telefone Preto é um suspense despretensioso e com pitadas de horror que mistura alívio cômico e paranormalidade em uma história simples sobre insegurança, medo, esperança e determinação em um cenário macabro, com um vilão sádico e crianças fortes, inteligentes e carismáticas em um thriller que cumpre a sua proposta.
É possível achar que O Telefone Preto não forneça muitas explicações ou justificativas para determinadas ações, mas acredito que o filme não tem o propósito de preencher estas lacunas, apenas entregar a resolução eficaz e bem executada. É por isso que o novo thriller conquista o coração do público que sai da sala do cinema satisfeito com o que viu.
Ficha Técnica
O Telefone Preto
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Ethan Hawke, Mason Thames, Madeleine McGraw, Jeremy Davies, James Ransone, E. Roger Mitchell, Troy Rudseal, Miguel Cazarez Mora, J. Gaven Wilde, Brady Hepner, Rebecca Clarke, Brady M. Ryan, Spencer Fitzgerald, Jordan Isaiah White, Jacob Moran, Tristan Pravong e Banks Repeta.
Duração: 1h43min
Nota: 3,5/5,0