Independente de gostar ou não, não se pode negar que Pretty Little Liars é uma série teen de sucesso que conquistou o público de 2010 a 2017 com o famoso mistério sobre a identidade de ‘A’ e o que realmente havia acontecido com a personagem Alison.
Mesmo que não tenha se passado muito tempo, a nova geração ganha uma nova versão desta produção, que se passa no mesmo universo, mas traz uma nova história e novos personagens. Pretty Little Liars: Um Novo Pecado chega na HBO Max prometendo conquistar um novo público e, até mesmo, os antigos fãs da trama original, mas será que o início da série prende a atenção e convence a continuar assistindo?
O Pipoca na Madrugada assistiu aos quatro primeiros episódios, mas neste lançamento apenas os três primeiros episódios estão disponíveis no streaming. Darei as primeiras impressões com alguns spoilers sobre a estreia da série e apenas comentarei sobre o quarto episódio sem spoilers para não estragar a experiência do espectador.
******CONTÊM SPOILERS******
Qual é a história?

Pretty Little Liars: Um Novo Pecado é um melodrama adolescente que traz uma nova geração de “pequenas mentirosas” atormentadas por ‘A’, um assassino mascarado disposto a puni-las pelos pecados de suas mães cometidos há 20 anos, marcando a cidade de Millwood. Mas este grupo também terá que pagar pelos próprios pecados.
Este drama obscuro se passa a quilômetros de distância de Rosewood (ambientação da série original), em uma cidade totalmente nova e com toda uma nova geração de “mentirosas”.
Pretty Little Liars: Um Novo Pecado é criado, produzido e roteirizado por Roberto Aguirre-Sacasa, mesmo criador da série Riverdale. Preciso deixar claro que, apesar de ter curtido a ambientação da série, o estilo e as personagens, não criarei expectativas por conta de um começo promissor, uma vez que Aguirre-Sacasa sempre inicia positivamente suas produções, mas perde completamente o fio da meada no desenvolvimento, como vem ocorrendo com Riverdale.
É normal as produções terem seus altos e baixos, a série original teve esta fase e, talvez, este reboot também passe pela mesma situação caso ganhe novas temporadas futuramente. Por ter uma trama bem diferente da primeira série, esta nova versão pode entregar boas reviravoltas, envolver melhor os personagens adultos, explorar a atmosfera sombria e sinistra e não se perder nas famosas ‘barrigadas’ ou ‘episódios filler’ que não adicionam nada à história. O voto de confiança é dado, mas com o pé atrás.
Dito isso, Pretty Little Liars: Um Novo Pecado entrega dois pontos muito interessantes: a narrativa e o estilo. Com relação ao primeiro, a série entrega uma construção de narrativa não-linear em que ora o espectador viaja 20 anos atrás para entender o que aconteceu na cidade e com as mães das protagonistas, ora retorna para os dias atuais para entender como o passado impacta o presente e influencia o dia a dia das garotas atormentadas com a chegada deste novo assassino misterioso.

A série faz questão de inserir textos na tela para identificar ao espectador o tempo da história, seja meses, dias ou anos atrás. Porém, se faz muita questão de indicar os dias da semana que vão passando como se estivéssemos marcando um ‘X’ no calendário, um ponto que incomoda. Até o quarto episódio, ainda não se sabe qual é o propósito de indicar os dias da semana a todo momento, e se este detalhe vai trazer alguma diferença ou complementar alguma reviravolta até o final da temporada, mas a princípio, é um ponto que se torna repetitivo e cansativo.
Enquanto a trama original passeia pelo gênero teen com mistério e suspense, Pretty Little Liars: Um Novo Pecado mergulha a série adolescente em uma atmosfera sombria mais pesada, um suspense bom e dosado e bebe de várias referências a filmes de terror tanto os clássicos quanto os mais atuais. Mesmo que não tenha cenas sangrentas e explícitas, a série é bastante influenciada pelo terror slasher, como na caracterização do próprio assassino que remete ao vilão de O Massacre da Serra Elétrica e lembra dos clássicos ‘killers’ dos filmes de horror dos anos 80 como Michael Myers de Halloween, Jason de Sexta-Feira 13 e Ghostface de Pânico.
A influência também cai na paleta de cores terrosos com uso de filtros mais vintage e escuros; elementos tradicionais e até clichês vistos nestes filmes de terror como a casa amaldiçoada, o cemitério da cidade, o galpão abandonado, o jogo que atrai espíritos, a floresta sombria, as típicas festas adolescentes em que tudo pode acontecer, mortes misteriosas e, é claro, o clássico grupo de jovens disposto a arriscar para investigar e descobrir a verdade.
Nestes requisitos, Pretty Little Liars: Um Novo Pecado acerta em cheio podendo até atrair os entusiastas de filmes de terror, mas espero que a série não se prenda somente pela vibe nostálgica de horror e foque em contar uma boa história adolescente de mistério.
Quem é ‘A’?

