A primeira impressão é sempre a que fica e, assim como a maioria, fiquei com o pé atrás ao ver o primeiro trailer de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis (She-Hulk: Attorney at Law), uma vez que a qualidade dos efeitos não estava boa, o que fez as expectativas caírem com relação à história.
Eis que assisti aos primeiros episódios e vi que a série não é uma grande bomba, pelo contrário, tira sarro de si e da própria Marvel, se debruça totalmente no tom cômico, entrega uma narrativa fluída, tem personagens caricatos e agradáveis e apresenta uma protagonista interessante que precisa lidar com a rotina de ser advogada, mulher e, agora, uma Hulk. Se a produção será boa até o fim e fará grande diferença dentro do MCU, ainda não sabemos, mas cumpre com sua proposta inicialmente e promete ser uma história a ser apreciada semanalmente.
Qual é a história?

O Pipoca na Madrugada já assistiu aos quatro primeiros episódios de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis, que será exibido apenas um episódio por semana, às quintas-feiras, no Disney Plus. Assim, darei as minhas primeiras impressões sem spoilers para não estragar a experiência de ninguém.
Por ter assistido quatro episódios de uma vez no cinema, ao estilo maratona, a série entrega durações curtas, de apenas 30 minutos, fluídos e dinâmicos que funcionará perfeitamente como semanal, a fim de que o espectador aprecie a história de forma leve, despretensiosa e nada cansativa. Além disso, ao final de cada capítulo sempre haverá uma cena pós-crédito, sendo uma brincadeirinha ou não, portanto, já estão avisados.
Já assistiu a série Ms. Marvel?
A trama inicia apresentando Jennifer Walters, advogada com a carreira em ascensão, prestes a entrar no tribunal para encarar o seu primeiro grande caso. Mas antes, a protagonista avisa que já é uma Hulk, que sua melhor amiga e parceira de trabalho Nikki, assim como várias pessoas, já estão cientes da sua transformação, cortando a cena para o passado em que o público acompanha Jen e Bruce Banner (Mark Ruffalo) em uma pequena road trip, que logo se transforma em um acidente e, assim, descobre-se como a protagonista se transforma em Hulk.

A dinâmica de primos é engraçada, jocosa e bem com aquela ‘vibe de família’, em que Bruce acredita que Jennifer terá que encarar o mesmo processo que ele passou para controlar seu alter-ego verde, porém, a personagem já adquiriu sua nova versão atualizada e independente, o que até deixa Hulk surpreso e com um pouco de inveja, afinal, foram mais de 10 anos lutando contra ele mesmo em busca de equilíbrio.
Assim como vimos no trailer, Hulk testa as emoções de Jen, já que ela precisa ter controle total de qualquer sentimento para que nada saia do controle, mas ela tem outros planos, como seguir com sua vida pacata de cidadã e advogada e não de uma futura vingadora, já que testemunhou o que o primo passou e não deseja traçar este mesmo caminho. Claro que as circunstâncias e o próprio trabalho vão exigir que seu alter-ego seja exposto em diversas ocasiões, afetando sua vida profissional e pessoal de formas inesperadas.
Com relação à Bruce, a série faz questão de mencionar o que aconteceu com ele durante os cinco anos de ‘Blip’ antes de se reunir com os vingadores para consertar o que Thanos fez, como ele finalmente conseguiu controlar o Hulk, com direito a menções honrosas a alguns personagens veteranos do MCU para rirmos e matarmos um pouco da saudade. Mas a trama indica que Hulk seguirá em uma nova jornada que veremos com mais detalhes em futuras produções da Marvel. Por hora, não dá para saber se ele retornará à série ou se sua participação somente será esta.
O que faz a série funcionar?

