O Enfermeiro da Noite (The Good Nurse) é a nova produção da Netflix que chama a atenção por ser um true crime da medicina com uma história impactante performada por um ótimo elenco. O longa ganha um ritmo lento e sorrateiro propositalmente, mas que nem todos vão apreciar. Ainda assim, é uma história que vale a pena conhecer, especialmente quem for fã deste gênero.
Com direção de Tobias Lindholm e roteiro de Krysty Wilson-Cairns baseado no livro The Good Nurse do autor Charles Graeber, O Enfermeiro da Noite acompanha Amy, uma enfermeira e mãe solo de bom coração, mas a rotina de turnos noturnos no hospital é tão puxada que ela já está no seu limite. O fato de que ela sofre de uma doença cardíaca grave só faz com que tudo fique ainda pior.
Mas a chegada do novo enfermeiro Charlie Cullen parece dar um pouco de paz a essa rotina difícil: os dois logo desenvolvem uma amizade sincera e Amy, pela primeira vez em muitos anos, finalmente começa a achar que ela e as filhas vão ficar bem. O problema é que vários pacientes começam a morrer em circunstâncias estranhas, e Charlie parece ser o principal suspeito. Para descobrir a verdade, Amy terá que arriscar a sua segurança e a das filhas.

Em primeiro lugar, o longa apresenta uma narrativa bem lenta e sorrateira com o propósito de acompanhar o ritmo e a forma suspeita de como Charlie age. Pode ser que alguns achem um pouco entediante, mas é importante comprar esta ideia, uma vez que o filme se desenvolve de acordo com o comportamento do personagem. Assim, a história se inicia com Charlie observando os demais médicos e enfermeiros salvarem um paciente que entra em óbito de imediato, levantando logo a dúvida se não passa de um evento circunstancial ou proposital.
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Com isso, o público é direcionado a acompanhar a rotina de Amy no hospital e em casa, além do seu problema de saúde que a deixa em cima do muro por conta do que poderá perder se revelar a verdade sobre sua condição. A relação dela com Charlie é crescente e tanto ela quanto o espectador compram a amizade dos dois, especialmente pelo fato dele apoiá-la nos momentos cruciais, tornando-se um grande parceiro de trabalho e amigo pessoal.
Quando ocorre a primeira morte de uma paciente cujo diagnóstico não levantava nenhum risco, as investigações iniciam de dentro para fora, ou seja, o próprio hospital logo suspeitou e, por padrão, acionou a polícia em que os detetives não hesitam quando enxergam as primeiras falhas e percebem que há algo errado na procedência diante do caso.
Outro ponto positivo é que O Enfermeiro da Noite não necessita deixar tudo às claras sobre o que está ocorrendo, ou seja, os diálogos curtos e certeiros, as provas e a performance do elenco contribuem à interpretação das cenas, que são complementadas com um jogo de câmeras e luzes que tornam a atmosfera sombria e misteriosa. Há muitos closes nos rostos dos personagens que, muitas vezes, surgem em contornos escuros enquanto o cenário segue com uma iluminação fosca e de fundo, com suspeitas altas em Charlie, enquanto Amy tenta entender o que realmente está acontecendo à medida que vidas são perdidas pelos corredores do hospital inexplicavelmente à primeira vista.

Muito do desenvolvimento da história se deve a excelente atuação da dupla de protagonistas. O ator Eddie Redmayne (Animais Fantásticos) apresenta um Charlie camuflado sob a pele de um homem adequado, respeitado, simples e atencioso seja dentro e fora do hospital ao ponto de não suspeitar dele à primeira vista. A imagem de ‘anjo da morte’ surge com a tensão à medida que as provas vão concretizando-o como culpado, mesmo que em nenhum momento o filme mostre Charlie se quer tocar em um paciente de forma imprudente com a intenção de matar. Aos poucos, o espectador fica ciente do seu modus operandi e anseia pela motivação e explicação para tais atos hediondos que, por sinal, causam raiva e repulsa.
A atriz Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye) também entrega uma ótima performance. Ao contrário de Charlie, Amy expõe de forma real e palpável suas qualidades como enfermeira e mãe, mesmo que os obstáculos lhe desafiem o tempo todo. A química com Charlie não a torna cúmplice, enaltecendo a sua inocência ao enxergar uma possível boa pessoa que chega para finalmente tirar um grande peso de suas costas. É a investigação e as descobertas que chacoalham e fazem Amy tomar as decisões certas de forma pensada, controlada e sob proteção.

Outro ponto positivo de O Enfermeiro da Noite é a retratação da eficácia da polícia, pelo ponto de vista dos detetives Braun (Noah Emmerich) e Baldwin (Nnamdi Asomugha) que não aceitam as provas pela metade e ficam indignados como o hospital realiza a investigação por debaixo do tapete.
Se tem um detalhe que exalta o espectador é a má conduta do hospital e dos demais que simplesmente silenciaram o caso, deixaram o culpado sair ileso, a fim de não trazer danos financeiros e judiciais. E isso é visto pela forma como a diretora do hospital, Linda Garren (Kim Dickens) age com hipocrisia com o intuito de livrar-se de apenas um contratempo. Assim como neste filme, tal temática similar também já foi retratada nas séries Dr. Death e Cinco Dias no Hospital Memorial.
Final explicado

O Enfermeiro da Noite entrega uma história que se desenrola conforme a conduta de Charlie em que, no final, temos a confissão dita em poucas palavras pelo personagem com um texto complementando o desfecho da trama.
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A verdade é que na vida real, Charlie Cullen nunca revelou o verdadeiro motivo para matar os pacientes. Acredita-se que o número de vítima seja em torno de 400 pessoas durante os 16 anos de trabalho como enfermeiro. Mas para evitar a pena de morte, Charlie confessou o assassinato de 29 pacientes, cumprindo 18 prisões perpétuas sem liberdade condicional até 2403.
Charlie usava a técnica de ingerir doses altas de insulina e outro remédio no soro fisiológico antes de qualquer enfermeiro administrar o medicamento ao paciente, compreendendo como ele conseguia matar sem tocar no paciente, deixando pistas que seriam descobertas apenas em autópsias realizadas ou no sistema que, muitas vezes, foi encoberto. Na vida real, não houve nenhum processo criminal contra os hospitais, o que aumenta a indignação do espectador por saber que isso aconteceu na vida real.
Apesar de uma história impactante e trágica de diversas formas, houve um final feliz para Amy que, finalmente, fez a cirurgia cardíaca e, atualmente, mora na Flórida com as filhas e os netos. E ela continua sendo uma boa enfermeira.
O Enfermeiro da Noite é um true crime da medicina que traz uma história que choca em meio ao silêncio. Vale a pena dar o play.
Ficha Técnica
O Enfermeiro da Noite
Baseado no livro The Good Nurse de Charles Graeber
Direção: Tobias Lindholm
Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Nnamdi Asomugha, Noah Emmerich, Kim Dickens, David Lavine, Devyn McDowell, Alix West Lefler, Marcia Jean Kurtz, Myra Lucretia Taylor, Ajay Naidu e Jennean Farmer.
Duração: 2h01min
Nota: 3,9/5,0