Arquivo 81 é a nova série da Netflix que chegou de forma sorrateira e se encontra no TOP 10 do streaming merecidamente (mesmo que seja por pouco tempo). A produção é um suspense psicológico com pitadas de terror que instiga o espectador a saber o que há por trás das fitas misteriosas. Apesar da narrativa iniciar com ritmo lento, a história surpreende com reviravoltas instigantes, personagens cativantes que te levam junto a esta espiral surpreendente cujo final entrega explicações satisfatórias deixando um excelente gancho para uma futura 2ª temporada. Vale a pena assistir e vou te dizer o porquê.
******CONTÊM SPOILERS******
Criada por Rebecca Sonnenshine e com produção executiva do excelentíssimo James Wan (Invocação do Mal, Maligno), Arquivo 81 conta a história de Dan Turner (Mamoudou Athie), um arquivista que recebe uma oferta irrecusável para restaurar fitas de vídeo de 1994. Mesmo receoso, ele aceita o desafio e, enquanto reconstrói o documentário da diretora Melody Pendras (Dina Shihabi), Dan acaba se envolvendo na investigação que ela iniciou sobre o edifício Vissar. Enquanto acompanhamos duas linhas temporais, vemos os dois personagens formarem uma conexão misteriosa. Com isso, Dan fica obcecado em descobrir o que realmente aconteceu com Melody 25 anos atrás e acredita que pode salvá-la de um triste fim.
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Baseado no podcast homônimo criado por Marc Sollinger e Daniel Powell – sucesso na época do lançamento em 2016 – Arquivo 81 contém oito episódios de 50 a 60min aproximadamente e entrega uma narrativa que chama a atenção em alguns aspectos. Para começar, o espectador acompanha duas linhas do tempo – passado e presente – em que vemos a história de Melody pela perspectiva de Dan enquanto ele assiste as fitas que, por sinal, ganha o estilo perfeito de VHS (imagens e chiados), como se o público estivesse assistindo ao vídeo ao lado do protagonista.

Além disso, a série também acompanha o tempo real do personagem à medida que ele restaura as fitas – as cenas de restauração são ótimas – investiga o caso e reage aos acontecimentos atuais, seja com o misterioso Virgil, o magnata quem o contratou; o podcaster e melhor amigo Mark, que se preocupa com a saúde mental do amigo e está disposto a ajudá-lo neste caso sobrenatural; o segredo por trás do passado trágico de Dan e como isso o afeta até hoje e está relacionado a este caso; e a relação dele indiretamente com a Melody, um ponto que a série vai explicando aos poucos.
Já o passado, além da perspectiva atual de Dan, a série também entrega flashbacks de 1994 pelo ponto de vista da Melody, que inicia o documentário no edifício Vissar com o objetivo de encontrar a sua mãe biológica Julia Bennett (Ahlam Abbas), uma vez que ela foi deixada ainda bebê em uma igreja, apenas com o anel dado pela mãe. À medida que ela começa a entrevistar os moradores do local, conhecer cada vizinho peculiar e a andar pelos corredores, Melody descobre segredos obscuros deste prédio que resultaram em um incêndio trágico no local.
Arquivo 81 entrega uma narrativa que, a princípio é lenta nos primeiros episódios em que a trama consegue prender a atenção do espectador por conta deste mistério, apesar da dinâmica ainda ser um pouco arrastada. Assim, sugiro que não desista da série precocemente, pois a trama fica melhor.
Com isso, outro ponto positivo é que a trama ganha um formato espiral que faz o público mergulhar neste suspense psicológico e sobrenatural aos poucos, sem ter pressa de contar tudo, entregando peça por peça a cada episódio para formar o quebra-cabeça em que as reviravoltas são todas boas, independentemente de ser apenas um pequeno detalhe ou uma grande “explosão de cabeças”.
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Até o 6º episódio, Arquivo 81 entrega todos os pontos, enquanto o 7º episódio apresenta a origem de como tal mistério começou, em que o espectador faz a conexão sobre tudo o que foi visto anteriormente para, assim, ganhar uma compreensão maior sobre a reta final que entrega excelentes reviravoltas.
Personagens