‘Quem é ‘A’?’ é a pergunta clássica de Pretty Little Liars que retorna de um jeito bem diferente em Um Novo Pecado. Desta vez, a história não apresenta uma personagem desaparecida e um grupo lamentando enquanto recebe mensagens misteriosas assinadas por ‘A’, levando a suposição de que seja a própria amiga sumida em questão.
Agora temos um ‘A’ mais assustador e sanguinário, que ganha uma caracterização horrenda e tem atitudes mais brutais para atacar suas vítimas em jogo de gato e rato para se vingar dos culpados em meio a um quebra-cabeça para entender a razão do passado de outras pessoas atingirem as garotas indiretamente nos dias atuais.
Logo no primeiro episódio, temos o vislumbre da festa de 1999 em que as mães das ‘mentirosas’ presenciam a morte da jovem Angela Walters (Gabriella Pizzolo). Há muitos questionamentos com relação a esta tragédia, como o fato da garota chegar atordoada e pedindo ajuda na festa; o menosprezo do grupo de garotas (as mães) com relação ao desespero de Angela; o choque com o suicídio da menina, além do fato do seu corpo ser descoberto dias depois, uma vez que ninguém chamou a polícia após o ocorrido.
Tudo leva a crer que a morte de Angela esteja conectada ao assassino que usa a letra ‘A’ como assinatura e marca registrada de seus atos, o que é interessante e previsível, porém a série ainda pode oferecer boas reviravoltas com relação a este mistério e o fato deste assassino querer atingir as filhas de seus alvos principais. A série tem a excelente chance de envolver bem o elenco adulto – inclusive já iniciou este processo – e não descartá-lo facilmente, uma vez que as mães guardam segredos intrigantes e um passado que condena.
Aliás, Davie (Carly Pope), mãe de Imogen, é a primeira a sofrer as consequências levando a personagem a uma morte repentina, dolorosa e com várias pontas soltas até o momento: ela cometeu suicídio ou foi morta? Como ela era na adolescência? Como ela agia na escola, especialmente com Angela? Qual era a verdadeira conexão das duas? O que realmente levou a Angela à morte e, agora, à morte de Davie?
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Todas as mães das protagonistas estão envolvidas, colocando a imagem, reputação e sobrevivência em jogo, com destaque para Sidney (Sharon Leal), mãe de Tabitha, Corey (Zakiya Young), mãe da Faran e Marjorie (Elena Goode), mãe da Noa que, por sinal, tem um currículo comprometedor com relação às suas atitudes e o caráter desde a adolescência que, agora, refletem na própria filha. Mesmo destacando estas, todas as mães escondem algo e torço para que a série saiba explorar isto muito bem. A faca e o queijo estão na mão.
Quem são novas Liars?

O que faz Pretty Little Liars: Um Novo Pecado ganhar movimento são as protagonistas e posso dizer que as novas ‘mentirosas’ causam boa impressão à primeira vista com suas personalidades fortes, a forma como criam este laço forte de amizade em meio ao mistério que as conectam de um jeito estranho, afinal, todas elas têm um assassino em comum.
No entanto, um detalhe a ressaltar aqui é a interpretação das garotas. No geral, cada uma entrega uma boa atuação, mas falta energia e intensidade por parte delas em momentos de grande tensão, desespero e choque. Há grande possibilidade da performance melhorar e espero que isso aconteça.
Mesmo todas ganhando um espaço satisfatório na história, Imogen (Bailee Madison) é o maior destaque da série, sendo uma adolescente grávida que sofre com a repentina morte da mãe. Além disso, ela precisa lidar com todos os olhares tortos, especialmente da ex-melhor amiga Karen que não facilita em nada para a garota. Apesar de carregar um grande peso nas costas, Imogen não abaixa a cabeça, bate de frente se for necessário, mas também sabe quando exagera em certas atitudes, provando ter consciência digna, sensatez e bom coração, o que faz ela se aproximar facilmente das outras meninas, se distanciando de uma solidão fria por conta das circunstâncias.
Mas Imogen também tem segredos, como a identidade do pai do seu bebê (ela apenas revela que é um salva-vidas) e se ela vai levar a maternidade adiante ou não enquanto investiga sobre ‘A’ e a conexão do assassino com a morte da mãe. Esta é uma personagem promissora e que pode ser muito bem explorada.
Outra personagem que se torna uma das minhas favoritas (e pode ser a favorita de mais espectadores) é a Tabitha (Chandler Kinney), uma cinéfila de carteirinha, especialmente do gênero terror. A Tabby não se cansa de citar vários e conhecidos longas e diretores como Hereditário, Midsommar, Pânico, Chucky, filmes do Jordan Peele, Brian de Palma, Hitchcock e mais. É até possível fazer uma lista com dicas que a Tabby dá no decorrer dos episódios, um detalhe que até pode fazer diferença ao espectador a fim de captar as referências destes títulos dentro da série.
Outro ponto interessante é que o conhecimento sobre estes filmes deixa a Tabby mais ligada ao mistério e quem pode ser o assassino, impedindo que ela e outros personagens tomem atitudes precipitadas e até estúpidas como costuma-se ver em filmes de horror. Pode ser que o público se enjoe de vê-la falar sobre cinema o tempo todo, mas particularmente, é um dos melhores pontos da Tabby. Aliás, esta é uma personagem que carrega um segredo, algo pessoal que aconteceu e que, agora, ela investiga para encontrar provas, como vemos em uma cena em que ela grava os garotos dentro do vestiário masculino. À primeira vista, esta atitude é muito estranha, mas ela não faria isto à toa. Há algo por trás e, em breve, vamos descobrir a verdade.
Já a Noa (Maia Reficco) é mais despojada, extrovertida e descolada, porém, ela carrega o peso de ter que fazer exames e serviço comunitário por ter sido pega com drogas, um plot muito interessante que envolve ela e o xerife (Eric Johnson) da cidade que, por sinal, é um personagem prepotente e arrogante. Mas tal situação de Noa vai mais além e o espectador se surpreende quando descobre o que realmente se passa com esta personagem.
Quem também é carismática é a Mouse (Malia Pyles), que é doce, determinada e afiada nas palavras. Infelizmente ela também sofre na escola, mas não fica por baixo, porém a série indica que Mouse teve problemas no passado, o que faz a mãe ter um cuidado extra com a filha. O que será que aconteceu? Até este momento, a trama ainda não relatou o ocorrido.
Para fechar o quinteto, temos a Faran (Zaria) que te conquista com o seu lado debochado e até engana com a aparência de patricinha mimada. Mas a garota é focada em ser uma excelente bailarina – especialmente pelo seu histórico de saúde – o que desperta a inveja em alguns e, até mesmo, o racismo por conta da cor de sua pele. Apesar de ter que engolir certos sapos e ficar calada diante de certas situações, a Faran não deixa de demonstrar quando ela realmente não gosta de alguém, o que torna alguns momentos até cômicos.

