Os fãs dos livros de Leigh Bardugo podem comemorar, pois a primeira adaptação finalmente chega na Netflix. Sombra e Ossos (Shadow And Bone) entrega uma boa história de fantasia com aventura, romance e mistérios em um mundo mágico. Talvez seja uma série que divida opiniões. Particularmente, tenho observações a fazer, mas, no geral, gostei da produção que me fez encantar por este novo universo fantástico, além de fazer torcer mais para os personagens coadjuvantes do que a protagonista. É uma temporada boa? Sim, mas pode melhorar em alguns aspectos caso ganhe uma renovação.
Sombra e Ossos é baseada na série best-sellers da autora Leigh Bardugo em que nos apresenta o universo Grisha (Sombra e Ossos, Sol e Tormenta e Ruína e Ascensão) em que o país Ravka foi dividido ao meio com o surgimento da Dobra da Sombras, projetada por um antigo grisha, o que faz muitos povos se virarem contra os grishas. Por conta deste mal, a região se dividiu, a obsessão pelo poder e a independência de ambas as partes cresceu e a guerra se alastrou, fazendo diversos povos se tornarem aliados ou inimigos. É na tentativa de atravessar a Dobra que a órfã e soldada Alina Starkov descobre ter um poder extraordinário que pode ser a chave para libertar o país.
Com a ameaça da Dobra das Sombras, Alina descobre ser uma Conjuradora do Sol e, por conta disso, é separada do exército e do melhor amigo Mal, e levada para treinar e fazer parte do exército de soldados mágicos conhecido como Grisha. Enquanto aprende mais sobre quem ela é, o seu dom e a controlar seu poder, Alina descobre que nem todo mundo aparenta ser o que é. No meio de sua autodescoberta, ela terá que enfrentar forças malignas, um grupo criminoso carismático e ainda desvendar o mistério por trás do surgimento da Dobra das Sombras. Será que o seu poder será suficiente para ela sobreviver e ajudar?
Narrativa

Sombra e Ossos entrega uma temporada com oito episódios de 50 minutos que, na minha opinião, conseguem prender a atenção do espectador com bons ganchos e, principalmente, por se apoiar na fantasia, aventura, no romance e mistério, gêneros que, geralmente, agradam o público.
Quem leu os livros, claramente poderá fazer comparações mais específicas com a adaptação. Até onde eu li da obra, posso dizer que a série é fiel à ordem dos fatos e apresenta o universo Grisha de forma mais simplificada a fim de agradar os fãs da história original e também atrair a atenção do público da Netflix. A grande pergunta que podemos fazer de início é: é possível entender a trama sem ter lido os livros? Sim, mas como disse, enquanto as obras entregam detalhes e maiores explicações, a adaptação apresenta este universo de forma mais simples e direta para um entendimento melhor e maior do espectador.
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Nesta 1ª temporada de Sombra e Ossos, nota-se diálogos mais diretos e simples em que o vocabulário grisha é menos complexo se comparado com o livro, uma vez que a obra original traz mais detalhes sobre os significados deste universo, como os grishas se dividem em grupos, os tipos de roupas que eles usam e por quê, quais tipos de poderes existem e quais as responsabilidades que cabe a cada grupo.
Ao longo da temporada, a série explica os tipos de grupos e os poderes que existem, mas não se aprofunda tanto quanto se esperava. O roteiro opta em usar termos mais diretos para uma melhor compreensão do que usar o nome de cada grupo no geral para não confundir. Quem leu os livros, vai ter uma bagagem maior com relação ao vocabulário e o conceito de cada grupo, seja o tipo de roupa que usa ou a habilidade que possui. Quem não leu, é possível entender da mesma forma só que mais simplificada.
Universo Grisha

