Pode se dizer que De Pernas Pro Ar é uma das poucas comédias brasileiras cuja validade é igual a de uma garrafa de vinho: fica melhor com o passar dos anos. Se o primeiro nos conquistou com uma mulher descobrindo uma dimensão sensacional sobre sexualidade, o segundo explora mais um pouco e, agora, sete anos depois, a trama inova, renova e amadurece, trazendo uma mistura de sexo e tecnologia que desperta ainda mais o prazer nos personagens e, é claro, o prazer em assistir algo divertido.

Dirigido por Julia Rezende, De Pernas Pro Ar 3 se passa no Brasil e em Paris, uma vez que o gancho deixado no longa anterior seria de que a Sexy Delícia se expandiria pelo mundo, especialmente em terras francesas. Dito e feito: Alice Segretto explode sua marca internacionalmente, tornando-se uma das empresárias de maior sucesso no campo do prazer. No entanto, quanto mais trabalho e responsabilidade, maior é sua imagem e presença pelos quatro cantos do planeta, o que a faz ficar longe de casa tempo demais.

Ao perceber que Paulinho se tornou um jovem adulto iniciando sua jornada de responsabilidades, enquanto Clarinha, de seis anos, já é uma menina esperta e João segue firme na carreira e nos cuidados com os filhos, Alice se dá conta de que perdeu muita coisa enquanto trabalhava fervorosamente. Assim, ela toma a grande decisão de se aposentar e entregar o cargo para sua mãe, Marion (Denise Weinberg), para se dedicar exclusivamente à família. É a partir daí que vemos um peso crescer nas costas de Alice, pois ao mesmo tempo que ama seu marido e seus filhos, ela ama demais o trabalho para ficar longe. E tudo isso fica ainda mais difícil de pôr na balança, quando uma jovem concorrente, Leona, surge para chacoalhar o mercado do sexo, o que faz a veterana ficar em segundo lugar.
Um dos pontos mais interessantes de De Pernas Pro Ar 3 é que o filme pega um roteiro já encaminhado, dá uma continuidade sem perder o fio da meada do que já conhecemos dos filmes anteriores, acrescentando elementos que tornam a trama renovada e atual.
O primeiro ponto positivo é colocar o embate de gerações entre duas mulheres. De um lado, temos Alice que abrange um enorme conhecimento no mercado, abrindo portas para a descoberta do prazer de milhares de mulheres; do outro lado, temos Leona que traz o frescor de uma nova era que mistura sexo e tecnologia, surpreendendo e inovando a área com a chegada dos óculos de realidade virtual que faz você ter o melhor dos encontros. A cena da Alice sensualizando com Cauã Reymond é, sem dúvidas, um dos melhores momentos do filme.
Mas, além desse impacto inovador, o roteiro apimenta a trama trazendo certa rivalidade entre as duas, tanto pelo trabalho quanto pelo amor de Paulinho que elas precisam dividir. Ciúmes, insegurança, medo e dúvidas fazem as duas iniciarem um confronto necessário para elas enxergarem pontos de vistas fora da zona de conforto, justamente para mostrar que essa desunião não faz bem para ambas, muito menos quem estiver ao seu redor.

Todas as cenas de Ingrid Guimarães e Samya Pascotto são ótimas, engraçadas e dramáticas na medida certa, mostrando a paixão intensa pelo trabalho e as questões ao equilibrar vida profissional e pessoal.
Crítica: Vox Lux – O Preço da Fama
Aliás, o que não falta é carisma em Ingrid, que te conquista do começo ao fim. A atriz entrega uma Alice workaholic, apaixonada por sua escolha, mas também completamente entorpecida pela família que tem. Vê-la dividida faz muitas mulheres se identificarem com as dúvidas de conciliar trabalho e casa sem deixar um dos dois de lado. Não, a personagem não é perfeita e apresenta falhas em algumas atitudes e uma dose de egoísmo, ainda mais quando se trata do marido e do filho com Leona (o que a torna ainda mais real), mas ela procura por equilíbrio e resoluções que façam com que os campos de sua vida funcionem em harmonia. Mas até isso acontecer, ela quebra a cara algumas vezes e escuta coisas que a machucam. Um diálogo curto e super fofo dela falando com Clarinha sobre como o trabalho a faz feliz é um dos momentos mais sinceros da protagonista.

Bruno Garcia está bem no papel, mas não é um personagem que conquista com tanta facilidade. É possível entender o ponto de vista de João, ao ver a esposa longe constantemente, enquanto ele lida com a casa e os filhos sozinho. Mas, desde o primeiro filme, dá para sentir uma falta de compreensão com relação ao trabalho, fazendo com que ele jogue isso na cara de Alice quando algum problema surge. Há erros de ambas as partes, porém Alice mostra mais dedicação em querer resolver do que o João. Mas essa é apenas a minha opinião.
Os destaques também ficam para Samya que entrega uma Leona inteligente, descolada, esperta, determinada, antenada e workaholic, mas que também apresenta certas inseguranças especialmente quando precisa lidar com seu coração. Eduardo Melo interpreta Paulinho no auge da fase jovem adulto responsável, que explora o prazer e encontra uma paixão que o avassala por completo. A pequena Clarinha (Duda Batista) e Rosa (Cristina Pereira) trazem um alívio cômico leve e divertido na trama.
Considerações finais
De Pernas Pro Ar 3 retorna as telas com um roteiro já conhecido que conquista com a renovação dos personagens, assuntos atuais, cenas engraçadas e, é claro, o prazer inovado que a gente tanto gosta. Uma comédia sexy e delícia para entreter e divertir.
Ficha Técnica
De Pernas Pro Ar 3
Direção: Julia Rezende
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Samya Pascotto, Eduardo Melo, Duda Batista, Cristina Pereira, Vincent Mangado, Stepan Nercessian, Claudia Mauro e Maria Paula.
Duração: 1h48min
Nota: 7,8