Em 2017, o cinema entregou a adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente, um dos livros de sucesso da carreira de Agatha Christie, deixando um gancho ao final da história para um novo capítulo das aventuras de Hercule Poirot. Após cinco anos de espera, chega Morte no Nilo (Death on the Nile), adaptado de outra obra da autora que traz um novo assassinato e uma nova investigação em meio ao glamour, a ostentação, hipocrisia, vingança e amor em uma ambientação acalorada em terras egípcias.
Mesmo com modificações visíveis na construção tanto na narrativa quanto dos personagens, Morte no Nilo entrega uma trama instigante que agrada quem leu a obra original e surpreende quem não teve contato com o livro diante das boas reviravoltas e o desfecho ao estilo tradicional de Agatha Christie finalizar os seus mistérios.
Com direção de Kenneth Branagh – que também dirigiu a primeira adaptação – Morte no Nilo se passa na década de 1930 ao acompanhar as férias do detetive belga Hercule Poirot a bordo do glamuroso navio a vapor Karnak no Egito. O que era para ser dias de descanso e prazer, o momento se transforma em uma terrível busca por um assassino, enquanto uma lua-de-mel idílica de um casal perfeito é tragicamente interrompida.
A história se inicia com um pequeno prequel em preto e branco que dá um vislumbre ao espectador sobre o passado de Hercule Poirot quando prestou serviços ao exército ainda jovem, culminando em uma guerra que resultou em grandes perdas e traumas. Aqui, o público toma conhecimento sobre o grande amor da vida do detetive e a origem do famoso bigode, marca registrada do protagonista.
Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente
Tal sequência inicial foi adicionada para ganharmos novas informações a respeito do personagem, uma vez que suas características principais já haviam sido apresentadas no filme anterior. Era necessário acrescentar tal parte à história? Sinceramente não, mas também não prejudica a trama, apenas complementa a temática da paixão desenfreada e o ciúmes, na qual o detetive decifra as entrelinhas para desvendar o caso.

Assim, Morte no Nilo engata neste mistério que se inicia com glamour e traição em um triângulo aparentemente amigável. Na trama, conhecemos Linnet Ridgeway (Gal Gadot), uma mulher que chama a atenção pela beleza, o status e o dinheiro. Linnet é praticamente a personificação do sonho que qualquer mulher ou homem gostaria de alcançar, o que desperta olhares duvidosos e julgadores, ciúmes, raiva e inveja, principalmente dos mais próximos a ela.
O primeiro ponto de virada que faz a história deslanchar é a traição de Linnet com a melhor amiga Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey), em que uma acaba despertando o desejo e a paixão no noivo da outra. Assim, Simon Doyle (Armie Hammer) termina o noivado com Jackie e se casa com Linnet, o que deixa todos em alerta, afinal, qual a razão para uma mulher linda e milionária se unir com um rapaz que tem pouco a oferecer?
Com isso, a trama ganha uma ambientação egípcia na qual todos os personagens se reúnem para comemorar o enlace matrimonial e a lua-de-mel do cobiçado casal. Junto a eles está o detetive que, além das férias, se encontra em tal lugar por uma motivação extra que se juntará ao assassinato, aumentando o caos que se instala no navio.
Quem conhece as obras de Agatha Christie, sabe que a autora apresenta uma fórmula tradicional em desenrolar os seus mistérios, na qual o filme segue fielmente, mas modifica alguns detalhes. Sendo assim, Morte no Nilo introduz cada personagem, apresenta sua ligação com o casal, a razão para estar no navio e a motivação que o conecta com o assassinato, tornando cada um suspeito dentro do caso, sem fugir do estilo já construído na obra original. Além disso, há algumas ligações entre estes personagens que faz com que as dúvidas e o medo aumentem sobre tudo o que está acontecendo.

Assim, temos Marie Van Schuyler (Jennifer Saunders), madrinha de Linnet, e sua enfermeira acompanhante Mrs. Bowers (Dawn French); a cantora Salome Otterbourne (Sophie Okonedo), acompanhada de sua sobrinha e gerente Rosalie Otterbourne (Letitia Wright), convidadas para cantar no casamento e acompanhar na viagem pelo Egito; Bouc (Tom Bateman), personagem que apareceu em Assassinato no Expresso do Oriente, está de volta ao lado de sua mãe Euphemia (Annette Bening), uma pintora renomada, desdenhosa e superprotetora do filho. Bouc é amigo de Hercule Poirot e braço direito do detetive durante os interrogatórios; Louise Bourget (Rose Leslie) é a criada pessoal de Linnet; Sr. Andrew (Ali Fazal), é “primo” e amigo de infância de Linnet, cujo escritório de advocacia cuida dos negócios da família Ridgeway; e Dr. Linus Windlesham (Russell Brand), médico cujo pedido de casamento foi rejeitado por Linnet.
Crítica: Moonfall – Ameaça Lunar
O caos se instala quando Linnet e Simon são perseguidos na viagem por Jackie, que declara vingança para recuperar seu noivo, uma vez que ela acredita que o amor entre eles não acabou. Com todos no mesmo lugar e cada um com suas respectivas razões para estar ali e com sentimentos resguardados, o grande assassinato demora a acontecer, mas quando tal reviravolta eclode na trama, a investigação começa e se estende da metade para o final.
Um ponto interessante de Morte no Nilo é que a narrativa entrega aos poucos as motivações dos personagens para ser o autor do crime, mas, ainda assim, as dúvidas permanecem, uma vez que as ligações com os fatos não se conectam inteiramente, o que instiga ainda mais o espectador. A paixão cega e a vingança, temáticas sempre pontuadas na história, deixam alguns detalhes previsíveis e em evidência ao público, mas ainda assim é possível se surpreender com elementos surpresa que vão surgindo no decorrer da investigação.

