O Escolhido é a nova série brasileira da Netflix a apostar no gênero suspense sobrenatural que retrata o choque e o embate entre a fé e a ciência, de um jeito minimalista, peculiar e interessante.
Com direção de Michel Tikhomiroff e roteiro de Carolina Munhóz e Raphael Draccon, a adaptação da série mexicana Niño Santo, conta a história de três jovens médicos – Lucia, Damião e Enzo – que são enviados para Água Azul, um vilarejo remoto do Pantanal para vacinar seus moradores contra uma nova mutação do vírus da Zika. Seus esforços para tratar a população são recusados de forma radical e agressiva, e os médicos se veem presos em uma comunidade isolada, coberta de segredos e devota de um líder enigmático que os força a confrontar o poder da fé com a ciência.
A partir dos quatro primeiros episódios (no total são seis), pode se dizer que O Escolhido é um grande enigma cujo sobrenatural não está em dar sustos, apresentar espíritos malignos e cenas sangrentas, mas sim na crendice específica e nos rituais desenvolvidos nesta história.

O primeiro episódio entrega uma simples e boa introdução dos personagens médicos, com foco em Lucia (Paloma Bernardi). Dedicada ao trabalho e em salvar vidas – passando por preconceitos e julgamentos precipitados – a protagonista tende fortemente a defender a ciência e seus recursos, exatamente por ter uma fé já abalada. Um recurso utilizado na série são os flashbacks em preto e branco para pontilhar o tipo de linha narrativa e em qual tempo o telespectador está acompanhando. Aqui, o público toma conhecimento sobre a fé fervorosa da família de Lúcia e a o destino infeliz que é traçado por uma decisão radical que faz a moça mudar o seu conceito ainda muito nova.
A partir das pequenas apresentações, a série encaminha o público para conhecer o povoado de Água Azul, que deixa claro sua hostilidade com forasteiros e que lá ninguém adoece, ou seja, os remédios não são bem-vindos. No entanto, por ordem do governo, o trio inicia a missão, mas é recebido com agressividade, tornando tudo ainda mais misterioso, já que tal relutância em receber uma simples vacina ganha proporções inimagináveis.
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Toda a narrativa de O Escolhido se desenrola dentro dessa cidade, levantando questionamentos não só sobre fé vs ciência, mas também sobre os bastidores macabros que rodeiam um vilarejo tão esquecido pelo mundo. Afinal, o que se passa lá para que nenhuma pessoa adoeça? Por que eles hostilizam tanto a medicina? Qual a motivação para idolatrar um único homem?
A série sabe prender a atenção, pois a trama tem uma boa costura entre um acontecimento e outro, sem entregar as verdadeiras justificativas; apresenta personagens instigantes, cuja fé os movem, revelando apenas algumas curiosidades sobre cada um, deixando o fator surpresa apenas para a reta final da história, acredito eu.

Com sinceridade, O Escolhido não é uma série de encher os olhos, mas ela faz por merecer ser assistida, justamente por entregar uma história inquietante, além de deixar um gancho ao final de cada episódio. O corte é proposital e preciso, a fim de que o telespectador continue ‘preso’ da mesma forma que os médicos também ficam para saber mais sobre este mistério. Entendem o que eu quero dizer?
Um ponto interessante é que a série constrói uma atmosfera de suspense em um formato que se distancia ao que estamos acostumados a ver em séries ou filmes. O medo nasce da aflição de se sentir preso na cidade por uma força maior, mas sem estar preso literalmente. As consequências quase nunca são positivas para os médicos, e a cada minuto que passa, esse temor aumenta paralelamente com a curiosidade, principalmente quando o trio testemunha uma cura com comprovações científicas nulas. Essa atmosfera também é composta pelo sobrenatural que se encontra na hostilização dos moradores do vilarejo, nos aficionados por uma fé regrada pelo Escolhido, por aqueles que sabem a verdade por trás das ruas e florestas, cuja fé não é tão sólida; os desesperados em busca da cura; e, é claro, nos misteriosos rituais que movem a cidade e a crença, dona de todo o mistério moldurado, que entrega o fato aos nossos olhos sem revelar o que são.
Personagens

