O tão aguardado The Flash finalmente chega aos cinemas e a pergunta que não quer calar é: afinal, o filme é bom ou não? O longa dirigido por Andy Muschietti é bom na medida certa, abraça a nostalgia dos fãs da DC, entrega uma história solo de herói satisfatória, personagens coadjuvantes que chamam a atenção, efeitos especiais que ficam em cima do muro e um protagonista que, para muitos, é o seu favorito, mas nos bastidores geram polêmicas por conta de quem interpretou, mas ainda possível de separar personagem e ator.
Mesmo tendo pontos positivos, há observações a se fazer no conjunto da obra, fazendo The Flash ser um filme bom, mas não perfeito como alguns já disseram. Vou explicar o porquê.
The Flash se passa após os eventos de Liga da Justiça (2017) para deixar claro que o velocista ainda mantém conexão e parceria com os demais heróis. Assim, a trama gira em torno da rotina de Barry Allen, que vive em Central City e se divide entre ser um super-herói cuja energia é constantemente abastecida por comida (a fome dele é exagerada, viu?) e um cidadão que trabalha no laboratório da cidade, ao lado dos amigos Albert e Patty, mas leva uma rotina solitária.
O maior objetivo de Barry é encontrar provas concretas para inocentar o pai Henry Allen (Ron Livingston), acusado pelo assassinato da esposa Nora Allen (Maribel Verdú), mãe de Barry. Com a ajuda de Bruce Wayne, Barry consegue a prova, mas, infelizmente, não é suficiente para tirar o pai da cadeia, que se conforma com o seu destino e implora para que o filho siga em frente para ser feliz na vida. Inconformado com este destino trágico que o fez perder mãe e pai simultaneamente, Barry encontra um jeito de usar os seus poderes para viajar no tempo e mudar os eventos do passado.
Ao mudar um pequeno detalhe do passado, toda a linha do tempo é modificada que, consequentemente, altera o futuro. Com isso, Barry cria sua versão jovem (18 a 19 anos) cujos poderes ainda não chegaram. Mas a complicação não para por aí, pois a versão original do herói fica preso nesta linha alterada na qual o vilão General Zod está de volta, ameaçando dar fim ao mundo. Como toque especial a este caos iniciado, Barry descobre que a Liga da Justiça não existe nesta linha do tempo.

Sem ajuda do Superman, Aquaman, Mulher-Maravilha, Ciborgue e Batman, como derrotar este vilão e corrigir a linha do tempo que não deveria existir? Com a ajuda do Barry jovem, a dupla vai ao encontro de um Batman aposentado que se une para resgatar um kryptoniano preso, mais precisamente, a prima de Kal-El, a Supergirl/Kara. Com este novo grupo, será que eles vão conseguir derrotar o vilão? Será que vencer a batalha é a chave para corrigir a linha do tempo, ou será que Barry terá que fazer um sacrifício maior para reconfigurar o universo?
Apesar de termos participações boas de figuras fortes da DC, esta história é 100% do Barry Allen. E se tem uma trama que me emociona é do Flash, especialmente na relação de amor com a mãe. Não importa se é filme, série ou HQ, ver o Barry sofrer com a morte da mãe é um ponto que irá me emocionar a qualquer momento. No filme, Ezra Miller entrega um Barry Allen um pouco estranho ao misturar drama e comédia em sua personalidade, em que ora vemos o personagem mergulhado na solidão e tristeza; ora vemos um Barry animado como herói e feliz quando está perto de outras pessoas, seja o Bruce Wayne ou a Iris West (Kiersey Clemmons), seu crush.
Essa junção se complementa e o faz tomar a radical decisão de voltar ao passado para mudar as coisas, gerando o caos em um universo que se fragmenta aos poucos à medida que ele vai alterando mais e mais cenas.
Entendo quem gosta deste Flash dos filmes ou o Flash da série; compreendo quem torceu o nariz e deixou de gostar desta versão do herói por conta das atitudes do ator na vida real; há quem nunca curtiu ou comprou a interpretação de Ezra Miller, o que também é compreensível. Na minha opinião, o ator entrega uma versão bem estranha e diferente no filme, o que diverte e emociona simultaneamente, justamente por ele entregar um Barry mais velho, calejado, solitário e decidido a mudar a sua vida mesmo que isso custe o universo. O ator também entrega uma versão jovem do protagonista fora da caixinha, esquisito, divertido, desligado, desleixado, mas que, aos poucos, vai entendendo o que está acontecendo, põe os pés no chão e se molda diante da situação. No ápice da trama, entendemos porque a versão jovem de Barry existe e age da forma como vemos.
