Faz um tempo que não se vê uma boa série teen de suspense nos catálogos dos streamings e, desta vez, o Prime Video acerta em cheio ao trazer Cruel Summer, cuja trama traz um mix de Pretty Little Liars com a novela A Favorita, e se você já assistiu uma dessas produções, terá uma ideia do que esperar desta produção que ganha uma narrativa ousada que prende a atenção do espectador que acredita saber o que está acontecendo quando, na verdade, a história engana e impacta a cada revelação. Já adianto que vale muito a pena a maratona e vou explicar o porquê.
Cruel Summer é um thriller psicológico com produção executiva da atriz Jessica Biel (The Sinner) e Tia Napolitano que também atua como showrunner. Afinal, qual é a premissa? A história se passa ao longo de três verões na década de 1990 – 1993,1994 e 1995 – quando a jovem Kate, uma adolescente bonita e popular, desaparece repentinamente, e Jeanette, a garota doce e estranha, até então indiferente, se transforma na jovem mais popular e bonita da cidade que, logo em seguida, vê sua imagem se deturpar tornando-a na mais odiada e desprezada no país.
A verdade é que Kate é dada por desaparecida por vários meses, sendo resgatada na casa de Martin Harris (Blake Lee), diretor assistente da escola e sequestrador da garota, culminando em sua morte durante o resgate. O ponto de virada que engata a trama é quando Kate culpa Jeanette de ter visto a garota presa na casa e não prestar socorro em momento algum, fazendo Jeanette torna-se cúmplice do sequestrador.

O primeiro elemento que chama a atenção na série, sem dúvidas, é a narrativa em que cada episódio é contado a partir de um ponto de vista alternado. Assim como as séries This Is Us e Amigas Para Sempre, Cruel Summer apresenta uma fórmula narrativa em que o espectador acompanha três tempos de forma simultânea, cuja ambientação, fotografia e estilo dos personagens mudam e ajudam a diferenciar cada época.
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O ano de 1993 ganha uma coloração mais quente e amarelada indicando paz, alegria e inocência, uma vida tranquila na cidade para a popular Kate e para a nerd Jeanette. Quando a série salta para 1994, a coloração da fotografia ganha certa neutralidade com tons azulados, indicando preocupação e atenção, uma vez que Kate desaparece e é resgatada, enquanto Jeanette vê o seu pedestal desmoronar aos poucos, especialmente após a acusação feita por Kate.
Por fim, o ano de 1995 ganha tons escuros indicando caos e tempos difíceis, uma vez que as famílias das protagonistas estão em pé de guerra com processos, acusações, ataques e difamações, além das mudanças bruscas na vida pessoal tanto de cada membro familiar quanto das garotas que tentam provar quem está falando a verdade. Como disse, além da fotografia, as três épocas também ganham outros detalhes que ajudam na identificação temporal, como o corte de cabelo, as roupas e a transformação da personalidade de cada personagem, com destaque para Kate e Jeanette.
Entre estes três anos e com episódios contados pelas perspectivas de cada protagonista, Cruel Summer ainda consegue especificar momentos importantes que se tornaram o ponto de virada na vida das personagens, como o aniversário de casamento dos pais de Jeanette, o aniversário de Kate, o Natal, festival da cidade, entre outros.
Por fim, além da série cair no gosto de quem é apaixonado por produções que se passam na década de 90 e apresentar uma trama bem desenhada, Cruel Summer também tem uma trilha sonora fantástica e nostálgica da época noventista com canções de The Cranberries, Tiger Trap, Garbage, Gabrielle e outros.
Mistério e revelações