Dan Turner é um personagem marcado por traumas no passado, uma vez que, ainda criança, viu sua família morrer em um trágico incêndio em casa que, a princípio, teria sido iniciado pelo seu pai. O suspense psicológico da série brinca com a mente do protagonista que tenta separar o que é real ou imaginação à medida que assiste as fitas e descobre a verdade por trás da história do edifício e o que aconteceu com Melody. Dan é aquele personagem que faz o público sentir na pele o mesmo que ele sente e esta é a forma que a série escolheu para injetar o gênero terror, fugindo dos tradicionais jump scares. A ideia é causar tensão, agonia e preocupação, e não apenas sustos baratos.
Do outro lado da história, Arquivo 81 apresenta Melody, uma personagem cuja sensibilidade é bastante suscetível, um ponto que é explicado enquanto o mistério ganha forma e detalhes na narrativa. Não se preocupe em achar as atitudes da personagem um pouco estranhas, pois há motivações por trás de cada passo dado, especialmente quando ela conhece outras pessoas que possam se tornar vítimas deste mal que ronda o prédio, como é o caso da garotinha Jess (Ariana Neal) e da melhor amiga Annabelle (Julia Chan).

Já Mark é uma grata surpresa na série, não só pela interpretação boa, agitada extrovertida de Matt McGorry (How To Get Away With Murder), mas também por se mostrar o grande amigo leal e braço direito de Dan, não importa o nível da situação. Mark ajuda em cada passo da investigação, seja coletar dados sobre os envolvidos, encontrar pessoas do passado e, até mesmo, confrontar os mais perigosos.
Qual é o grande mistério?

Afinal, o que está por trás das fitas e o que levou ao incêndio do edifício Vissar em 1994? À medida que Dan restaura os vídeos e a Melody adentra ainda mais pelo prédio, presente e passado se conectam por conta de um ritual que se iniciou em 1924 e foi ressuscitado pelos moradores fanáticos por tal bruxaria.
A seita é comandada por Samuel, Cassandra, Tamara, o zelador John e outros que desejam refazer o ritual para despertar o demônio Kaleago, com o objetivo de que o véu entre o mundo dos mortos e vivos caia, formando-se um único mundo. No entanto, a série deixa claro que mexer com o outro lado não é a melhor opção, afinal, a ideia de abrir portas do mundo mortal para um demônio que exige sangue e sacrifícios humanos pode resultar em destruição total.
Toda a história de origem deste ritual é contada no 7º episódio de Arquivo 81 em que o público toma conhecimento que a seita foi iniciada pelas mãos de Iris Vos (Georgina Haig), que deu origem a Sociedade Vos, na qual ela reunia parte da família, seguidores e uma vítima para o sacrifício a fim de realizar tal ritual. Porém, a série revela que todo este mal gerado vem do desejo de Iris em se tornar mãe, já que suas gestações não iam até o final, além do fato da personagem não aceitar a morte, uma motivação que, aos olhos do espectador, pode despertar raiva diante de tal crueldade, egoísmo e presunção.
Assim, a história se repete em 1994 em que Melody descobre o significado do ritual e tenta impedir de que isso aconteça, muito menos que sacrifiquem Jess durante o processo, uma vez que o grupo persuade e prepara a garota para tal feito. Enquanto o espectador descobre tudo isso, Dan acompanha o desenrolar do mistério pelas fitas e encontra meios de salvar Melody nos dias atuais, além de tentar colocar um ponto final nesta situação.
Qual o desfecho?