O que faz Mulher-Hulk funcionar é o fato de cumprir com a sua proposta em ser uma comédia, se debruçar no tom cômico, mesmo que o público não dê risada de todas as piadas (e você não é obrigado rs).
Além disso, a série provoca e tira sarro de si mesma e por tudo o que a Marvel faz e os fãs comentam, como as famigeradas cenas pós-créditos, que não só a protagonista brinca com a situação, como em todos os episódios vamos ter uma cena assim ao final; os famosos ‘cameos’, ou seja, participações especiais tanto de personagens muito conhecidos no MCU como Hulk, Abominável e Wong, como de celebridades; e sequências de ação com lutas divertidas, afinal, ver a Mulher-Hulk dar uma surra em alguém – claro, com propósito e fundamento – é muito delicioso de assistir. Se vamos ter mais doses de sarro da própria Marvel nesta temporada, ainda não se sabe, mas é muito provável que isso aconteça mais vezes até o último episódio.
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Outro ponto importante a se ressaltar aqui é a famosa quebra da quarta parede, em que a personagem olha diretamente para a câmera para conversar com o público. Pra quem não sabe, Mulher-Hulk se inspirou na série Fleabag (Phoebe Waller-Bridge faz isso com maestria!) para introduzir esta técnica que, a princípio é boa e funcional, mas acredito que seja necessário diminuir na dosagem destas conversas com o espectador para que não fique enjoativo, ou seja, fazer isso com intervalos maiores e em momentos pontuais que exijam esta troca de olhar e comentários. Talvez a Marvel não siga isso, mas é o que eu gostaria de ver no restante da temporada.
Agora, o que dizer do famigerado CGI? A primeira impressão não foi positiva, é notável ver que a qualidade ficou em segundo plano para a Marvel (o que é muito triste), mas os efeitos subiram um pouco de nível após os fãs reclamarem bastante. Posso dizer que o CGI melhorou, se comparado com o que foi apresentado, mas está longe de ser perfeito. Eu vi os episódios em uma tela gigante do cinema e foi algo ‘assistível’. Talvez ver na TV ou no computador pelo Disney Plus também seja bom, mas não crie expectativas e fique preparado se algum efeito não ficar do seu agrado.
No entanto, há discussões com relação ao CGI pelo fato de termos uma versão feminina do Hulk. Se prestarmos atenção, os efeitos em Bruce Banner ganham contornos mais fortes pelo fato dele ser homem, ter uma pelugem (a barba por exemplo) que ajuda a reforçar as sombras que deixam o Hulk com um toque de realidade maior. Já Jennifer, quando se transforma na Mulher-Hulk, ganha traços mais leves, uma vez que seu corpo cresce em uma proporção menor, mais afinada e, é claro, com menos sombras que dê o toque real à personagem. Os efeitos estão mais aceitáveis, mas como é Marvel Studios, sabemos que é possível melhorar e o estúdio tem capacidade para isso, só precisa dar uma freada no excesso de pressa para entregar muitos conteúdos ao mesmo tempo e focar mais na qualidade.
Mais um ponto a se ressaltar aqui é com relação ao grau de importância que a série terá dentro do MCU. Mulher-Hulk dá nós em pequenas pontas soltas deixadas em produções anteriores da fase 4 da Marvel. Se você estiver em dia com os filmes e as séries, vai captar as referências e fazer as conexões rapidamente enquanto estiver assistindo a série. Não vou comentar quais são estas pontas e o tipo de conexão que faz para não dar spoiler. Assistam e descubram. Mas, até este 4º episódio, não dá para saber se esta nova produção fará grande diferença e se será fundamental ao universo e aos próximos lançamentos da fase 5 e 6. Por enquanto, é uma série que funciona sem pretensões.
Personagens

