Jogos Mortais foi a primeira franquia de terror que me impactou com uma história que traz a tradicional carnificina, mas te fascina mesmo é com o jogo sádico e o terror psicológico de uma rede de mistério para entender a razão de criar algo tão horrendo e descobrir a identidade de quem está por trás de tudo.
Ao longo dos anos, a essência distorcida sobre justiça foi escoando, mas as tentativas de entregar uma nova trama e o mesmo jogo continuaram. Eis que, em 2021, temos Espiral – O Legado de Jogos Mortais (Spiral – From the Book of Saw) que promete uma nova trama, novos personagens e um novo mentor para dar o play em mais uma rodada de jogo. Realmente era necessário começar tudo outra vez? O novo filme até tem seus pontos interessantes, mas, no geral, acaba se tornando mais do mesmo que foi perdido nos últimos longas.
Dirigido por Darren Lynn Bouseman, Espiral – O Legado de Jogos Mortais acompanha o detetive Zeke Banks que, seguindo os passos do pai, Marcus Banks, usa da sua impetuosidade para capturar bandidos, desde se infiltrar em grupos criminosos até bater de frente com a capitã do seu distrito. Ao lado do seu parceiro novato, Zeke dá início a investigação de uma série de assassinatos na cidade, mas quando nota o padrão e os tipos de vítimas que caem nesta espiral sádica, Zeke começa a correr contra o tempo para encontrar quem está por trás de tudo isso.
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Espiral – O Legado de Jogos Mortais tem o foco em falar sobre a corrupção entre autoridades, especialmente dentro da polícia, e como isso afeta os cidadãos e, consequentemente, inocentes perdem a vida. No centro de tudo está Zeke, um policial correto que soube fazer o seu nome por lutar, todos os dias, contra o crime e a corrupção. O passado lhe assombra por ter feito a coisa certa e, por conta disso, recebe olhares tortos e desprezo.

Quando o jogo se inicia e o público já tem noção do ambiente tóxico da polícia, fica claro quem serão os alvos deste jogo, tornando o filme previsível justamente por se concentrar em um único núcleo de vítimas, o que faz o espectador aguardar apenas quem será o próximo a entrar no jogo.
Em seu segundo ato, Espiral – O Legado de Jogos Mortais entrega uma morte atrás da outra, uma sequência de carnificina que já não tem mais tanta graça, uma vez que o roteiro simplesmente esquece de trabalhar o ponto que, antes, fascinava os fãs da franquia Jogos Mortais: a sutileza do mistério, a atmosfera de suspense, o terror psicológico de quem se torna o jogador sem saber a razão de ter sido escolhido, e, é claro, de quem investiga.
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A ideia de apenas ter um sadismo no ar com as pistas inusitadas que surpreendem tanto o personagem quanto o espectador, foram deixadas de lado neste novo filme, que se debruça mais nas armadilhas e em como eliminar o jogador do que, de fato, em montar este quebra-cabeça misterioso, uma vez que boa parte da trama é previsível e a aleatoriedade (proposital) de capturar uma vítima não existe, uma vez que já sabemos quem está na mira.

Do legado de Jogos Mortais, os vídeos gravados e a mensagens, agora em um pen drive, continuam. No entanto, Jigsaw – o famoso boneco na bicicleta – marca registrada da franquia, não está neste filme que usa apenas cabeças de porco para fazer as tradicionais gravações explicativas do jogo à vítima, além de enviar pistas de presente ao detetive para confirmar o sadismo e indicar se estão no caminho certo da investigação ou não.
O ator Chris Rock se esforça no papel e até te conquista depois de um tempo assistindo, já que no início do filme há certa dificuldade em levar o personagem à sério, uma vez que ele só grita, esbraveja e despeja uma série de palavras de baixo calão. Mas no momento em que se compreende os motivos por trás da desconfiança e falta de parceria no trabalho, o espectador até dá razão para a impaciência do protagonista.
Por conta desta previsibilidade, o filme não desenvolve direito a trama sobre a corrupção na polícia, o que realmente ocorreu no passado que ainda reflete no presente e a razão para colocar Zeke no centro desta espiral assassina. O fator surpresa poderia ter sido trabalhado desde o início, o que teria deixado a história muito mais instigante, tensa e intensa, fazendo com que as mortes se tornassem um efeito colateral e assustador, como víamos no início da franquia de Jogos Mortais.
Outro ponto que fica a desejar é que o filme não desenvolve a relação de pai e filho de Zeke e Marcus e, menos ainda, a parceria de Zeke com o novo detetive William Schenk. Chris Rock e Max Minghella formam uma boa dupla e o público espera ver uma cumplicidade profissional maior que, até é interrompida, mas que poderia ter se tornado mais atrativa. Samuel L Jackson é um ótimo ator, mas o roteiro transforma seu personagem em uma marionete coadjuvante com pouco espaço no filme. Digo isso, pois ambas relações são fundamentais para o desfecho deste jogo e que poderiam ter sido melhores aproveitados.

O que faz Espiral – O Legado de Jogos Mortais se salvar aos 45 minutos do segundo tempo é o 3º ato que entrega o elemento surpresa que fecha todo o jogo e, consequentemente, revela quem está por trás de tudo. O espectador pode até gostar de tal reviravolta, mas isso não faz esquecer da oportunidade que o filme perde em trabalhar melhor o mistério e o desenvolvimento dos personagens. O final ganha um corte brusco e direto, dando a entender que uma possível sequência pode vir acontecer.
Espiral – O Legado de Jogos Mortais entrega em sua nova versão uma nova ambientação, novos personagens, uma temática e mensagem até interessantes, mas erra ao não desenvolver um roteiro mais instigante, deixando de lado o suspense e o terror psicológico, reduzindo o mistério apenas a uma carnificina que já não impacta como antes e se escorando em um final satisfatório e que tenta salvar todo o conjunto da obra.
A verdade é que já passou da hora de deixar o legado de John Kramer em paz. É preciso dar Game Over em Jogos Mortais.
Ficha Técnica
Espiral – O Legado de Jogos Mortais
Direção: Darren Lynn Bousman
Elenco: Chris Rock, Samuel L. Jackson, Max Minghella, Marisol Nichols, Dan Petronijevic, Richard Zeppieri, Patrick McManus, Ali Johnson, K.C Collins, Thomas Mitchell, Edie Inksetter e Zoie Palmer.
Duração: 1h33min
Nota: 5,0