Vozes e Vultos (Things Heard and Seen) é a mais nova produção da Netflix que aparenta ser um filme de terror, mas a trama vai bem mais além dos famosos jumps scares. Pode se dizer que o filme é um suspense com pequenos toques de horror, mas que não se torna o elemento principal, uma vez que o filme também usa de elementos bíblicos e do espiritismo para desenvolver a história que quer contar. É um longa interessante que discorre uma mensagem boa e importante, cujo final fica subjetivo que, talvez, nem todos irão gostar da forma como é finalizada.
Vozes e Vultos é uma adaptação do livro All Things Cease to Appear, da autora Elizabeth Brundage. Como não li o livro, não farei comparações, mas caso a curiosidade aumente, é até interessante pesquisar sobre a obra original para saber mais detalhes a respeito. Enquanto isso, na adaptação cinematográfica, acompanhamos o casal George e Catherine que moram em Nova York, mas decidem se mudar para o norte, no Vale do Hudson, uma cidade mais pacata e distante da agitação, por conta da oferta de emprego do marido em uma universidade renomada. Enquanto George dá aulas sobre arte e se engrandece por conta da sua dissertação de sucesso, Catherine é conhecida por ser uma grande restauradora de arte.
Ao partirem para a nova cidade, eles se mudam para uma casa em um vilarejo histórico carregado de mistérios, assim como as pessoas que moram lá. Dia após dia, Catherine não só vai conhecendo aos poucos a região, mas principalmente onde mora e descobre que a casa guarda segredos instigantes, o que a faz suspeitar que algo obscuro ronda o local ameaçando sua família e, especialmente, o seu casamento.

Vozes e Vultos tem um roteiro interessante que bebe de mensagens metafóricas e subjetivas que é possível interpretá-las à medida que o filme entrega explicações coerentes, detalhes sobre um passado sombrio e o que se passa com os personagens, seja sua personalidade e no que cada um acredita.
Conforme os dias vão passando, Catherine passa a ver coisas e sentir presenças fortes dentro da casa, seja uma luz amarelada forte que passa sobre seus olhos, um cheiro incômodo de fumaça, vozes sorrateiras pelos corredores, luzes piscantes e, é claro, fantasmas, por que não? O filme não é tão sutil nesse quesito e logo introduz jumps scares dosados e que funcionam, e este é o elemento que faz o espectador começar a entender o que virá pela frente.
Um ponto muito interessante de Vozes e Vultos é que a história engrena em questões bíblicas e o espiritismo para explicar sobre vida e morte, paraíso, purgatório e o inferno. Além disso, o filme questiona sobre o bem e o mal e como esses sentimentos são vistos pelo divino a partir da perspectiva do homem, que tem o livre arbítrio em fazer o bem ao próximo, assim como destilar o veneno e o mal. Tudo o que o ser humano faz, o universo retorna para ele, e é exatamente isso que o filme tenta trabalhar de forma subjetiva, misturando mistério, terror e espiritismo.
Assim, o filme faz questão de deixar claro que Catherine é uma mulher de fé e acredita em questões espíritas; já George nutre um lado bem cético e se sente desconfortável quando o chefe e amigo da universidade se denomina espírita convicto, e rotula a esposa de louca quando ela passa perceber as coisas erradas que aquela casa carrega.
À medida que o filme entrega informações sobre o passado da casa, as pessoas envolvidas, junto com os significados bíblicos que os personagens vão relatando e vendo, o público começa a entender, a pequenos passos, o que realmente se passa no casamento de George e Catherine e como a casa influencia para as coisas irem piorando cada vez mais. Inclusive, há uma ótima cena de sessão espírita realizado na casa que é muito interessante, tornando-se um dos momentos favoritos do filme.

Assim, Vozes e Vultos sai temporariamente desta atmosfera subjetiva e engrena no suspense, que faz o espectador entender cada vez mais os protagonistas e como eles foram parar naquela situação crítica. Amanda Seyfried entrega uma Catherine que tem problemas com a autoestima e o corpo, o que a faz ter sérios problemas com a alimentação, e tudo isso acaba pesando na sua mente e refletindo em quem ela é. Mas à medida que ela vai entendendo a sua fé, o que se passa na casa e recebe ajuda de terceiros, ela começa a se autodescobrir e, principalmente, a enxergar o que se passa no seu próprio casamento.
James Norton interpreta George, um dos personagens mais cheio de camadas e mistérios. O filme entrega uma narrativa não linear que a faz a gente questionar a razão do personagem estar fugindo em um momento. À medida que o filme vai ligando os pontos entre mistério, espiritismo e suspense, as revelações são fortes e impactantes, intensificando um lado obscuro de George que, no fundo, ele sempre teve. O personagem aparenta ser uma pessoa quando a verdade desmistifica o seu caráter e entrega camadas profundas, o que faz a gente questionar: o horror é, de fato, os espíritos que estão na casa, quem ocupa a casa ou um acaba influenciando o outro?
Os demais personagens coadjuvantes são bons e tem seus momentos cruciais que ajudam a explicar o que se passa na casa, com destaque para Justine (Rhea Seehorn), amiga de Catherine, e Floyd (F. Murray Abraham), chefe de George.
Considerações finais

Vozes e Vultos faz o espectador acreditar que a trama está indo para um caminho com salvação, mas faz uma curva enorme e entrega um desfecho inesperado, assustador e que pode ser revoltante para alguns. O final é aberto e subjetivo, trazendo um conceito bíblico para a compreensão dos desfechos dos personagens, enquanto alguns pontos ficam soltos para que o próprio espectador interpreta o final que pode ganhar mais de uma perspectiva.
Vozes e Vultos é um suspense que ganha pitadas de horror não só no quesito jump scares que, por sinal, são bons, mas no mistério que ronda os personagens e a formação de caráter de cada um, o que molda as suas ações e trazem consequências impactantes, explicados a partir do conceito espiritual e bíblico. Talvez todos gostem da história, mas nem todos vão apreciar o final subjetivo.
Ficha Técnica
Vozes e Vultos
Adaptação da obra de Elizabeth Brundage
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Elenco: Amanda Seyfried, James Norton, Natalia Dyer, Rhea Seehorn, F. Murray Abraham, Ana Sophia Heger, Karen Allen, James Urbaniak, Michael O’Keefe, Alex Neustaedter, Jack Gore, Michael Abbott Jr.
Duração: 2h01min
Nota: 7,5