A Assistente (The Assistant) entra para a lista de produções que trazem uma perspectiva diferente e assustadora sobre o assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. Assim como o filme O Escândalo e as séries The Morning Show e The Loudest Voice, este novo longa diz muito sobre este assunto com pouquíssimas e fortes palavras, com olhares, reações e expressões da protagonista. É um filme minimalista que retrata um assunto forte que se inicia de forma silenciosa e, diversas vezes, é silenciado por muitos.
Com direção de Kitty Green, A Assistente acompanha Jane (Julia Garner), uma aspirante a produtora de cinema que, recentemente, conseguiu seu emprego dos sonhos como assistente júnior de um poderoso magnata do entretenimento. O dia dela é muito parecido com o de qualquer outra assistente. Mas, à medida que Jane segue sua rotina diária, ela começa a perceber todos os abusos que envolvem seu ambiente de trabalho e sua posição profissional.

A Assistente é um filme que, talvez, não agrade todos os públicos justamente por ser uma trama muito intimista, com poucas falas, quase nenhuma cena estrondosa, mas que aborda um assunto forte e polêmico em suas entrelinhas. O diálogo é um personagem coadjuvante, uma vez que as palavras ficam em segundo plano, fazendo com que a história toda seja contada sob o ponto de vista da protagonista, suas observações, atividades, ações e percepções instigantes em sua rotina de trabalho.
O filme se passa em apenas um dia do trabalho de Jane, em que ela é a primeira a chegar no escritório (quase de madrugada) e a última fechar a porta do local, dando um sentimento de agonia e prisão, uma vez que a personagem mal vê a luz do sol na rua, ficando presa à sua mesa e realizando as tarefas corriqueiras, mas impactantes à medida que o espectador compreende o que se passa dentro do prédio.
A princípio o público pode achar o início do filme estranho e sem contexto, uma vez que há poucos diálogos e vários enquadramentos da protagonista realizando alguma atividade, como arrumar a sala do chefe, lavar a louça, atender ligações que os demais funcionários não podem (ou não querem) atender, imprimir roteiros, calendários e programações a serem enviados para Los Angeles, entre outras coisas.

Mas é nas atividades mais estranhas de Jane que o público passa a notar, junto com a protagonista, o que há de errado no escritório, especialmente com o chefe que, por sinal, não aparece em momento algum, sendo apenas citado por personagens coadjuvantes, ou se comunicando por telefone e e-mail com a protagonista. É nestes pontos que o público começa a compreender, a pequenos passos, o assédio moral e sexual de forma silenciada realizados pelo tal magnata do entretenimento, e a forma como tudo isso é encoberto pelos demais.
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Há cenas minimalistas que mostram como o ambiente se torna hostil, agoniante e difícil de respirar para Jane, que se sente pressionada por todos os lados e sua voz cada vez mais reduzida. De exemplo, vemos a protagonista limpando o sofá do chefe, seguido de uma cena em que um dos produtores brinca ao dizer ao colega para não sentar nesse sofá, pois está ‘sujo’; as constantes e agressivas ligações da esposa do chefe, em que Jane tenta mediar e não sabe o que dizer, sempre levando a pior no final; os e-mails com pedidos de desculpa ao chefe, sendo que ela não teve saída de uma situação na qual não teve culpa; a indução dos ‘colegas masculinos de trabalho’ que jogam olhares de menosprezo à Jane, além de fazê-la pedir desculpas ao chefe ao invés de explicar o que realmente aconteceu.
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A atriz Julia Garner está simplesmente ótima no papel de Jane, trazendo todo o peso do drama em sua atuação, carro-chefe do filme. O enquadramento da câmera está quase sempre na atriz, revelando suas ações, especialmente nas expressões da personagem que entrega tudo o que pensa e sente apenas com o olhar.

O ápice da trama acontece no momento em que Jane junta as peças quando uma nova assistente chega ao escritório e a forma como ela é ‘contratada’. A cena em que a protagonista vai ao RH para tentar contar o que realmente está acontecendo é bem agoniante. Jane é diminuída e sua voz é silenciada, uma vez que ela não tem provas suficientes para provar o que acontece no escritório, reduzindo a personagem apenas a uma assistente enciumada e invejosa, o que não é verdade. O espectador se sente inquieto ao ver a personagem tentar falar e não conseguir colocar as palavras para fora, sendo calada de imediato. A última fala do funcionário do RH joga a verdade na cara da protagonista e do espectador de forma bem grotesca e repulsiva.
Considerações finais
O final traz o desfecho deste dia pesado e cheio de pressão para Jane, que é a última funcionária a sair do escritório. Mas é na última cena, em que Jane olha para cima, em direção à janela do escritório, que compreendemos, mais uma vez, o que realmente se passa ali. Uma cena minimalista que diz algo gritante.
A Assistente é um filme intimista que retrata o assédio moral e sexual em grandes empresas, sob a perspectiva de uma funcionária que ganha uma interpretação ilustre de Julia Garner, cuja atuação se encontra no olhar e na expressão, deixando as palavras em segundo plano. É um filme que se diz muito com pouco. Que grita em silêncio.
Ficha Técnica
A Assistente
Direção: Kitty Green
Elenco: Julia Garner, Matthew Macfadyen, Kristine Froseth, Makenzie Leigh, Jon Orsini e Noah Robbins.
Duração: 1h27min
Nota: 7,5