Para os fãs da rainha do crime, mais uma adaptação da autora chega à Netflix. Os Sete Relógios de Agatha Christie traz à tela uma das obras mais diferentes que li. Nada de detetive Poirot na história. Desta vez, temos uma jovem em busca de justiça e um superintendente à procura de um culpado em um mistério gostoso de acompanhar, no entanto, bem enxuto e direto ao ponto.
Uma trama que traz segredos, espionagem, mortes e investigação em uma atmosfera política e industrial à época, que agrada por ser menos denso, se comparado ao livro. Sem dúvidas, há mudanças em comparação à obra original, em especial, ao desfecho que, na minha opinião, surpreende e agrada, deixando até melhor que o final do livro. Vale a pena assistir e vou te dizer o porquê.
******CONTÊM SPOILERS******
Criada por Chris Chibnell e com direção de Chris Sweeney, Os Sete Relógios de Agatha Christie adapta o livro O Mistério dos Sete Relógios da autora. A série inicia com uma cena que se passa em 1920, cinco anos antes dos eventos atuais que iremos acompanhar, em que vemos um homem entrar em uma arena e cair em uma emboscada mortal.
Assim, o espectador é levado para 1925, cenário pós Primeira Guerra Mundial. Na mansão Chimneys, local que pertence à família Brent, ocorre uma grande festa onde conhecemos os personagens principais. Lady Eileen ‘Bundle’ Brent, é filha da matriarca Lady Caterham, uma jovem inteligente e espirituosa. E a festa conta com o Sr. Oswald Coote. e Lady Coote; os jovens e amigos de Bundle, como Jimmy Thesiger, Bill Eversleigh, Ronnie Devereux (Nabhaan Rizwan) e Gerry Wade (Cory Mylchreest), que estava servindo assistência à Lady Coote e tem sentimentos por Bundle, algo que fica claro no primeiro episódio.

Apesar da inteligência e o cavalheirismo, Gerry Wade é conhecido e debochado pelos amigos por ter um sono pesado, ao ponto de dormir por horas e perder o horário. Assim, Bill e Ronny colocam despertadores posicionados de forma estratégica no quarto de Gerry, para provar se ele capaz de acordar rápido ou não.
Mas o que parecia ser uma brincadeira inocente termina em tragédia. Na manhã seguinte da festa, Gerry é encontrado morto na cama, deixando todos estarrecidos com sua partida repentina. A polícia suspeita de um suicídio por overdose, mas Bundle não aceita que tenha sido desta forma.
Assim, Bundle começa a encontrar pistas pelo quarto – sendo uma delas uma carta deixada por Wade para sua meia-irmã Loraine – que indicam que a morte de Gerry foi premeditada. E a investigação se inicia quando ela se depara com o nome ‘Seven Dials’ ou ‘Sete Relógios’, que a leva para um clube, até chegar a uma misteriosa sociedade secreta.
Assim, com a ajuda de Jimmy, Ronnie, Bill e Loraine, Bundle começa a investigar sobre Seven Dials, como isso pode estar conectado à morte de Gerry e quem realmente é o culpado.

O que mais chama a atenção é que a minissérie tem apenas três episódios, com começo, meio e fim, sem enrolações ou firulas no meio do caminho. Quem leu o livro, à primeira vista, pode estranhar, uma vez que esta história é mais densa por entregar uma narrativa que adentra na politicagem industrial e espionagem em um cenário pós-guerra, além de fazer vários contornos para amadurecer a conexão entre os personagens, os passos de cada um, para que, assim, fiquemos intrigados sobre quem possa ser o culpado na trama.
Assim, Os Sete Relógios de Agatha Christie faz um enxugamento na narrativa, colocando os plots principais na adaptação, enquanto adentra no mundo da política, pós-guerra e indústria apenas para explicar as intenções e motivações dos personagens. Para uma série com apenas três episódios, apresentar esta narrativa enxuta é uma boa sacada, pois não há frestas para fugir do mistério principal ou entregar cenas que possam atrapalhar o desenvolvimento da história.
Além disso, toda a roupagem política e de espionagem é mais densa e descritiva no livro o que, para mim, foi um pouco cansativo de ler em alguns momentos. Por isso, achei este livro o mais diferente que já li de Agatha Christie. Mas não deixa de ser uma boa leitura.
Personagens

