The Boys se torna uma das ótimas séries de 2019 por desconstruir a perfeita figura dos super-heróis que idolatramos nas telas, de forma irônica, explícita e repleta de sátiras. O programa mostra um icônico olhar sobre o que acontece quando heróis populares, famosos, influentes e adorados abusam de seus poderes em prol de si mesmos, prejudicando que está ao redor. Para impedir as falcatruas por trás dessas entidades poderosas, os sem-poder se comprometem a expor a verdade sobre o grupo e a corporação que o protege.
Já assistiu a série Good Omens?
Baseada na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson, a premissa surge dos seguintes questionamentos: já imaginou se os heróis fossem literalmente gente como a gente, incluindo todos os defeitos e qualidades de um ser humano? E se você trombasse com um deles ou, simplesmente, fosse atingido por um raio laser por acidente? E se você estivesse no lugar errado, na hora errada? Esqueça a figura perfeita de super-heróis que conhecemos, pois The Boys vai retratar nua e cruamente os dois lados desta figura endeusada, enfatizando o temperamento, a personalidade, o caráter de cada um e, até mesmo, ações inimagináveis para um herói. O mais interessante é que a série desconstrói tal retrato perfeito fazendo o espectador ter medo e raiva, já que as consequências podem ser irremediáveis.

Na trama, acompanhamos o personagem Hughie Campbell (Jack Quaid) que, infelizmente, sofre a grande tragédia ao ver sua namorada ser atingida por um dos super-heróis, o que o leva a ter sentimentos ambíguos e frustrantes fazendo qualquer idolatria acabar. É com esta reviravolta que a motivação do personagem surge e, consequentemente, o faz conhecer Billy Butcher (Karl Urban), que o convida a se juntar para iniciar a exposição e destruição definitiva dos heróis.

Em oito episódios de uma hora, a narrativa emblemática e afiada mergulha em boas temáticas abordadas pelo ponto de vista da Vought, um conglomerado multibilionário que cuida e administra a carreira dessas figuras. Há a obsessão em querer abraçar o mundo ao tentar se envolver com a política do país e incorporar os heróis dentro do exército a fim de combater ataques terroristas e outros males; e o envolvimento com a Igreja, trazendo discursos conservadores e ditando o que faz mal ou não à humanidade. As consequências se tornam piores com os mecanismos da Vought e as motivações que o leva a alcançar seus objetivos, tornando a conexão herói/política/religião uma grande bomba nuclear à população.
Heróis corrompidos

Ao falar de The Boys é praticamente impossível não falar dos The Seven, grupo aparentemente perfeito que se esconde atrás do escudo da fama e do culto à adoração de seus fãs. Mas são esses escudos que embaçam os olhares diante de diversos defeitos, atitudes e até crimes.
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Sem dúvida, Homelander/Capitão Pátria (Antony Starr) é o pior do The Seven e, sinto lhe dizer, mas a repulsa é garantida para este personagem que entrega um mix de hipocrisia, falsidade, egoísmo e obsessão. Além disso, ele mantém uma relação doentia com Madelyn Stillwell (Elisabeth Shue), vice-diretora da Vought, e o público entende tudo isso ao conhecer parte do seu passado e a extrema carência de afeto, mas jamais compactua com suas ações. Se assistir, vai entender perfeitamente que Homelander é uma perigosa caixinha de surpresa.

Starlight (Erin Moriarty) é a segunda heroína que mais ganha destaque na série, trazendo um lado mais verdadeiro e humanizado da figura do super-herói. O seu mundo arco-íris se desfaz quando ela toma conhecimento sobre o que se passa dentro do grupo, fazendo-a enxergar uma realidade intensa, injusta e fria. Queen Maeve (Dominique McElligott) e The Deep (Chace Crawford) têm uma presença menor, mas marcante na série. Aliás, The Deep tem a melhor cena envolvendo um golfinho e a Spice Girls. É simplesmente sensacional.
A-Train (Jessie T. Usher) traz o melhor retrato dos efeitos colaterais de ser um super-herói que manipula, é manipulado e traiçoeiro. Já Black Noir (Nathan Mitchell) e Translúcido (Alex Hassell) têm menos espaço nesta temporada e, infelizmente, o público não ganha informações mais aprofundadas a respeito deles.
Os rebelados

Pelo ponto de vista dos rebeldes, o telespectador conhece segredos instigantes sobre a Vought, passados sombrios e mascarados dos super-heróis, inclusive as motivações de cada um sentir uma enorme frustração pelas figuras endeusadas.
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Sem dúvida, Karl Urban é o destaque do grupo, que entrega um Billy Butcher sem filtro, destemido, furioso e excêntrico. Ao lado dele, brilham Hughie, Frenchie (Tomer Capon) e Mother’s Milk (Laz Alonso) que, separados, são apenas humanos comuns, mas juntos, se tornam as Spice Girls (palavras de Butcher na série e concordo com isso). Cada um brilha à sua maneira, entregando cenas cômicas e com uma dose excessiva de violência e sangue.
Considerações finais
O episódio final, sem dúvida, é energizante, chocante, revoltante e repleto de reviravoltas inesperadas e ganchos que fazem o público desejar a nova temporada o quanto antes.
The Boys entra para a lista de melhores séries do ano por ir em um caminho contrário e entregar um retrato desajustado, cru e revoltante sobre a figura enaltecida do super-herói. É uma série que prende a sua atenção do começo ao fim, com uma história tensa e intensa e um elenco formidável cuja química é arrebatadora.
Vale a pena assistir e conhecer uma versão menos adorada de um herói.
PS: A série já está renovada para 2ª temporada.
Ficha Técnica
The Boys
Criação: Eric Kripke, Seth Rogen e Evan Goldberg
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Elisabeth Shue, Erin Moriarty, Chace Crawford, Dominique McElligott, Jessie T. Usher, Laz Alonso, Tomer Capon, Karen Fukuhara, Nathan Mitchell, Jennifer Esposito, Colby Minife, Simon Pegg, Shaun Benson, Jess Salgueiro, Alex Hassell, Shantel VanSanten, Haley Joel Osment, Ann Cusack, Laila Robins e Brittany Allen.
Duração: 8 episódios (60min apróx.)
Nota: 9,0