Renan Tenca interpreta o Escollhido, líder de Água Azul, o curandeiro, o todo poderoso que a cidade admira e protege. Mas afinal, quem é ele? Por que ele é o escolhido? Quem o escolheu? Como ele adquiriu o poder da cura? Por qual razão ele só se prontifica a ajudar um vilarejo em específico? Por que ele traça o destino dos habitantes da cidade e todos acatam suas escolhas sem confrontá-lo? Quais são as consequências para quem ou o que for ao contrário de suas decisões? Tenca traz uma interpretação bondosa e fiel, ao mesmo tempo que é movido pelo sobrenatural. Só assistindo para descobrir.
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Do trio dos médicos, além de Lucia, Damião (Pedro Caetano) também é focado no trabalho, prático e direto ao assunto, especialmente quando precisa lidar com os percalços em Água Azul. Às vezes, ele pode incomodar por não saber ouvir e agir por precipitação, causando mais problemas. Enzo (Gutto Szuster) tem uma problemática um pouco maior, por gostar e se dedicar à medicina por razões não muito simpatizantes. Ele sente medo de ajudar em situações de risco, o que diminui a sua credibilidade, mas ao chegar à cidade, sua força e medo são colocados à prova, o que o faz se redimir e aprender a ser uma pessoa mais confiante. Os flashbacks ajudam a compreender as motivações dos dois personagens.

Mateus (Mariano Martins) é uma espécie de guardião da cidade e muito próximo do Escolhido. Mas é com a chegada dos médicos, especialmente de Lucia, que sua fé se desequilibra em alguns momentos. Ao mesmo tempo em que ele é hostil, ele é bom; quer que o trio vá embora o quanto antes, mas também gosta quando ficam. É um personagem que você aprende a gostar e, pelo menos até o quarto episódio, você torce para que nada aconteça com ele.
Zulmira (Tuna Dwek) é extremista, fiel à cidade e ao Escolhido, aceita as decisões do líder, mas no fundo, não gosta de ser controlada. Demonstra ser uma ameaça, mas também é apenas mais uma peça do quebra-cabeça enigmático que o vilarejo é.

Angelina (Alli Willow) é a assistente e uma espécie de motor do Escolhido, mas ainda é um grande mistério na série. Acredito que os episódios finais vão revelar mais coisas sobre ela.
Considerações finais
O Escolhido é uma nova aposta do gênero suspense sobrenatural que dá certo sem ter tantas ousadias. Mesmo sem criar uma expectativa engrandecedora, a série sabe cativar a atenção do público com uma narrativa que costura bem os acontecimentos sem revelar as surpresas por trás. É uma história que instiga, aflige e sufoca (no sentido positivo) por fazer não só os personagens, mas também o público ficar preso em uma cidade repleta de mistérios, cujo sobrenatural se encontra na cultura e na fé específica da região, que ganha um cenário rico brasileiro do Pantanal, guardando muitos segredos macabros não só sobre o líder, mas tudo o que move aquelas pessoas.
Vale a pena dar uma chance a nova produção. Agora é torcer para que o final seja bom!
Ficha Técnica
O Escolhido
Direção: Michel Tikhomiroff
Roteiro co-produção executiva: Carolina Munhóz e Raphael Draccon
Elenco: Paloma Bernardi, Renan Tenca, Pedro Caetano, Gutto Szuster, Mariano Martins, Tuna Dwek, Alli Willow, Aury Porto, Lourinelson Vladmir, Francisco Gaspar e Kiko Vianello.
Duração: seis episódios (40 a 50min aprox.)
Nota: 7,0 (quatro primeiros episódios)