Enquanto acompanhamos a aventura neste multiverso em fragmento ao lado do protagonista, o espectador, obviamente, não deixa de prestar a atenção no banho de CGI de The Flash. Posso dizer que os efeitos especiais caminham em uma linha bem tênue, em que alguns pontos ficam bons e outros ficam a desejar e nitidamente estranhos.
A sequência inicial do Flash resgatando vítimas em um hospital em queda é estranhamente divertido, pois você se empolga com o herói salvando, mas não deixa de enxergar os efeitos em volta que ficam bizarros, como os bebês fakes no ar (bonecos newborn). Já todos os efeitos em torno do Flash, com o herói em ação e os raios emergindo do seu corpo são satisfatórios, mas nenhuma perfeição.
Outra sequência que ganha muitos efeitos especiais é o ponto em que Barry para no tempo e consegue rever as cenas já ocorridas a fim de que ele escolha exatamente onde quer ir para alterar o momento. Esta é a Cronosfera dentro da Força de Aceleração na qual Barry tem o poder de mudar o passado, arcando com as consequências que virão a seguir.
Crítica: Homem-Aranha: Através do Aranhaverso
Com relação à narrativa, ela faz uma boa introdução do universo original, mostrando exatamente o status atual e quem faz parte dele, como o próprio Barry, Bruce Wayne interpretado por Ben Affleck e o Alfred de Jeremy Irons. A narrativa caótica se inicia quando Barry viaja ao passado e altera um pequeno detalhe que reconfigura toda a linha do tempo, que se fragmenta alterando o atual status e criando um novo futuro. Todo o caos é bem amarrado quando o público compreende o quê está por trás de toda esta alteração, um ponto que, para mim, fica interessante.
Novo universo, outras versões

Do segundo ato ao final, The Flash se passa no universo alterado por Barry que, agora, necessita da ajuda da sua versão jovem para encontrar heróis nesta linha do tempo para salvar o mundo das mãos do vilão Zod.
Mas antes, é interessante e cômico acompanhar a surpresa de Barry ao ver o quanto ele alterou o universo, não só com relação à sua família e os heróis que não existem nesta linha do tempo, como também meras circunstâncias ou detalhes que fazem parte da rotina das pessoas. De exemplo, temos os amigos Albert (Rudy Mancuso) e Patty (Saoirse-Monica Jackson) que ganham uma nova roupagem, e até os filmes são alterados, como De Volta Para o Futuro que, aqui, não é protagonizado por Michael J. Fox. Pois é!
A aparição de Bruce Wayne/Batman de Michael Keaton e Kara/Supergirl de Sasha Calle não é spoiler nenhum. A introdução deles é satisfatória, especialmente do Bruce e seu atual status de aposentado, em que Barry o faz tirar as teias de aranha da batcaverna e do uniforme para entrar em ação novamente.

Os diálogos entre Barry e Bruce são bons, especialmente quando o Batman explica o que o Barry fez no multiverso a partir da “teoria do espaguete”, uma sacada bem feita que quando assistirem vão entender perfeitamente.
Quando as duas versões de Barry e Batman se juntam para atacar o local russo onde se encontra a kryptoniana, já não é surpresa que iremos nos deparar com Kara Zor-El. Sasha Calle está bem no papel e entrega uma Supergirl rancorosa com os humanos, mas que abaixa a defesa ao ver que alguns humanos ainda são dignos de serem salvos. Mesmo presa por muito tempo, ela consegue recuperar suas forças e está ciente de que precisa impedir Zod de acabar com mundo e, para isso, a heroína passa longe de conversas motivacionais e inicia um confronto mais bruto. Digo isso, porque quem assistiu as séries Supergirl e The Flash, se acostumaram com o lado pacífico destes heróis, enquanto que no filme, eles não medem suas forças quando entram em ação.
No entanto, toda a sequência da Supergirl em confronto com Zod ou de Bruce Wayne pilotando e Barry lutando contra os soldados kryptonianos ganha o estilo de videogame, como se o espectador estivesse assistindo alguém jogando uma fase de um game da DC. Há quem não vai se importar, enquanto outros irão. Apesar de gostar de toda a luta, tal escolha feita pelo diretor causa estranheza.
Eu Nunca ganha final emocionante e com excelência
Outro ponto para não levantar expectativas é a Supergirl. Enquanto temos um entrosamento maior entre as versões de Barry e Bruce/Batman, Kara Zor-El é mais introspectiva e fechada. Há menos cenas em que ela dialoga com eles, deixando a heroína ter uma atuação maior nas cenas de luta. No entanto, o filme não se aprofunda ou explora a trama da personagem. Já Zod (Michael Shannon) é apenas aquela válvula que precisa ser contida antes que a destruição se mantenha e o reverso não possa ser feito.
******CONTÊM SPOILERS******

Nesta segunda parte da crítica, irei pontuar alguns detalhes essenciais ocorridos em The Flash. Atenção para os spoilers a seguir.
