A primeira grata surpresa de 2022 é o lançamento de Pacificador (Peacemaker), nova produção da HBO Max que, a princípio, não direi que é um acerto da DC, até porque ainda está muito cedo para tal afirmação (quem sabe quando terminar). No entanto, a nova série chega em grande estilo ao oferecer um entretenimento divertido em uma boa história que explora a construção do protagonista e os demais personagens.
As primeiras impressões se baseiam nos três primeiros episódios que já estão disponíveis na HBO Max, em que a trama inicia com o pé direito.
******CONTÊM SPOILERS******
Criado e roteirizado por James Gunn – que dirigiu cinco dos oito episódios – Pacificador parte dos eventos de O Esquadrão Suicida em que conhecemos o anti-herói que, após matar Rick Flag, levar um tiro no pescoço dado por Sanguinário e ficar inconsciente depois que um prédio desaba sobre si, Pacificador se recupera dos ferimentos depois de cinco meses no hospital.
Confira 16 novas séries para assistir em 2022
Ao receber alta, o herói teme em voltar para a prisão, uma vez que a pena não foi totalmente cumprida. No entanto, Pacificador recebe uma oferta improvável, perigosa e irrecusável. Em troca de sua liberdade, ele terá que se juntar a um time de especialistas, comandado por Clemson Murn, encarregado para matar pessoas más. Tal ‘Força -Tarefa X’ é composta por Emilia Harcourt, John Economos e a novata Leota Adeyabo.

Esta equipe tem como objetivo – sob às ordens do governo por debaixo dos panos – em realizar o ‘Projeto Borboleta’, em que eles terão que caçar “borboletas” alienígenas que tomaram conta dos corpos humanos. Enquanto buscam por estes inimigos ocultos, Pacificador terá que enfrentar o próprio passado e seu relacionamento com o pai, o famoso vilão, White Dragon (Dragão Branco).
O primeiro ponto positivo da série é a apresentação de uma narrativa que, a princípio, não apresenta ousadias em sua linearidade ou temporalidade. Até este terceiro episódio, a história ganha um formato satisfatório e simples que funciona muito bem, na qual o destaque vai para outros elementos da produção, como por exemplo, os diálogos escrachados em que a cada dez palavras, onze são palavrões, enaltecendo o humor ácido criado por James Gunn, que também abre espaço para um tom dramático comedido ao trabalhar o background do protagonista e a exposição de suas camadas disfuncionais.
É nestes diálogos insanos que a série faz questão de provocar outros personagens da DC, como Aquaman, Batman, Batmirim e outros. Acredito que mais heróis serão cutucados no decorrer da temporada de maneira jocosa e afiada no texto de Gunn. Quem sabe personagens pouco conhecidos das HQ’s possam aparecer na série, não é mesmo?
Outro ponto positivo de Pacificador, sem dúvidas, é a trilha sonora carregada dos gêneros rock e metal, o que deixa toda a ambientação da história ainda mais gostosa de acompanhar, com músicas como “Pumped Up Kicks”, “Six Feet Under”, “Drag Me Down”, “Push Push”, “Borderline Crazy” e outros. Mas a cereja do bolo é a abertura da série ao som de “Do Ya Wanna Taste It”, com o elenco dançando uma coreografia estranha e com o semblante sério, o que simplesmente genial. Com certeza, já entrou para a lista de aberturas de séries favoritas. Apenas assistam.
Quem é Christopher Smith?

De início, o receio com relação à série é alto, uma vez que retrata sobre um personagem que dividiu opiniões e, até mesmo, despertou raiva e desprezo no público em O Esquadrão Suicida, quando revelou ser um grande traidor e matou Rick Flag, um dos personagens principais do filme.
No entanto, a ideia principal da produção é tratar a humanização do protagonista que se autointitula super-herói cujos princípios, conceitos e ações seguem um caminho completamente oposto ao perfil de um herói, ressaltando ainda mais o lado irônico e hipócrita da trama, o que é interessante de acompanhar.
Pacificador é aquele ‘herói’ que busca a paz a qualquer custo, mesmo que isso o leve a matar homens, mulheres e crianças. Mas o peso dos eventos em Corto Maltese e a estadia duradoura no hospital balançam os princípios distorcidos do protagonista, que começa a questionar o preço alto a se pagar em nome da paz.
Um dos pontos que a série destrincha nestes três primeiros episódios e promete explorar até o final da temporada são as camadas disfuncionais para que o público conheça quem está por trás do uniforme vermelho, azul e branco. Quem é Christopher Smith, como ele se tornou o Pacificador e por qual razão ele leva consigo estes princípios errôneos e vilanescos como meta para alcançar a paz?
Tal gostinho pode ser visto na relação de Christopher com o pai Auggie Smith, um homem frio, desonesto, cuja personalidade é bem desprezível, especialmente na forma como dialoga e trata o filho, o que faz o espectador compreender a ambientação abusiva onde o protagonista cresceu e aprendeu o que aplica nos dias de hoje. Tanto pai quanto filho apresentam uma caracterização repudiante, deixando nítido o lado machista, sexista e racista, no entanto, são estes pontos que o próprio Pacificador tende a questionar no decorrer da história, uma tarefa que será árdua e desafiadora.
Aliás, é preciso dizer que John Cena foi a escolha perfeita para este papel desde O Esquadrão Suicida. Particularmente, não consigo ver outra pessoa interpretando o Pacificador e o ator entrega força e carisma em um personagem que desperta um mix de sentimentos, na qual a afeição pode até surgir, sem deixar de estar consciente de que sua personalidade e seus princípios são disfuncionais.
Quem também promete chamar a atenção na série é o pai de Christopher. Interpretado por Robert Patrick, Auggie traz aquela representação amedrontadora da supremacia branca em que os diálogos confirmam, além da cena da prisão em que é recepcionado pelos demais detentos como Dragão Branco. Outro ponto que chama a atenção neste personagem é o seu grande conhecimento em tecnologia e armas, como vemos em sua sala secreta onde ele constrói os equipamentos e o famoso capacete que o Pacificador usa. Esta aí um detalhe que a série precisa explorar e o público irá adorar acompanhar.
Força-Tarefa X

