“Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade. Eu achava que com os nosso trinta e poucos anos, estaríamos pisando em terra firme”. Essas são duas frases que Petra Costa escolheu para o seu documentário Democracia em Vertigem. Além de revelarem a abordagem do filme, elas exaltam a proposta.
Com uma abordagem inovadora, assim como em suas outras produções, a roteirista aproxima fatos sociais do Brasil com sua história de vida, construindo uma narrativa que oscila do pessoal para o impessoal e nacional e, assim, denuncia a situação atual da democracia brasileira.
Essa é a abordagem e a proposta do filme que entrou para o catálogo da Netflix dia 19 de junho. Dirigida por Petra Costa e produzida por Joanna Natasegara, a produção estreou mundialmente no Festival de Sundance em janeiro, depois chegou no streaming.
As escolhas de Petra, tanto de frases quanto de inserir sua vida, anuncia o que é um documentário: a visão de uma ou demais pessoas sobre um fato ou uma série de fatos, produzido por um meio para disseminar, além de informação, uma análise. Por isso, ao se inserir por completo na história com pequenos fatos pessoais que têm em comum com a política e até narrar sua opinião durante a trama, a cineasta declara, diretamente, a parcialidade da produção.

É a primeira vez que escrevo uma crítica sem ter medo de entregar “spoilers”, pois, tudo que se passa no filme foi anunciado em jornais, sites ou gerou alguma discussão entre familiares devido aos posicionamentos políticos. Petra menciona muito a relação da sua família com a política tanto em fatos quanto em posicionamentos, mais do que isso, denuncia a rivalidade das ideologias políticas por meio dela.
O documentário narra a política desde a ascensão do PT (Partido do Trabalhadores) ao poder e seus anos de Governo, até a queda de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro. Mais do que isso, o filme mescla a história da Ditadura Militar com as “Diretas Já”, percorre questões econômicas nacionais e mundiais e denuncia jogos políticos tanto da esquerda quanto da direita. No final da trama, não sabemos dizer se estamos mais perturbados com o passado ou preocupados com o futuro.
Petra aprofunda sua visão melancólica, triste e preocupada desde o começo. A documentarista traz imagens produzidas por ela de maneira amadora de entrevistas com diversos políticos, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma e Bolsonaro e, também, imagens internas do Palácio da Alvorada que trabalham sombra e luz, além de panorâmicas da cidade de Brasília. Tudo para mostrar o poder e a ilusão da política brasileira.
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Petra não poupa comentários, mesmo que de forma indireta, durante todo o filme, não priva ninguém de julgamentos, tanto a esquerda, que no começo do documentário sofre mais com os ataques, tanto a direita, que no final do filme recebe as críticas da autora. Mas, por mais que a cineasta tente ao máximo criticar apenas a política, a sua parcialidade é percebida, mesmo que sutilmente.

Petra têm um viés ideológico de esquerda. Percebemos isso com a voz passiva que usa para não culpar diretamente (em uma voz ativa) o Partido dos Trabalhadores por corrupção, como por exemplo, em “Lula toma posse e em pouco tempo estoura o mensalão. Seu partido é acusado de comprar votos” (passiva) e não “O partido compra votos” (ativa).
O viés ideológico aparece também através das imagens e dos discursos que optou por colocar no lugar de outros. Porém, mesmo utilizando recursos gramaticais e imagéticos para inserir opinião, Petra faz oscilar sua visão com a realidade, ao apresentar fatos atrás de fatos dos dois lados da história que permite ao telespectador escolher por um.
No começo, parece que a cineasta está indecisa. Afinal, a democracia está em vertigem devido a corrupção da esquerda ou por causa das ações políticas da direita que resultou no impeachment (ou golpe) de Dilma? Parece que, após cada fato revelado, Petra se posiciona ao explicar e revelar a realidade do Brasil dos últimos anos, mas abre margem para o telespectador fazer o mesmo.
Explica didaticamente os fatos, expõe a visão dos dois lados da política (com políticos e eleitores), cria uma atmosfera de poder, medo e incerteza, aproxima o telespectador de uma visão completa da realidade brasileira, e por fim, não menos importante, permite a inserção de entrevistas e falas de políticos cedidos para o filme.
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Logo, mais do que expor sua vida pessoal e visão própria sobre a política, Petra faz os políticos falarem e mostrarem sua opinião. Democracia em Vertigem busca denunciar, com fatos e posicionamentos políticos, tanto de cidadãos comuns quanto de governantes, que a democracia brasileira, além de muito nova, é irreal.
“Temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero”, comenta Petra em sua narrativa. Mais do que isso, além de uma ilusão passageira, conseguimos concluir que a democracia brasileira é esquematizada, sistematizada e hierarquizada. Não por ser um esquema, um sistema e uma hierarquia de cargos. Mas, por ser um esquema, um sistema e uma hierarquia de participação.
Por isso, para Petra, a democracia está em vertigem. Não apenas por causa das ações políticas da direita para tirar a esquerda do poder, muito menos devido a corrupção da esquerda. A participação no jogo político é recente e, infelizmente, restrita aos que foram eleitos para o poder e não se fazem representantes de seus eleitores.
A política, muitas vezes, não representa os desejos da maioria. Segundo o documentário, devido a diversos fatores. Por interesses próprios, políticos não respeitam suas propostas de Governo e partidos optam por coalizões para conseguirem aprovar propostas e se inserem em um mar de corrupção e poder que é, como dito no documentário por políticos, “natural”.

Democracia em Vertigem revela a irrealidade da democracia brasileira que mesmo com trinta e poucos anos parece não existir. Pois, para ser democrático, precisa ser respeitoso, maduro e representativo. Mas, infelizmente, como comentado pela cineasta, e depois de assistir a série de fatos que o filme traz, parece não passar de um sonho efêmero.
Quando Petra intitula seu documentário como “Democracia em Vertigem” quis utilizar da gramática para soar o mais imparcial possível (assim como fez em todo o documentário). Porém, após assistir, concluo que não é a democracia em vertigem que a produtora critica, mas sim, o que a deixou neste estado.
O sistema democrático realmente parece estar com tontura, zonzeiras ou fraquezas, mas quem o deixou assim foi a política. “Política não democrática” é quem deixou a Democracia em Vertigem e, como exposto no documentário, tanto a esquerda com a corrupção, quanto a direita com suas ações políticas para comandar quem está no poder, não foram ou são democráticas.
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Os dois lados não respeitam as propostas de Governo, logo não representam a população que os elegeu. Assim, esquerda e direita têm responsabilidade pela democracia em vertigem do Brasil que gerou a narrativa intensa, reveladora, didática e assustadora de Petra Costa.
Como comentado, não conseguimos definir o que mais perturba, o terror do passado ou a incerteza do futuro, a corrupção da esquerda ou as atitudes esquematizadas da direita, a democracia ou a vertigem dela. No fim do filme, recebemos duas frases em silêncio: “Juiz Sérgio Moro é nomeado Ministro da Justiça de Bolsonaro” e “Lula permanece preso”. Curiosamente, nenhuma dessas frases é sobre democracia, e sim, sobre política.
Ficha Técnica
Democracia em Vertigem
Direção: Petra Costa
Elenco: Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer, Dilma Rousseff, Eduardo Cunha e Petra Costa
Duração: 2h01min
Nota: 9.5