Mais uma vez, Kenneth Branagh entrega um Hercule Poirot como ponto alto do filme e o ponto de vista principal desta trama, em que o público investiga junto com o personagem e encontra as pistas cruciais. As características peculiares do detetive são enfatizadas novamente, como o seu toque com relação aos objetos e as comidas, sua metodologia e, é claro, a inteligência perspicaz que foca na leitura de cada suspeito, alimentando o leque de informações sobre este mistério.
No geral, posso dizer que Morte no Nilo dá espaço para todos os personagens, afinal, cada um se encontra em uma posição delicada para ser o assassino, mas os maiores destaques são Bouc e Rosalie, especialmente no desenrolar da investigação; Simon fica em cima do muro não só por ser suspeito, mas também por ser vítima, já que é perseguido por Jackie, uma personagem movida por sentimentos conturbados e mal resolvidos. Aliás, é preciso ressaltar a boa interpretação de Emma Mackey (Sex Education) no papel, que entrega carisma em uma personagem carregada por uma ambição vingativa e maliciosa, engatada pela dor dilacerante do coração partido feita pela melhor amiga e o noivo.
Já Gal Gadot foi a escolha certa para o papel de Linnet. A atriz entrega glamour, beleza, sofisticação e charme em uma personagem que desperta desejo, cobiça, amor e ódio. É possível que o próprio espectador sinta sentimentos contraditórios com relação a ela, já que a personagem não é 100% perfeita, mesmo aparentando, e entrega atitudes bastante julgáveis.
Em termos técnicos, Morte no Nilo apresenta uma fotografia bonita de locais recriados com efeitos especiais que formam o cenário do thriller. A ambientação ganha cores fortes e claras, com a entonação amarelada sempre em destaque para ressaltar o calor das areias egípcias. Tal local exuberante torna-se um contraste por servir de palco para uma grande tragédia.
Outro ponto técnico interessante é o movimento das câmeras especialmente durante os interrogatórios, que giram em torno dos personagens para aumentar o suspense e, consequentemente, a dúvida sobre o caráter e se as falas (afirmação e debates) são verdadeiras ou não. A direção da câmera serve como o olhar julgador tanto do detetive como do próprio público diante de tal suspeito.
Livro X Filme

Por ser uma adaptação, obviamente haverá diferenças entre a obra original e a cinematográfica, e Morte no Nilo não foge disso e entrega mudanças boas e positivas que faz o público aproveitar e se surpreender ambas as partes, como foi o meu caso. No geral, posso dizer que o roteiro carrega toda a essência da história com alta porcentagem de fidelidade, diminuindo o número de personagens e mudando os aspectos com relação aos perfis e suas dinâmicas dentro da trama, deixando a história mais enxuta e posicionando as peças para que o mistério continue a funcionar.
De exemplo, o personagem Bouc não está no livro. Quem ajuda e apoia Hercule Poirot na investigação é o coronel Race, que se encontra no navio para capturar outro assassino. Outro ponto que diferencia o livro e filme são os cortes de alguns personagens, uma vez que há muitos nomes citados na obra e que não faz falta na adaptação, como é o caso Joana Southwood, Cornelia, Ferguson e o Dr. Bessner. No caso, o Dr. Windlesham não é somente o ex-parceiro de Linet, como também foi colocado no cargo de médico do navio. Achei tal junção boa e pertinente à história.
Assim como no filme, o livro também apresenta uma história não corriqueira para apresentar o assassinato e o assassino, introduzindo bem cada personagem, seus status e conexão com a vítima para, assim, compreendermos aqueles que entram na lista de suspeitos, criando o ápice das reviravoltas deste mistério.
Considerações finais