A responsável por unir as garotas é a Karen (Mallory Bechtel), a abelha rainha odiada por muitos na escola justamente por nunca perder a oportunidade de humilhar alguém. Karen é uma ótima vilã em Pretty Little Liars: Um Novo Pecado e é gostoso odiá-la, fazendo com que as garotas fiquem sempre atentas nela que, por sinal, é usada como isca pelo assassino para atrair os seus alvos, o que faz a própria Karen também ser vítima nas mãos de ‘A’.
É importante ressaltar que a personagem tem uma irmã gêmea, Kelly, e este é um elemento essencial que fará diferença na série, uma vez que ter duas personagens iguais aumenta o mistério, especialmente por ter um assassino envolvido. Em determinado momento, é normal começar a desconfiar ainda mais do caráter das duas, especialmente da suposta irmã mais “boazinha”. Será que ela é tão ingênua e inocente assim?
Do elenco masculino, os destaques são Chip (Carson Rowland), melhor amigo de Tabby que, na minha opinião, parece ter algum sentimento a mais pela amiga, assim como Wes (Derek Klena), gerente do cinema da cidade, que não disfarça e dá em cima de Tabby descaradamente, deixando a personagem bastante desconfortável em várias ocasiões, conectando tal desconforto com alguma situação que a personagem passou.
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Por fim, temos o Greg (Elias Kacavas), namorado de Karen que beija Imogen e estraga a amizade criando esta rivalidade intensa entre as duas. No momento, não há tantas informações e detalhes sobre este personagem, mas acredito que ele esteja envolvido em alguma coisa. É aquele personagem que não se coloca a mão no fogo por ele.
O que esperar da série?

Sobre o 4º episódio, o que posso dizer (sem spoilers) é que a série entrega as primeiras respostas, aumenta a investigação por parte das garotas, entrega novas reviravoltas instigantes e cria novos questionamentos que serão desenvolvidos nos próximos episódios.
Considerações finais
Pretty Little Liars: Um Novo Pecado tem um início promissor, introduz satisfatoriamente as protagonistas cujas camadas são instigantes abrindo caminho para uma boa exploração sobre cada uma, especialmente com relação ao passado de suas mães, o que torna este mistério atrativo. A série é moldada sob uma atmosfera de terror slasher bem feita, com ótimas referências e citações aos clássicos de terror, incluindo um assassino em que o figurino e as atitudes amedrontam na medida certa.
Talvez o público já tenha suas primeiras apostas sobre a identidade de ‘A’, mas acredito que a série tem a oportunidade de ser uma ótima caixinha de surpresa e surpreender a todos. Agora é aguardar os próximos episódios e torcer para que não estraguem a história que tem elementos suficientes para entregar uma boa temporada.
Ficha Técnica
Pretty Little Liars: Um Novo Legado
Criação: Roberto Aguirre-Sacasa
Elenco: Bailee Madison, Chandler Kinney, Malia Piles, Zaria, Maia Reffico, Mallory Bechtel, Eric Johnson, Carson Rowland, Derek Klena, Joanthan Wieber, Kristian Mosley, Sharon Leal, Zakia Young, Elena Goode, Jordan Gonzalez, Alexander Chaplin, Gabriella Pizzolo, Sarah-Anne Martinez, Ava DeMary, Kristen Maxwell, Carly Hope, Michael Maize, Elias Kacavas, Ben Cook e Alex Aiono.
Duração:10 episódios (1ª temporada)
Nota: 3,4/5,0 (4 primeiros episódios)