Nem sempre uma sequência consegue ser melhor que o filme original, mas quando isso acontece o resultado pode ser deslumbrante! Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (Spider-Man: Across The Spider-Verse) é a prova viva disso, pois consegue ser ainda melhor que o primeiro filme (que é fenomenal) ao mergulhar em uma essência dramática do herói que sensibiliza em uma jornada alucinante cujo vilão, às vezes, são os nossos próprios conflitos diante de escolhas difíceis a fazer e aceitar.
Há inúmeras referências do herói em um multiverso apresentado com mais intensidade aos nossos olhos, cuja construção está ainda mais lapidada. O resultado é tão envolvente ao ponto do espectador desejar em ficar diante da tela por mais tempo. Através do Aranhaverso é excepcional e vou te dizer o porquê.
Com direção de Joaquim dos Santos, Kemp Powers e Justin K. Thompson e roteirizado pelos excelentes Phil Lord e Christopher Miller, a verdade é que quanto menos você souber sobre a história antes, melhor vai ser a surpresa e a experiência, assim como foi para mim. Dito isso, esta crítica não terá spoilers, mas irei abordar o que achei da história, dos novos e veteranos personagens e todo o conjunto da obra.

Homem-Aranha: Através do Aranhaverso se passa um tempo após os eventos do primeiro filme e, assim, o longa não inicia com a rotina de Miles Morales que, agora, é um herói da vizinhança; mas sim com ela, Gwen Stacy (Hailee Steinfeld), que ganha uma abordagem maior e mais fascinante nesta sequência. A cena inicial que, por sinal, é longa mostra como é a rotina de Gwen após retornar ao seu universo (sua terra de origem), como ela ainda lida com a perda do Peter Parker do seu mundo (revelado no primeiro filme, então não é spoiler) e a sua relação com o pai George (Shea Whigham).
Crítica: Homem-Aranha no Aranhaverso
Se tem um ponto que a animação sabe fazer muito bem é desenvolver os arcos dos personagens principais com uma sensibilidade palpável e natural que faz com que o espectador sinta as mesmas emoções que o personagem. Com a Gwen não é diferente e é garantido ficar ainda mais apaixonada por ela, mesmo quando ela escorrega em certas atitudes e omissões, provando que mesmo sendo uma heroína, ela tem falhas e vulnerabilidades e a escolha de tomar decisões difíceis.

Logo em seguida, a animação direciona a história para a rotina de Miles Morales (Shameik Moore) que, agora, vê o seu foco dividido entre os estudos e a garantia de um ótimo futuro em uma faculdade que lhe abrirá as portas ao sucesso; e a rotina agitada de um herói que tenta salvar o dia. Claro que esta dupla jornada de herói e estudante se colide em diversos momentos, especialmente no relacionamento com os pais, que estão tentando compreender as mudanças na personalidade do filho. Miles está crescendo e tomando suas próprias decisões, mas o segredo de ser o ‘Homem-Aranha’ o afasta de seus pais, seja pelo medo de não ser aceito com sua mais nova identidade.
O filme dá mais espaço para explorar a relação de Miles com a mãe Rio (Luna Lauren Velez) e, é claro, com o pai Jeff (Brian Tyree Henry), que segue em sua carreira promissora na polícia. Jeff aprendeu a lidar e trabalhar com o Homem-Aranha, sem saber a verdade de quem está por trás da máscara. Mas até quando esse segredo durará?
O arco de Miles Morales ganha um ótimo amadurecimento, passando pela fase da juventude em meio ao conflito de ser um herói, revelar a sua identidade e, é claro, o desejo de se reconectar com antigos amigos herois para ser aceito e fazer parte de algo. Assim como a história de Gwen, o de Miles atinge um alto nível de sensibilidade especialmente quando revelações são feitas fazendo com que o protagonista tenha que tomar decisões conflituosas quando uma ameaça maior surge afetando o multiverso. E acredite: você torce por ele até nos momentos mais impulsivos e de alto risco.
Um detalhe feio com maestria é a forma como a animação constrói algumas cenas sob o olhar do público que vê Gwen e Miles caminhando pelos prédios da cidade de ponta cabeça. Isso é simplesmente uma obra-prima!
Multiverso intenso e lapidado

Homem-Aranha: Através do Aranhaverso reforça a utilização da computação gráfica e o tradicional efeito de HQ, dando a impressão de que o espectador está folheando um quadrinho. Os efeitos animados estão ainda mais coloridos, que se intensificam quando somos levados juntos com Gwen e Miles a uma viagem alucinante ao multiverso teioso, cuja explosão de cores é eufórica, fazendo com que as cenas sejam frenéticas em que uma coisa acontece seguida da outra.
Crítica: Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Agora, não temos cinco ou seis teiosos, mas várias versões mostradas em uma Sociedade Aranha, na qual diversos heróis da vizinhança se reúnem para lutar contra respectivas ameaças que possam afetar o multiverso. Assim como o primeiro filme, esta sequência usa da mesma fórmula animada para apresentar o estilo visual que muda de acordo com cada versão do Homem-Aranha de seu respectivo mundo.