O terceiro ato deslancha como uma tempestade de areia no deserto para o espectador, que fica ciente da resolução do caso ao acompanhar o raciocínio final de Poirot, que entrega uma sequência enérgica e dinâmica ao explicar o passo a passo dos acontecimentos, todas as conexões dos personagens entre si e com o assassinato, resultando na esperada revelação da identidade do culpado, uma reviravolta que surpreende especialmente aqueles que não leram o livro.
Morte no Nilo entrega um início não necessário, mas curioso e complementar à trama, caminhando para uma satisfatória introdução dos personagens, cujas conexões se ressaltam com o assassinato e se fortificam com uma investigação intensa, interessante, instigante e bem solucionada pelas mãos de Hercule Poirot, cuja perspectiva, sagacidade e inteligência não ficam a desejar, assim como os demais personagens que surpreendem com suas respectivas reviravoltas.
O final ganha uma sequência teatral trágica, cuja cena pode até se tornar uma obra de arte a ser emoldurada. Morte no Nilo ganha uma adaptação positiva que tanto os leitores ou não de Agatha Christie sairão satisfeitos com o que acabou de assistir.
Quem é o assassino?

Para quem deseja saber o que realmente acontece em Morte no Nilo, esta última parte conterá spoilers. Quem morre tanto na obra original quanto na adaptação é Linnet Doyle, assassinada com um tiro na cabeça enquanto dormia, no momento em que ocorre a discussão em que Jacqueline atira na perna de Simon. A partir daqui, seguimos toda a linha de raciocínio de Poirot para encontrar o verdadeiro culpado. No entanto, a história surpreende, pois ocorre o roubo do colar de Linnet e novas mortes a fim de calar aqueles que sabem a verdade.
Crítica: Através da Minha Janela
A segunda vítima deste mistério Louise, empregada de Linnet, uma vez que ela viu quem saiu da cabine da patroa e passou a chantagear o assassino que, não pensou duas vezes, em silenciá-la para sempre. À medida que tensão aumenta e novas pistas surgem, Hercule Poirot descobre que seu fiel amigo e ajudante Bouc é quem roubou o colar da cabine e viu Linnet morta, mas resolve-se calar.
A verdade é que, por desespero, Bouc roubou o colar a fim de ter uma ajuda financeira para seguir em frente com sua vida ao lado de Rosalie, o seu grande amor, um romance não aceito por sua mãe que, consequentemente, contratou os serviços de Poirot para investigar Rosalie. É desta forma que descobrimos que o detetive não estava no Egito apenas de férias, além disso, Poirot conecta os pontos e descobre as verdadeiras intenções de Bouc que, no fim das contas, acaba se tornando a testemunha principal por ter visto quem saiu da cabine de Louise.
Mas no instante em que Bouc está prestes a revelar o nome do culpado, o rapaz é friamente assassinado na frente de Poirot e Simon, deixando o detetive devastado com a morte precoce do melhor amigo e ainda mais afiado em capturar o assassino.
É neste momento que Poirot percebe que mais pessoas estão conectadas a toda esta situação, ou seja, mais de um puxou o gatilho, enquanto outras carregam o peso da culpa diante de atitudes intransigentes.
Na sequência final, Hercule Poirot tranca todos em uma cabine e discorre a sua linha de raciocínio apontando o dedo aos verdadeiros culpados. Dr. Andrews é quem jogou a pedra do alto do templo para acertar Linnet e Simon, uma vez que sua empresa vem roubando dinheiro da família.
Já o assassino são dois: Simon e Jacqueline, uma vez que o amor entre os dois não acabou e o filme faz questão de enfatizar essa temática no decorrer da trama. Durante a discussão, Jacqueline atira com bala de festim em Simon, que finge estar ferido. No instante em que todos se assustam e pedem ajuda (e Poirot está dormindo porque foi “medicado” para não acordar), Simon pega a arma de Jacqueline e vai para a cabine e atira na cabeça de Linnet, em que o barulho é abafado pelo lenço que a Sra.Van Schuyler havia perdido. Logo depois, Simon atira em sua própria perna para mostrar que Jacqueline realmente lhe acertou, fazendo o Dr. Windlesham ajudar a cuidar da ferida.
Para acobertar Simon e todo o plano, Jacqueline é quem mata Louise, uma vez que ela havia visto o Sr. Doyle sair da cabine no momento em que Linnet foi morta; e também mata Bouc já que ele sabia quem era o verdadeiro culpado.
A cena final ganha um desfecho teatral, em que toda a verdade é estampada e Jacqueline não aceita ficar longe do amor de sua vida novamente. Assim, ela atira em Simon e nela mesma e os dois morrem juntos.
Ficha Técnica
Morte no Nilo
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Kenneth Branagh, Gal Gadot, Emma Mackey, Armie Hammer, Rose Leslie, Tom Bateman, Letitia Wright, Annette Bening, Jennifer Saunders Sophie Okonedo, Russell Brand, Ali Fazal e Dawn French.
Duração: 2h7min
Nota: 3,5/5,0