Sombra e Ossos é uma fantasia repleta de magia, e quem tem este dom são chamados de Grisha. Estes fazem parte da elite mágica de Ravka, também conhecidos como soldados do Segundo Exército, em que praticam a pequena ciência, ou seja, eles manipulam a matéria em vários níveis. Seria a química em forma de magia.
Em Ravka, tudo é dividido de forma organizada para ajudar a identificar estas habilidades, seja pelo tipo de poder e os uniformes especiais chamados Kefta. Cada grupo tem uma cor especifica de sua vestimenta para lhe representar. Assim, os grishas são divididos em três grupos:
Corporalki: a ordem dos vivos e mortos. Aqui temos os Curandeiros (que curam) e os Sangradores, que possuem forças mais potentes, capazes de imobilizar uma pessoa controlando-a pelo corpo, seja pela falta de ar ou uma parada cardíaca.
Materialki: a ordem dos fabricantes. O grupo é composto pelos Durastes, que podem manipular qualquer coisa como vídro, metais, plantas, madeira, pedras, ou seja, moldar a forma, textura ou composição de um objeto. Já os Alquimistas são especializados em misturas de venenos, explosivos, etc.
Etherealki: a ordem dos invocadores. Este grupo é composto pelos Hidros que manipulam a água; os Infernais que manipulam os elementos que formam o fogo; e o Aeros que manipulam o ar. É neste grupo que os personagens Alina e Darkling (General Kirigan) pertencem, uma vez que ela pode invocar o sol e ele pode invocar as sombras.
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Tais explicações são mais complexas e detalhadas no livro, enquanto que a série tenta simplificar o máximo possível sem desmerecer e tirar a essência do universo e fazer com que o entendimento seja fácil ao público sem se tornar cansativo ou tedioso. E isso funciona.
Dinâmica dos personagens

É na dinâmica dos personagens e seus propósitos que fazem tanto Sombra e Ossos funcionar, mas também dar a suas derrapadas, um ponto que pode incomodar algumas pessoas. Novamente, temos uma série que faz o público não se sentir tão atraído pela protagonista, mas ser conquistado facilmente pelo antagonista e outros personagens secundários.
Interpretado pela Jessie Mei Li, a atriz entrega uma Alina que tem uma carga dramática, no geral, satisfatória. A série faz questão de contar sobre o passado e a infância da protagonista para entendermos o que se passa com ela nos dias atuais, como o fato dela não ser aceita por conta da sua origem, a razão para ser órfã e ter crescido em uma instituição na qual ela tinha um único amigo, o Mal. É pelo Mal que ela vai moldando a sua vida e tomando as suas decisões, não só para não perder a amizade, mas também pelo fato dela ser apaixonada por ele.
Qual é o grande problema da Alina? Infelizmente falta curiosidade e ousadia da personagem, especialmente após ela descobrir que é uma Grisha e parte para o pequeno palácio que traz um mundo completamente diferente do que ela vivia, além de muitos mistérios. Ao mesmo tempo que ela se encanta, Alina reclama bastante, mas não procura investigar para saber mais sobre tudo o que está ao se redor, e isso acaba fazendo diferença na trama. Além disso, a conexão de Alina e Mal é importante na trama, mas isso ofusca o crescimento da personagem em momentos importantes. Alina é uma personagem importante, mas faltou explorar mais o seu potencial.

Agora precisamos falar de um dos melhores personagens de Sombra e Ossos que é o Darkling, que ganha uma ótima interpretação de Ben Barnes. Conhecido também como General Kirigan ou Aleksander, Darkling é quem comanda o exército grisha, um homem respeitado e temido por muitos. Ele encanta por conta dos seus mistérios e você torce pela aproximação dele com Alina para que destruam a Dobra das Sombras. No entanto, à medida que a série entrega as verdadeiras intenções deste personagem além de uma boa reviravolta, o espectador fica com o sentimento dividido, mas mesmo assim, não deixa de gostar deste personagem. Aliás, você gosta mais dele do que da protagonista.
Sua transformação e as motivações para tornar o Darkling em quem ele é hoje ganham explicações com um flashback sobre o seu passado. Não é algo grande e detalhado, mas é possível entender uma parte. Acredito que o passado de Darkling ganhará mais desenvolvimento caso a série seja renovada, uma vez que há mais livros para adaptar.
Interpretado por Archie Renaux, Mal é o melhor amigo e amor de Alina, mas a gente nota que o sentimento não é 100% recíproco. Mal enxerga Alina apenas como uma grande amiga, mas só depois que ele a perde que a sua ficha cai de imediato, o que o faz procurá-la o tempo todo. Mal é um personagem interessante e tem uma química boa com Alina, porém ele não te conquista tanto quanto se espera.

