Mais uma live-action da Disney chegou e, cá entre nós, sabe-se que essas produções dividem opiniões constantemente. Desta vez, a clássica animação A Pequena Sereia (The Little Mermaid) ganha a sua versão em carne e osso que gerou inúmeros comentários, desde a escolha da atriz, se a história sofreria mudanças ou não, até a construção dos cenários e efeitos especiais. O resultado? O filme surpreende com o conjunto da obra e, mesmo com algumas ressalvas, a live-action agrada e apresenta nuances que faz o espectador ficar ainda mais envolvido.
******CONTÊM SPOILERS******
Com direção de Rob Marshall (O Retorno de Mary Poppins), A Pequena Sereia traz a adorada história de Ariel, uma bela e espirituosa jovem sereia com sede de aventura. A mais nova das filhas do Rei Tritão, e a mais rebelde, Ariel anseia por descobrir mais sobre o mundo além do mar e, ao visitar a superfície, conhece e se encanta pelo Príncipe Eric.
Embora as sereias sejam proibidas de interagir com os humanos (vice-versa), Ariel deve seguir seu coração e, para isso, ela faz um acordo com a malvada bruxa do mar, Úrsula, que lhe dá a chance de viver em terra firme, mas acaba colocando sua vida – e a coroa de seu pai – em perigo.
Alguns dirão que a live-action segue em modo automático, uma vez que não há muitas mudanças na história. E sim, esta versão traz exatamente a mesma trama e essência da animação de 1989, sem tirar e nem por. Talvez a Disney pudesse apresentar uma nova vertente da história? Aplicar uma nova dinâmica? Sim, havia tal possibilidade, mas optou-se em seguir à risca o que já é conhecido por todos.

Ainda assim, a live-action apresenta um desenvolvimento que entrega nuances modificadas que faz o espectador compreender melhor os sentimentos e pensamentos dos personagens diante de tal situação e, consequentemente, se envolver e emocionar com momentos específicos. Além disso, outro ponto positivo é que alguns personagens surpreendem em suas performances, saindo da superficialidade e ficando até melhores do que conhecemos na animação.
A Pequena Sereia causou receios quanto à sua ambientação e construção dos cenários, afinal, a maior parte da trama se passa no fundo do mar, enquanto outra parte transita pela terra. Além disso, os trailers não favoreceram muito o filme, com suas imagens escuras. Mas não se preocupem, pois o longa entrega bons efeitos especiais que agradam no geral, com uma pequena observação ou outra a se fazer.
A ambientação do fundo do mar é belíssima ganhando uma coloração rica para retratar o reino de Tritão e toda a região onde ele e as filhas moram. Claro que poderia ganhar cores ainda mais fortes, mas não fica a desejar. Já os cenários desconhecidos para onde Ariel gosta de se aventurar, faz esta paleta de cores diminuir e ganhar uma tonalidade mais acinzentada para retratar os riscos e perigos em volta da protagonista. Mas quando a câmera leva o olhar do público para região onde a vilã Úrsula vive, a ambientação muda radicalmente, tornando-se obscura e com pontos fortes de luz – com roxo, verde, vermelho – para enaltecer o grau de periculosidade em torno da antagonista.

Outro ponto positivo e que enaltece a live-action A Pequena Sereia é a trilha sonora que retrata as cenas marcantes da animação, contando com as músicas clássicas e três novas canções compostas Alan Menken e Lin-Manuel Miranda. O público irá se encantar com a voz de Halle Bailey, que faz suas cordas vocais vibrar em A Part of Your World, que ganha uma entonação e notas mais altas em alguns momentos, o que deixa a canção ainda mais linda; o público se diverte com Under the Sea, na voz de Daveed Diggs, com participação especial de Bailey. Aqui, o filme poderia ter reforçado a música com um coral ao fundo para tornar esta sequência mais vibrante; ainda assim, não deixa de ser empolgante de ouvir e assistir.
Temos também o clássico momento de Ariel e Eric no barco ao som de Kiss The Girl, cantada por Daveed Diggs e Awkwafina como Sebastião e Sabidão, que criam aquele clima romântico para o tão esperado beijo acontecer. Por fim, não poderia faltar a música da vilã Úrsula, a emblemática Poor Unfortunate Souls, que ganha uma entonação bem diferente na voz de Melissa McCarthy que, no geral, é satisfatória, mas não envolve tanto o espectador diante do perigo que a personagem representa. Por ser uma canção forte e ácida, esperava um pouco mais.
Das canções novas, temos Wild Uncharted Waters cantada por Eric, um ponto positivo que traz mais camadas ao príncipe, mostrando suas dúvidas, vulnerabilidades, escolhas e o amor que passa a florescer em seu caminho. A música Scuttlebutt é cantada por Linguado e Sebastião que é fofa, gerando um momento divertido. Claro que Ariel também ganharia uma canção nova e, aqui, ela canta For The First Time, depois de se transformar em humana e colocar os pés em terra firme pela primeira vez. O mais interessante é que a personagem se imagina cantando enquanto se deslumbra com tudo a sua volta, já que ela entrega a sua voz para Úrsula, como parte do “acordo”.
Personagens

O que faz a live-action A Pequena Sereia ganhar pontos a mais do que a animação são as nuances apresentadas em alguns personagens que, para mim, faz diferença em uma história já conhecida.
A atriz Halle Bailey está ótima sim no papel de Ariel. Ela encanta os olhares ao entregar uma jovem sereia insaciável para explorar o desconhecido, uma adolescente teimosa, que desobedece as regras, se corrige e faz o certo, admitindo os próprios erros. Ela quer falar e, principalmente ser escutada, por isso, age com impulsividade para provar existe o bem na superfície – sem fazer vista grossa ao mal -, além de mostrar que quer mais do que o fundo do mar lhe oferece. Halle entrega carisma, curiosidade, doçura, esperteza e inocência nas camadas de Ariel, além de uma voz deslumbrante que envolve o público em cada nota musical. Não é à toa que o príncipe Eric se encanta pela voz da Ariel à primeira vista.