Por termos muitas versões, somente algumas ganham um destaque maior como é o caso do Homem-Aranha Miguel O’Hara (Oscar Isaac), que lidera esta sociedade; sua parceira de trabalho Jessica Drew (Issa Rae); o estiloso e peculiar Hobie (Daniel Kaluuya), que não aceita seguir regras e tudo que é imposto; e o Homem-Aranha da Índia (Karan Soni) que é carismático, ganhando espaço para sua digna apresentação. Claro que o veterano Peter Parker está de volta! O mentor de Miles, agora, é pai da pequena Mayday, fruto do seu amor com Mary Jane, o que rende em bons alívios cômicos que deixam a animação leve em momentos pontuais. Claro que os demais teiosos surgem e o público nota qual versão está acompanhando. Aliás, o que não falta em Através do Aranhaverso são referências e easter eggs dos universos do Homem-Aranha já apresentados no cinema e nas HQ’s.
É nesta viagem intensa ao multiverso que o público toma o conhecimento real sobre o que se trata a história e a ameaça que desencadeia as melhores reviravoltas da animação, na qual você nem cogita. Sem dar muitas explicações, o que posso dizer é que Homem-Aranha: Através do Aranhaverso tem como objetivo principal trazer uma visão sobre a conexão dos universos destes heróis, explicando o porquê que certos eventos acontecem em todo o multiverso.

Quando o vilão Mancha surge ameaçando tudo, o público nota que esta espiral multifacetada é mais complexa do que se espera. É aqui que Miles Morales dá início ao seu novo embate para defender a sua postura e, é claro, quem ama.
Um ponto importante a se ressaltar é a experiência que tive em assistir Homem-Aranha: Através do Aranhaverso legendado. As dublagens estão excepcionais e conta com vozes maravilhosas. No entanto, esta sequência exige uma atenção maior, uma vez que tudo é muito intenso e muitas coisas vão acontecendo rapidamente e seguida da outra, o que faz o espectador ficar dividido entre ler a legenda e acompanhar o que está na tela. Além disso, há inserções textuais que não foram traduzidos na versão legendada, algo que na versão dublada do primeiro filme é feito e isto facilita a compreensão.
Assistir legendado foi legal, mas esta é uma animação que será melhor absorvida na versão dublada e vista mais de uma vez, para assim, captar mais as referências e os detalhes na tela, sem a preocupação de acompanhar a legenda. Com certeza irei assistir de novo.
Considerações finais

A viagem ao multiverso leva os personagens para diversos pontos gerando reviravoltas inesperadas e ganchos incríveis. Nem mesmo Miles Morales esperava se deparar com um momento que promete render. Aliás, o público fica tão imersivo na história que esquece que Homem-Aranha: Através do Aranhaverso é dividido em duas partes e, assim, deseja ver a parte 2 o quanto antes, mas que deverá ser lançado em 2024.
Homem-Aranha: Através do Aranhaverso supera o fenomenal primeiro filme, entrega uma história amadurecida, mergulha e explora a essência do aranhaverso e explica a razão para sua existência, entrega dramas, conflitos e personagens que conseguem ser ainda mais apaixonantes, enquanto outros dividirão opiniões diante das atitudes.
O cliffhanger para a parte 2 é perfeito e a ansiedade para ver o que vai acontecer começa nos pós-créditos. Homem-Aranha: Através do Aranhaverso é uma animação incrível que já pode entrar na lista de favoritos de 2023.
OBS: Não há cenas pós-créditos.
Ficha Técnica
Homem-Aranha: Através do Aranhaverso
Direção: Joaquim dos Santos, Kemp Powers e Justin K. Thompson
Roteiro: Phil Lord e Christopher Miller
Elenco de dublagem: Shameik Moore, Hailee Steinfeld, Oscar Issac, Issa Rae, Jake Johnson, Brian Tyree Henry, Luna Lauren Velez, Daniel Kaluuya, Rachel Dratch, Andy Samberg, Karan Soni, Jason Schwartzman, Amandla Stenberg, Jorma Taccone e Shea Whigham.
Duração: 2h20min
Nota: 5,0/5,0