O que realmente aconteceu com Melody e porque ela foi dada como desaparecida em 1994? A reta final de Arquivo 81 conecta todos os pontos desta primeira parte da história, em que o público já está ciente sobre o culto, como funciona e como impedir que o mal se repita.
Na tentativa de impedir o ritual, Melody salva Jess, mas é capturada para acompanhar o processo em que Tamara é sacrificada, enquanto o sangue de Melody é usado para abrir o portal entre os dois mundos. Aqui, descobrimos que Melody faz parte da linhagem de bruxas Baldung, cujo sangue é imprescindível para este culto, enquanto essas bruxas tentaram, por anos, impedir a chegada do demônio até a humanidade. Esta é a razão para Melody e qualquer outro Baldung ser contra o ritual. Não é à toa que Melody tem alta sensibilidade ao sobrenatural.
No entanto, o ritual dá errado, uma vez que Samuel realiza o processo sem o diapasão – faz a extensão dos sons e das vozes – provocando o incêndio no prédio. Ainda assim, ele consegue abrir o portal onde Iris se encontra e puxa Melody que fica presa no outro mundo, o que faz o espectador compreender o seu desaparecimento por 25 anos.
Com todas essas descobertas, Dan retorna à mansão de campo onde restaurava as fitas para repetir o ritual a fim de trazer Melody de volta. Ele confronta Virgil que não aceita ajudá-lo, mas ele também não explica o objetivo de descobrir a razão para o seu irmão Samuel realizar tal bruxaria.
Neste momento, Dan e Mark recebem a ajuda da caseira misteriosa que, no fim das contas, se identifica como a mãe biológica de Melody, cuja separação foi para proteger a filha contra tudo isso, o que foi inevitável. Assim, o ritual se repete e Dan vai para outro mundo resgatar Melody, mas quando ambos tentam retornar para a atual linha do tempo, Samuel puxa Melody, que chega em 2022. Já Dan fica preso e vai parar na linha do tempo de 1994.
Outras respostas

Talvez o espectador fique questionando o significado do mofo enquanto assiste a série. Aos poucos, Arquivo 81 entrega pistas que deixa claro que o mofo que aparece tanto no edifício Visser quanto na casa onde Dan trabalha, significa o corpo e sangue do demônio que ultrapassa o véu que separa os mundos, confirmando que a união entre mundos está cada vez mais perto de acontecer.
Tal mofo deixa Annabelle com confusões mentais. A melhor amiga de Melody passa a ter visões da imagem de Iris Vos (presa do outro lado), assim como, anos depois, ela passa a ter visões de Melody, quando a protagonista também fica presa no outro mundo. Tudo isso é visto no momento em que Dan e Mark vão ao encontro de Annabelle.
Desde o início, Arquivo 81 deixa claro que Virgil (Martin Donovan) tem interesses fortes nas fitas de Melody, justamente por ele ser o irmão de Samuel. No entanto, a série não entrega respostas mais contundentes sobre o objetivo dele querer esses vídeos, afinal, se ele não deseja salvar o irmão, então seria para quê? Para refazer o ritual em 2022?
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Outro ponto que a série não deixa pontas soltas é com relação ao pai de Dan que, inicialmente, parecia estar conectado ao ritual, no entanto, ele foi apenas mais uma isca e um efeito colateral de toda esta situação. Ao tentar ajudar Melody, o pai de Dan fica com as últimas fitas. Porém, sua casa é incendiada a fim de destruir tais conteúdos demoníacos, resultando na morte de toda família, menos de Dan que, por sorte, não se encontrava no local.
Considerações finais
Arquivo 81 apresenta uma história de mistério sobrenatural que se desenvolve a partir de uma investigação sobre bruxarias, seitas e rituais, uma temática fantasiosa que chama a atenção ao ganhar uma ótima atmosfera de suspense psicológico, pitadas de terror, personagens cativantes que sabem levar a trama para frente, enquanto ganha reviravoltas surpreendentes e um final com ganchos instigantes para uma possível 2ª temporada.
Se você gosta de uma série de mistério com temáticas sobrenaturais envolvidas no bom e velho suspense psicológico, Arquivo 81 é uma ótima opção para assistir.
Ficha Técnica
Arquivo 81
Criação: Rebecca Sonnenshine
Elenco: Mamoudou Athie, Dina Shihabi, Matt McGorry, Evan Jonigkeit, Julia Chan, Ariana Neal, Martin Donovan, Georgina Haig, Charlie Hudson II, Ahlam Abbas, Kate Eastman, Kristin Griffith, Eden Marryshow, Jaxon Rose Moore, Trayce Malachi, Jay Klaitz,
Duração: 1ª temporada (8 episódios)
Nota: 4,0/5,0