Outro ponto interessante e que faz jus à adaptação são as modificações de alguns dos personagens e da construção narrativa em torno de cada um. A começar por Bundle (Mia McKenna-Bruce), que entra em cena no primeiro instante, enquanto que, no livro, a personagem só aparece depois que a tragédia acontece e decide investigar o que ocorreu em sua casa.
E em ambas produções, a personagem é espirituosa, inteligente, sagaz, determinada a fazer justiça e não esconde o que pensa, faz ou irá fazer. A química com todos os personagens é leve e natural, ou seja, ela se dá bem com todos, ao mesmo tempo que investiga e se depara com as surpresas.

Outra personagem que surpreende não só na performance como na forma como é apresentada e desenvolvida é Lady Caterham, muito bem interpretada por Helena Boham Carter. Ela é rabugenta, direta ao ponto, não gosta de visitas, nem sair de casa, odeias pessoas e é debochada. Ela e Bundle são mãe e filha, grandes parceiras que ficaram ainda mais unidas após a morte do marido, em especial, do filho mais velho, Thomas, que morreu na guerra, uma dor que Lady Caterham carrega com muito peso.
Tal modificação é interessante, pois no livro, Bundle não tem irmão e o pai está vivo, inclusive, é ele quem tem essa personalidade apresentada na mãe, deixando a dinâmica de pai e filha divertida de acompanhar. Na série, a dinâmica de mãe e filha mistura deboche, diversão e drama por conta do que a família passou.

Outros personagens também apresentam a mesma dinâmica que no livro, como o charmoso Jimmy (Edward Bluemel), que ajuda Bundle na investigação; Loraine (Ella-Rae Smith), que entra em cena para ajudar também, mas pouco sabemos sobre ela; o entusiasta Bill (Hughie O’Donnell), que ganha uma personalidade um pouco diferente que no livro, uma vez que ele é mulherengo. Tirando isso, ele segue com a mesma personalidade de bobo, agitado e pronto para agir quando necessário.
Temos também George Lomax (Alex Mcqueen), que demonstra um forte interesse amoroso em Bundle. Já Sr. e Lady Coote ganham uma personalidade de chatos e arrogantes na série, enquanto no livro, apenas Sr. Coote é aquele chato divertido, enquanto a Lady Coote é mais dramática por se importar com todos, em especial, com a saúde do marido.

Por fim, temos a outra ponta da investigação, comandada pelo Superintendente Battle, interpretado por Martin Freeman. Há um tom misterioso em torno do personagem, que observa a inteligência de Bundle, ao mesmo tempo que se preocupa com a segurança dela, enquanto adentra também neste universo para capturar o culpado.
No entanto, enquanto no livro, Battle tem um ar mais sério e contido, ao ponto até de desconfiarmos dele, a série entrega um alívio cômico comedido em torno do personagem.
O que é Seven Dials ou Sete Relógios?

O mistério de Os Sete Relógios de Agatha Christie aumenta conforme mais mortes acontecem, não só no presente, como também vemos no passado e como isso se conecta à trama.
O Seven Dials/Sete Relógios entra em cena como uma sociedade secreta cujas intenções deixam o clima mais sombrio. E isso se fortalece quando a série revela as intenções políticas por trás dos personagens, o desejo de poder e riqueza em torno de um novo material que promete revolucionar a indústria do país. Mas os objetivos do grupo Sete Relógios são revelados apenas no final.
Final explicado