Enquanto isso, a curiosidade pelos humanos faz Ariel bater de frente com Tritão, que usa da proteção excessiva para o bem da filha, enquanto ignora os desejos e sonhos da protagonista por não escutá-la e ferver ainda mais o ódio contra os humanos, uma vez que a rainha morreu pelas mãos de um. A live-action acerta ao dar mais espaço para a relação de pai e filha no decorrer da história, culminando em uma resolução linda e emocionante, especialmente, na última cena dos dois. Javier Bardem está ótimo no papel de Rei dos Mares ao representar uma autoridade que, no fim das contas, aprende a ouvir por amor.

O ator Jonah Hauer-King é quem também surpreende na live-action ao trazer mais camadas ao príncipe Eric. Confesso que encontraria apenas um personagem blasé, superficial e sem graça no filme, servindo apenas como uma referência romântica para ser alcançada pela protagonista. No entanto, a live-action dá a oportunidade do espectador se envolver mais com Eric, seu desejo de viajar e trazer prosperidade ao seu reino, explorar o desconhecido, aguçar suas curiosidades e viver um amor improvável.
A relação de Ariel e Eric é mais real e palpável, criando uma conexão aos poucos que faz o público sentir que é verdadeiro e não forçado, algo que a animação fica a desejar, pelo menos para mim. As sequências dos dois passeando pelo vilarejo e no barco provam tudo isso.

Se tem uma personagem cuja expectativa estava mais alta é a vilã Úrsula, vivida por Melissa McCarthy. Posso dizer que a atriz entrega uma atuação satisfatória, ‘arroz com feijão’ que é aprovado. No entanto, é possível sentir a ausência de uma acidez mais forte na vilã, que faria o público rir enquanto teme do mal e o que ela é capaz de fazer. No entanto, a Úrsula se salva nas cenas ao lado de Ariel, que ganha uma coloração bem obscura, em que ela não hesita, muito menos espera para manipular a sereia, que logo se vê presa sob os tentáculos ameaçadores em um acordo repleto de chantagem e armadilhas. O fato de fazer Ariel ‘esquecer’ do detalhe do contrato sobre o ‘beijo verdadeiro’ é uma boa sacada.
Quando a Úrsula se transforma em sua versão humana Vanessa, a atriz Jessica Alexander aproveita os poucos minutos em cena para encarnar um lado bem vilanesco da personagem, especialmente no olhar e na risada de alguém que venceu, cujo mal se tornou soberano a tudo e todos.

Do elenco dos animais, os maiores destaques são Sebastião, Sabidão e Linguado. Daveed Diggs e Awkwafina entregam entonações divertidas e sarcásticas aos seus personagens, que ganham um ótimo espaço na história, uma vez que se tornam o braço direito da Ariel. Jacob Tremblay também está bem ao dar voz ao Linguado, porém o personagem está mais apagado na live-action, mesmo contribuindo em um detalhe ou outro.
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Do elenco coadjuvante, os destaques são a rainha Selina (Noma Dumezweni) e Grimsby (Art Malik), braço direito do reino e quem sempre ajuda Eric a tomar a decisão certa, ou deixá-lo fazer o que é correto para si e seu coração. As filhas de Tritão também aparecem aqui, seja na sequência inicial para reunião com o pai, ou em algum momento ao lado de Ariel. São participações mínimas e consideráveis.
Considerações finais
A reta final de A Pequena Sereia segue a mesma essência da animação, com pequenas mudanças como no embate final contra Úrsula e a união de Ariel e Eric. Assista e descubra.
A live-action A Pequena Sereia está longe de ser a monstruosidade que alguns falaram, aliás, passa longe disso. Apesar de uma observação ou outra, esta versão está ótima e entra no ranking de boas live-actions da Disney (Aladdin continua sendo o meu favorito).
Sugiro que esqueça as divulgações e os trailers e se entregue a experiência de ir assistir este filme no cinema, com o melhor som possível e, de preferência, legendado para desfrutar da voz encantadora de Halle Bailey e das dublagens dos animais. Só assim para tirar a prova se irá gostar ou não do filme. Eu, que não curto tanto a animação, fiquei feliz com a live-action. Espero que os demais tenham o mesmo sentimento.
Ficha Técnica
A Pequena Sereia
Direção: Rob Marshall
Trilha Sonora: Alan Menken e Lin-Manuel Miranda
Elenco: Halle Bailey, Jonah Hauer-King, Melissa McCarthy, Javier Bardem, Daveed Diggs, Awkwafina, Jacob Tremblay, Noma Dumezweni, Art Malik, Jessica Alexander, Simone Ashley, Jodi Benson, Emily Coates, Karolina Conchet, Lorena Andrea, Kajsa Mohammar, Russell Balogh e Adrian Christopher.
Duração: 2h15min
Nota: 3,6/5,0