Pacificador acerta com o ótimo protagonismo, cuja complementação está no excelente elenco em que os personagens coadjuvantes conquistam o espectador logo na estreia e prometem surpreender até o final da temporada.
Na minha opinião, o elemento surpresa é Leota Adebayo, interpretada pela atriz Danielle Brooks, conhecida pela série Orange Is The New Black. Novata no grupo, Leota é inteligente, perspicaz e está deslumbrada com o novo cargo, mas ciente de que será algo temporário, uma vez que ela deseja trabalhar em algo seguro para proteger e dar atenção para sua esposa e família. No entanto, o primeiro episódio revela que Leota é uma infiltrada nesta missão, sendo os olhos e ouvidos de Amanda Waller, sua mãe, um ponto surpreendente e que pode render bons frutos nesta trama. A participação de Viola Davis é curta e sensacional, em que a Amanda ressalta as habilidades da filha, um detalhe para o público ficar em alerta, afinal, o que Leota realmente é capaz de fazer?

Outros dois personagens muito interessantes são Emilia Harcourt (Jennifer Holland) e John Economos (Steve Agee) já apresentados em O Esquadrão Suicida. Ambos ganham mais força e um estilo ainda melhor na série, em que Harcourt revela seu lado durona, feroz e que não baixa a guarda em momento algum. Um flerte entre ela e o Pacificador acaba acontecendo, o que pode gerar momentos divertidos. Já Economos é expert em tecnologia e na arte de hackear. Ele e o protagonista batem de frente o tempo todo, elevando o tom cômico na série.

Já Murn (Chukwudi Iwuji), líder desta missão, aparenta carregar segredos, uma vez que seu passado é carregado por atitudes duvidosas e, agora, deseja corrigir da forma como ele acredita ser o certo, como por exemplo, executar esta nova empreitada. Mas será que, em algum momento, ele pode se tornar um traidor do grupo? Vamos aguardar.
Outros personagens que também têm presença marcante na série é o Vigilante/Adrian Chase (Freddie Stroma), que será uma adição bem interessante e divertida ao grupo, além de ser grande fã do Pacificador; e, é claro, Eagly, a águia de estimação do protagonista, um dos personagens mais inusitados da série na qual o público ficará apaixonado.
Qual é a missão?

O Projeto Borboleta é mencionado e o grupo é logo formado, porém, a série começa a dar mais detalhes sobre a missão do segundo para o terceiro episódio quando o Pacificador luta com uma alienígena que tenta matá-lo e, logo em seguida, ele se vê diante da tarefa de matar um senador e sua família que se tornaram hospedeiros destas borboletas alienígenas. O que são estes seres? De onde eles vêm? Por que eles possuem corpos humanos? Quais são as verdadeiras intenções destas borboletas? Existem alguém sob o comando destes seres alienígenas, assim como vimos no Projeto Estrela-do-Mar em O Esquadrão Suicida?
É durante esta primeira parte da missão que o público conhece o Mestre Judoca (Nhut Le), um personagem que, inicialmente, é subestimado tanto pelos demais personagens quanto pelo espectador, e surpreende com sua ótima experiência em artes marciais na qual ele entrega uma excelente sequência de luta em que derruba todos, inclusive, o próprio Pacificador. Mas o desfecho do Mestre Judoca não é tão feliz e chega a ser bastante irônico.
Claro que a série apresentaria uma missão bem fora do normal e espero que essa tarefa seja bem instigante, até porque ao final do terceiro episódio descobrimos que se trata de uma invasão alienígena global. Será que veremos o desfecho destes seres ainda nesta série, ou servirá como gancho para um futuro novo filme da DC? Vamos aguardar.
A série Pacificador estreia com o pé direito, tornando-se uma produção inusitada e de grande estilo da HBO Max que promete fazer sucesso com uma história de puro entretenimento, cuja cereja do bolo está na construção dos personagens em meio ao toque especial de violência, diálogos pesados e escrachados e uma trilha sonora hipnotizante. A série tem potencial, agora resta aguardar e ver se a missão apresentada será cumprida.
O que acharam da estreia de Pacificador?
Ficha Técnica
Pacificador
Criação: James Gunn
Elenco: John Cena, Jennifer Holland, Danielle Brooks, Freddie Stroma, Chukwudi Iwuji, Steve Agee, Robert Patrick, Annie Chang, Lochlyn Munro, Nhut Le, Christopher Heyerdahl, Crystal Mudry, Mel Tuck e Dee Bradley Baker.
Duração: 8 episódios
Nota: 3,9/5,0 (3 primeiros episódios)