A partir do momento em que a acusação sobre o sequestro cai nos ombros de Jeanette, Cruel Summer desenrola este mistério junto com as camadas das protagonistas, revelando os bastidores familiares e as relações de amizade e namoro em torno das garotas, pontuando o antes e depois da fatídica noite do desaparecimento de Kate e a nove era de Jeanette.
Um exemplo perfeito é a relação da Kate com a mãe Joy (Andrea Anders), que serve de gatilho principal para o desaparecimento da garota, uma vez que ela não encontra apoio, proteção e carinho suficientes ao lado da mãe, enquanto o pai (no caso, padrasto) torna-se ausente e superficial nestes momentos, até o pior acontecer (o desaparecimento).
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Com relação à Jeanette, a relação com a família é praticamente perfeita, até a popularidade da garota crescer e declinar diante da acusação, o que gera amizades desfeitas, términos de namoro, brigas e separações definitivas. São os detalhes da rotina, envolvimentos, traumas e personalidades que fazem o espectador encaixar cada peça do quebra-cabeça vagarosamente a fim de entender as motivações que levaram ao desaparecimento de Kate e a difamação de Jeanette. Mas, ainda assim, a série prega peças e faz o público acreditar em algo, quando a trama faz uma curva e joga novas verdades que chocam.
Quem é Kate?

Kate (Olivia Holt) é uma personagem que Cruel Summer faz o espectador acreditar que vai acompanhar mais uma adolescente bonita, popular e insuportável. As duas primeiras opções são verdadeiras, no entanto, a personagem conquista com o seu lado doce e amigável, já que em nenhum momento a vemos criticar e zoar outras meninas, como a Jeanette, diferente de suas amigas que estão dispostas a provocar constantemente.
Kate namora Jamie, o garoto popular da escola, e aparenta ter uma relação legal com a mãe, mas é uma pessoa que carece de carinho maternal, apoio paternal e certa cumplicidade com a irmã por parte de pai que sempre lhe despreza, o que faz a personagem mergulhar em uma carência profunda que a faz procurar afeto em outras pessoas.
O sequestro deixa traumas e relapsos de memória, na qual Kate trabalha tais questões nas sessões de terapia, o que rende cenas interessantes e questionáveis sobre a honestidade da protagonista. Até que ponto desta história é verdade ou não? O trauma é tão grande a ponto de Kate não se lembrar de fatos importantes ocorridos nos últimos meses? Ou simplesmente ela estaria omitindo informações? Qual a razão para fazer isso?
Quem é Jeanette?

Enquanto Kate é a garota bonita e popular da cidade, Jeanette (Chiara Aurelia) é o seu retrato oposto, mostrando ser uma garota tímida, nerd, insegura em alguns pontos, mas feliz com a família e os amigos Vince e Mallory.
No entanto, Jeanette não esconde o desejo de se tornar a mais bonita e chamar a atenção, principalmente quando tenta se aproximar de Kate com o objetivo de ser sua amiga ou, no caso, ser como ela, o que faz o público compreender a mudança que vemos da personagem e tudo o que ela conquista quando Kate desaparece. Seria apenas uma tentativa de aproveitar a oportunidade ou, de fato, Jeanette pega o lugar de Kate por simples inveja?
Um outro detalhe que chama a atenção para a personalidade de Jeanette é o fato dela ficar obsessiva em fazer algo. Durante uma brincadeira entre amigos, a garota é desafiada a entrar em uma das casas do bairro, na qual o seu pai trabalha na imobiliária responsável. Tal desafio faz Jeanette ficar obcecada em entrar na casa constantemente, justamente para alimentar esta adrenalina que lhe consome, dando coragem e ousadia. No entanto, o que não se imagina é que a Jeanette continuaria entrando na casa que, agora, pertence a Martin Harris, sinalizando a possível razão para Kate lhe acusar de não ajudar na época do sumiço. Mas, como disse, nem tudo é o que parece ser.
Outros personagens

Todo o elenco de Cruel Summer é ótimo e cada um contribui para o desenvolvimento da história, mas os que mais se destacam são Mallory e Jamie que acabam ganhando um espaço maior nesta espiral misteriosa, criando um laço afetivo e estranho com Kate e Jeanette.
Antes namorado de Kate, Jamie (Froy Gutierrez) namora Jeanette após o sumiço da ex, o que faz a gente acreditar que, talvez, o personagem esteja apenas seguindo em frente com a vida. No entanto, após o reaparecimento de Kate, Jamie fica em uma encruzilhada sem saber em qual lado ficar, o que faz o personagem ter atitudes grotescas como o fato de beber, enganar as duas garotas por não saber quem está falando a verdade e ainda bater em Jeanette, uma cena difícil de ser digerida. Inclusive, os episódios sempre vêm com aviso de gatilho para cenas de violência doméstica.