Mulher-Hulk: Defensora de Heróis acerta no elenco e entrega personagens novos e cativantes, enquanto alguns veteranos dão as caras e agradam à primeira vista, porém sofrem pequenas transformações.
Tatiana Maslany é um ótimo acerto e ela transborda carisma tanto como Jennifer quanto Mulher-Hulk. É possível gostar das duas (se você ignorar um pouco os efeitos), mas talvez alguns gostem mais de uma versão do que outra. Jennifer luta para crescer profissionalmente e é interessante acompanhar o arco do seu trabalho como advogada, um detalhe que merece ser valorizado e explorado na série, já que seria algo bem diferente que a Marvel entregaria.
E é neste arco que a história faz questão de apontar como é ser uma mulher trabalhando em uma área predominantemente masculina em que o machismo e sexismo falam mais altos e são ressaltados em atitudes e diálogos. Aliás, isso acaba migrando também para os relacionamentos de Jen em suas tentativas frustradas de marcar um encontro por aplicativo de relacionamento. Há uma cena triste e proposital que revela o nível de babaquice de um homem, mostrando nada mais que uma realidade crua e bem chata.
Já como Mulher-Hulk, Maslany continua conquistando com sua graciosidade meio ogra e divertida, em que ora ela se sente intimidada por ter que colocar seu alter-ego em jogo; ora ela se preocupa em não estragar suas roupas e sapatos quando se transforma; ora ela não pensa duas vezes em brigar com quem tenta lhe atacar. Por sinal, a série faz questão de brincar com o tal “rumor” nas mídias, transformando em verdades que todo mundo acredita sem averiguar, um ponto que a protagonista terá que lidar e lutar bastante para proteger sua imagem e reputação.
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Com relação aos demais personagens, os maiores destaques são Abominável/Emil Blonsky (Tim Roth) e Wong (Benedict Wong), Posso dizer que a série promete dar relevância aos dois e surpreender até o final da temporada, afinal, trata-se de um antigo vilão de Hulk – que achei as cenas dele boas e cômicas, mas que podem enganar – e o Mago Supremo da Marvel.

Preciso ressaltar aqui que Wong tem presença fortíssima nesta fase 4 do MCU, uma vez que ele já apareceu em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Mas a cada produção, o personagem se molda de um jeito diferente a fim de se encaixar no tom do filme ou da série, ou seja, em Mulher-Hulk você verá um Wong mais descontraído e “engraçadinho”, algo que o distancia até do título de Mago Surpremo, apesar do grande poder que tem. Posso dizer que é um personagem bem adaptável e flexível dentro do universo, mas talvez nem todos vão gostar de vê-lo em constantes mudanças a cada produção.
Do time da Jennifer, temos a divertida Nikki (Ginger Gonzaga) que dá grande apoio para amiga no trabalho e em suas duas versões; e Pugliese, conhecido por ‘Pug’’ (Josh Segarra) que teve momentos legais neste início de temporada. Ambos são bons coadjuvantes que sabem complementar o arco da protagonista. Espero vê-los mais vezes. Enquanto isso, a atriz Renée Elise Goldsberry faz uma pequena aparição como Mallory e, por ora, não há nada para falar sobre ela. Também espero que a sua personagem seja explorada.

Já a atriz Jameela Jamil faz sua entrada como Titânia no primeiro episódio, mas sua cena é extremamente rápida e nem se quer ouvimos sua voz. Por hora, não é possível tecer qualquer comentário sobre a personagem e a atuação, uma vez que nada foi aprofundado sobre ela. Mas acredito que ela terá um destaque maior da metade da temporada até o final. Assim espero, né?
Em breve, teremos também a participação especial de Charlie Cox como Demolidor, e isso não é spoiler porque o personagem já foi anunciado na série, tá?
Considerações finais
Mulher-Hulk: Defensora de Heróis não é a bomba que esperava ser, entrega episódios leves, curtos e bem fluídos com uma história funcional que cumpre a sua proposta. Tira sarro de si mesma e da Marvel, apresenta uma protagonista cativante cuja atuação de Tatiana Maslany segura bem as pontas, além de personagens coadjuvantes que, até este momento, não ficam a desejar e prometem ser explorados. É possível relevar os efeitos especiais, já que a trama se sobressai à técnica.
No fim das contas, Mulher-Hulk surpreende aqueles que estavam com as expectativas mínimas e promete ser uma série despretensiosa que, talvez, tenha algum grau de importância dentro do MCU. O início é bom e a torcida fica para que a temporada com nove episódios siga um ritmo equilibrado, crescente e bom. Vamos aguardar.
Ficha Técnica
Mulher-Hulk: Defensora de Heróis
Criação: Jessica Gao
Elenco: Tatiana Maslany, Mark Ruffalo, Tim Roth, Ginger Gonzaga, Benedict Wong, Jameela Jamil, Josh Segarra, Charlie Cox, Renée Elise Goldsberry, Nicholas Cirillo, Michel Curiel, Jason M. Edwards e Jon Bass.
Duração: 09 episódios (1ª temporada)
Nota: 3,0/5,0 (4 primeiros episódios)