Os Sete Relógios de Agatha Christie entrega um final que expande muito mais do que é visto no livro, tornando o desfecho da série melhor que a obra original, na minha opinião.
Para começar, descobrimos que o homem que vemos ser morto em uma emboscada, em 1920, é o pai de Bundle, que fazia parte do grupo Sete Relógios. Ele morreu durante uma missão, na qual ele iria se encontrar com o Dr. Cyril Matip (Nyasha Hatendi), que inventou um material super resistente, até mesmo a tiros. E neste mesmo período, vemos que a irmã de Matip é assassinada por uma mulher, que tenta roubar a fórmula, mas Matip a mata.
Agora Dr. Matip negocia com George Lomax e a família Coote para vender a fórmula ao governo e, assim, revolucionar a indústria.
Já as mortes de Gerry Wade e Ronnie (que também é assassinado) ocorrem por eles saberem demais. E quem os mata é Jimmy e Loraine, para roubar a fórmula à mando de Lady Caterham. Sim, a mãe de Bundle é a grande responsável por tudo.

Ela nunca aceitou a morte do marido, muito menos do filho, que morreu lutando pelo seu país. Assim, sua vingança seria impedir que tal fórmula chegasse no governo, vendendo para fora, mesmo que caísse em mãos erradas.
No entanto, não estava nos seus planos as mortes de Gerry e Ronnie, decisões errôneas tomadas por impulsividade. Lorraine envenena o irmão Gerry e Jimmy atira em Ronnie Além disso, Lady Caterham tomou conhecimento sobre a fórmula pelo marido, sem saber que ele fazia parte do grupo secreto Sete Relógios.
No fim das contas, Bundle descobre tudo e, mesmo sendo a sua própria mãe, ela a entrega à polícia.
Crítica: Assassinato no Expresso do Oriente
E outra grande surpresa é que o Superintendente Battle é o número 7, líder da Sociedade dos Sete Relógios, que trabalhou com o pai de Bundle e, agora, recruta a jovem, que aceita o convite para fazer parte desta sociedade secreta e engatar na próxima missão.

A Sociedade dos Sete Relógios é uma aliança informal que tenta manter o mundo seguro em tempos turbulentos. É por isso que Battle estava tentando proteger Dr. Matip e a fórmula.
O desfecho da série é melhor que a do livro ao colocar a Lady Caterham como a grande culpada, o que surpreende por ser inesperado; Jimmy e Loraine são presos ao participarem do plano apenas por dinheiro. Além disso, Bundle ganha o destaque merecido, além de ingressar no grupo secreto.
No livro, toda a revelação é feita pelo Superintendente Battle para Bundle e todos presentes. No entanto, assim que o mistério é destrinchado, apenas sabemos que Jimmy e Loraine são presos e o livro acaba. Lady Caterham é Lord Caterham e ele nem faz parte de nada disso.
Senti que Bundle fica jogada de escanteio, sem sabermos direito a sua reação ao descobrir que dois dos seus amigos são assassinos e traiçoeiros. Por estar à frente da investigação desde o começo, a protagonista não ganhou um final justo no livro, a meu ver, enquanto a série entrega um desfecho merecedor a ela, indo além do que não está na obra.
Considerações finais
Os Sete Relógios de Agatha Christie traz uma adaptação enxuta do livro, que se encaixa dentro da proposta de três episódios. O desenvolvimento é bem feito, sem enrolações, indo direto ao ponto nos plots principais, com modificações positivas que se encaixam bem para o formato minissérie.
Os personagens são bons e também sofrem modificações na adaptação, sendo algumas sutis e outras drásticas. Mas o maior acerto é colocar a protagonista no centro de toda a investigação desde o início, mesmo com outros personagens de peso, que ajudam a equilibrar a trama, dando um desfecho merecedor à personagem e um final melhor que a do livro.
Ficha Técnica
Os Sete Relógios de Agatha Christie
Adaptação do livro O Mistério dos Sete Relógios
Criação: Chris Chibnall
Direção: Chris Sweeney
Elenco: Mia McKenna-Bruce, Helena Boham Carter, Martin Freeman, Corey Mylchreest, Edward Bluemel, Nabhaan Rizwan, Ellaa-Rae Smith, Hughie O’Donnell. Guy Siner, Nyasha Hatendi, Stella Stocker e Alex Macqueen.
Duração: 3 episódios (60 min. aprox)
Nota: 3,9/5,0

