Como disse que no começo deste texto, Sombra e Ossos faz você torcer mais pelos personagens coadjuvantes do que a protagonista, e este é o caso do trio de criminosos Kaz Brekker, Jesper e Inej. Os personagens são habilidosos e extremamente carismáticos desde o primeiro episódio. Kaz (Freddy Carter) é o líder do grupo e quem elabora os planos; Inej (Amita Suman) é habilidosa na luta e na arte de desaparecer e luta pela sua liberdade, acreditando com fé na Conjuradora do Sol; Jesper (Kit Young) traz um ótimo lado cômico na série, além da sua habilidade com armas.
No entanto, o problema destes personagens não é a dinâmica e, sim, a motivação que os levam até Alina e Darkling. Eles têm como missão sequestrar a conjuradora, uma vez que a recompensa é alta. No entanto, ao chegar no local e passar por tudo que eles passam, tanto ao atravessar a Dobra quanto dentro do palácio, é em vão! O público acredita que haverá uma aproximação entre eles e Alina, formando um novo grupo de aliados, no entanto, nada disso acontece. Parece que tudo o que este trio faz é em vão dentro dessa missão. É apenas o final que acaba salvando eles. Mas mesmo assim, você não deixa de gostar deste trio em nenhum momento, especialmente pela parceria e cumplicidade que eles têm.
Outra personagem carismática é Genya (Daisy Head), uma grisha artesã que trabalha para o Rei e a Rainha. Ela e Alina têm uma amizade instantânea e super legal de acompanhar. Mas ao mesmo tempo que Genya ajuda a protagonista, ela também traz elementos surpresas que descobrimos ao final da temporada.
Outros personagens que ficam a desejar nesta 1ª temporada de Sombra e Ossos é Baghra (Zoe Wanamaker), quem treina Alina para controlar seu poder. Baghra é uma peça fundamental para a história e traz segredos importantes na trama, porém ela aparece pouco e no momento mais importante da série, ela simplesmente some.
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Em outro momento de Sombra e Ossos temos um plot bem aleatório na série que envolve a grisha Nina (Danielle Galligan) e o fjerdano Matthias (Calahan Skogman), que faz parte do grupo inimigo que deseja dizimar os Grishas. Nina tem uma missão na qual é retirada quando é sequestrada pelo fjerdanos. Mas quando sua missão é dada por perdida, a personagem ganha um plot romântico que fica um pouco perdido na história. Mesmo gostando da personagem, é possível não entender aonde a série quer chegar com esta subtrama, o que faz questionar se realmente era necessário contar esta história. No entanto, tal trama é até compreensível, pois indica que a série quer trabalhar a união entre grishas e fjerdanos a partir deste romance.
Final é bom?

O último episódio de Sombra e Ossos rende um ótimo conflito enquanto os personagens principais tentam atravessar a Dobra das Sombras para chegar ao outro lado de Ravka. É nesta hora que o público entende as verdadeiras intenções do vilão e o que ele é capaz de fazer com tamanho poder. Já a protagonista fica aquém do que se espera nesta reta final, o que pode frustrar alguns. Mas ainda assim é um final instigante que rende boas e futuras alianças entre os personagens e um ótimo gancho para uma possível 2ª temporada.
Sombra e Ossos entrega uma boa história de fantasia misturada a aventura, ao romance e mistério que rendem uma trama interessante e que prende a atenção. A série apresenta um mundo mágico que ganha uma adaptação mais simplificada da obra original e de fácil entendimento ao público, que conhece e mergulha no universo grisha que tem muito a oferecer. A 1ª temporada é introdutória, tem bons efeitos especiais e bons personagens, mas a dinâmica entre alguns fica a desejar, assim como algumas subtramas, decisões e falta de ações, enquanto outros personagens não são bem explorados.
Acredito que se Sombra e Ossos for renovada (há muitas chances disso acontecer), com certeza a série irá melhorar esses pontos e entregar alianças mais interessantes e uma protagonista mais fortalecida e determinada.
Ficha Técnica
Sombra e Ossos
Adaptação da obra de Leigh Bardugo
Direção: Lee Toland Krieger
Elenco: Jessie Mei Li, Ben Barnes, Archie Renaux, Freddy Carter, Amita Suman, Kit Young, Sujaya Dasgupta, Danielle Galligan, Daisy Head, Simon Sears, Calahan Skogman, Zoe Wanamaker, Kevin Eldon, Julian Kostov, Luke Pasqualino, Jasmine Blackborow e Gabrielle Brooks.
Duração: 1ª temporada (8 episódios)
Nota: 7,9