Sem dúvida, o caos se instala no momento em que Barry altera a linha do tempo, criando o Flashpoint. Ao salvar sua mãe da fatídica morte e, consequentemente livrar o pai da culpa, Barry cria sua versão jovem que não é herói, mas em um dado momento, ele passa pelo acidente que o faz adquirir os poderes de velocista. Tal momento é premeditado pelo Barry original, no entanto, este acaba ficando sem os poderes, recuperando mais para frente.
Nesta nova linha temporal, Bruce Wayne explica a teoria do espaguete na qual uma pequena alteração no passado pode criar novas linhas e novos futuros. No entanto, ele deixa claro que há eventos irremediáveis, ou seja, que não podem ser desfeitos, que fazem parte da linha, como a morte.
Assim, durante toda a sequência do confronto dos dois Flash, Supergirl e Batman contra o Zod, vemos que Bruce Wayne e Kara morrem pelas mãos do vilão. A versão jovem do Flash não aceita esse destino e não hesita em voltar no tempo – já ciente da morte da mãe – para salvar os parceiros de luta.
No entanto, ao retornar inúmeras vezes, na qual nenhuma ele consegue salvar Batman e Supergirl e ainda teme em perder a mãe novamente, Barry se torna o grande vilão do ponto de ignição, que luta com sua versão original a fim de nunca sair deste ciclo infinito. É por conta dessa insistência em querer salvar tudo e todos, que a versão jovem do Barry se transforma neste vilão – que manipula o Barry desde o início para voltar ao passado – e começa a destruir e apagar o multiverso.
O ponto alto nostálgico de The Flash, sem dúvidas, é quando o público se depara com a versão Flash de Jay Garrick, o Superman de Christopher Reeve ao lado de Supergirl; e sim, temos a versão do Superman de Nicolas Cage (só para o Henry Cavill não aparecer rs).
Quando finalmente a ficha cai, Barry se dá conta de tudo o que fez e entende que há certos problemas jamais terão uma solução. Mesmo não querendo, ele vê sua versão jovem morrer em seus braços (morto por sua versão vilão) e, com isso, impede que o multiverso seja destruído. Ele retorna à fatídica cena em que se despede da mãe e deixa que o destino original aconteça. Mas antes de retornar para casa, Barry encontra um jeito de arranjar uma prova para inocentar o pai na atual linha do tempo.
Ao ver que tudo voltou ao normal, Barry encara o tribunal e vibra de felicidade ao ver o pai ser inocentado com a prova que trouxe. Porém, um pequeno detalhe surge que faz com que o herói perceba que alterou a realidade novamente: ao se reencontrar com Bruce Wayne, ele vê que não é a versão de sua linha e, sim, o Bruce Wayne de George Clooney, cuja participação é surpresa, boa e deixa um excelente gancho para o novo universo da DC pelas mãos de James Gunn.
School Spirits: vale a pena assistir a série teen sobrenatural do Paramount+?
Com esta alteração, leva a crer que o Bruce Wayne de Ben Affleck e a Mulher-Maravilha de Gal Gadot que são da linha original, agora, não estão mais presentes. Isso significa que eles não voltarão ao universo da DC? E se retornarem, em que momento seria? Barry vai tentar consertar o que fez? Pois sabemos que isso ocorreu ao inocentar o pai. Na linha original, Henry Allen cumpre a sentença de uma culpa que nunca teve.
Cena pós-crédito
The Flash tem apenas uma cena pós-crédito que mostra Barry Allen na atual linha do tempo encontrando Arthur Curry bêbado. Seja sob efeito alcoólico ou não, Arthur desconhece sua identidade heroica, na qual Barry insiste que ele seja. Sendo assim, esta cena extra pode confirmar que Aquaman permanece no universo da DC e, em breve, veremos a sequência Aquaman: O Reino Perdido nos cinemas.
Considerações finais
The Flash é um filme solo do herói que funciona equilibrando drama, ação e humor. Independente do que aconteceu fora das telas, o protagonista ganha um bom desenvolvimento e uma personalidade bem peculiar que divide opiniões sim. Os efeitos especiais caminham na linha tênue entre o bom e ruim e as participações especiais são boas, mas sem criar maiores expectativas. No geral, The Flash diverte, mas não é um filme perfeito.
Ficha Técnica
The Flash
Direção: Andy Muschietti
Elenco: Ezra Miller, Michael Keaton, Sasha Calle, Ben Affleck, Michael Shannon, Ron Livingston, Kiersey Clemmons, Maribel Verdú, Rudy Mancuso, Saoirse-Monica Jackson, Temuera Morrison, Ian Loh, Antje Traue, Sean Rogers, Gal Gadot, Jason Momoa, Nicolas Cage.
Duração: 2h24min
Nota: 3,0/5,0