Infelizmente a Mallory (Harley Quinn Smith) não é uma das minhas personagens favoritas. O seu jeito mandona e chata irrita em vários momentos, especialmente quando ela impõe suas decisões e explode quando se sente contrariada. A amizade dela com Jeanette sempre caminha sob cacos de vidro, enquanto que com Vince é algo mais neutro. O trio até funciona bem, mas Mallory estraga os momentos que poderiam ser mais divertidos, especialmente por demonstrar ciúmes ao ver que Jeanette deseja fazer novas amizades, especialmente com Kate na qual Mallory odeia. No entanto, a personagem é uma caixinha de surpresas que surpreende ao longo da temporada ao fazer amizade com uma pessoa na qual o público não espera.
Melhor amigo de Jeanette, Vince (Allius Barnes) é fiel à amiga na alegria e na tristeza, sempre ao seu lado até no pior momento. No entanto, acredito que Cruel Summer poderia ter conectado mais o personagem ao mistério e aos segredos de Jeanette, uma vez que a amizade entre eles é forte. Mesmo isso não acontecendo, o personagem não deixa de ser interessante e ganha um arco amoroso que retrata sobre a comunidade LGBTQIA+, especialmente ao se falar de um garoto negro na década de 90 em que o preconceito era mais forte.
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Assim como amigos e namorados, as famílias das protagonistas também se encontram no meio desta espiral que traz consequências em suas vidas, com destaque para os pais de Kate (Joy e Rod) e os pais de Jeanette (Cindy e Greg), em que a base da honestidade, sinceridade e do respeito dos seus casamentos sofrem rachaduras.
Como tudo aconteceu

O melhor fica para o final e Cruel Summer não faz diferente. O episódio 9 é um dos mais reveladores, juntando as últimas peças deste mistério e relatando a origem do sequestro de Kate, culminando em seu resgate e na trágica morte de Martin. Não quero dar spoilers, mas este episódio faz o espectador entender a razão para a série ter similaridades com Pretty Little Liars e a novela A Favorita, que vai deixar o espectador impactado de como tudo realmente aconteceu.
Por fim, o episódio 10 traz o tão aguardado julgamento de Kate e Jeanette que ganha os holofotes da imprensa. No entanto, a verdade vem à tona fora do tribunal, quando as duas finalmente se encontram e colocam ‘todos os pingos nos is’, revelando o que realmente aconteceu no dia em que Kate afirma que Jeanette lhe viu na casa.
A reta final da série culmina em uma possível paz selada em que todas as revelações são feitas. Tudo aparenta estar bem, mas Cruel Summer não dá ponto sem nó e entrega uma última cena reveladora e chocante que faz o público ficar de queixo caído.
Cruel Summer é a mais grata surpresa de 2021 ao trazer um thriller psicológico do gênero teen regado de segredos e revelações que prendem a atenção e impacta a todos aos 45 minutos do segundo tempo com uma revelação que faz a visão sobre alguns personagens mudarem repentinamente. O melhor de tudo é que esta história irá render, pois a série está renovada para 2ª temporada.
O que acharam de Cruel Summer?
Ficha Técnica
Cruel Summer
Criação: Bert V. Royal
Produção executiva: Jessica Biel e Tia Napolitano
Elenco: Olivia Holt, Chiara Aurelia, Michael Landes, Froy Gutierrez, Harley Quinn Smith, Allius Barnes, Blake Lee, Brooklyn Sudano, Sarah Drew, Andrea Anders, Ben Cain, Nathaniel Ashton, Barrett Carnahan, Nicole Bilderback, Christina Gonzalez, Shelby Surdam, Aaliyah Muhammad e Neyla Cantu.
Duração: 1ª temporada (10 episódios)
Nota: 8,9