A plataforma de streaming mais querida pelos telespectadores, a Netflix, lançou um filme de terror com muitas características para ser um sucesso: boa premissa, ótimos atores e um renomado diretor. Mesmo com tudo a seu favor, Velvet Buzzsaw errou, e o Pipoca Na Madrugada vai te explicar o porquê.
Na trama, Jake Gyllenhaal vive Morf, um crítico de arte reconhecido e carregado de um estereótipo: gay, exigente, divertido e metódico, o personagem tem tudo para ser o destaque, mas não é.

O filme tenta, durante toda sua duração, demonstrar que o personagem principal não existe nos sentimentos perdidos, supondo que Morf ocupa esse cargo, mas depois notamos que não, principalmente quando descobrimos que o nome do filme (Velvet Buzzsaw) é o nome artístico de Rhodora Haze (Rene Russo), uma ex-punk que parou de usar este nome após largar a produção artística e se transformar em uma grande empresária do mundo da arte.
O mosaico de personagens ocupa o cargo do personagem principal, mas até notarmos e considerarmos esse cenário torna-se um processo demorado. Por enquanto Morf aparenta ser o personagem perfeito para esta vaga. O antagonista, contudo, é notado logo no começo, ele que causaria o medo e o estopim da trama: a arte, sendo ela moderna, contemporânea, assombrada ou assassina.

Por mais que seu nome esteja no título da produção, Rhodora não é a principal, pois o desenrolar da trama começa com outra personagem, nos confundindo novamente. Josephina (Zawe Ashton) é assistente da empresária e, ao voltar para seu apartamento, se depara com um vizinho morto no corredor. No apartamento dele há uma coleção secreta de pinturas que se tornam um sucesso instantâneo…e começa a matar os personagens.
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Com uma premissa promissora – aproximar a arte do terror num contexto crítico ao capitalismo e aos investimentos milionários com a arte, o ótimo elenco composto por Gyllenhaal, John Malkovic e Russo e dirigido pelo experiente Dan Gilroy (O Abutre), Velvet Buzzsaw tinha tudo para ser um sucesso, mas não é.

O filme foca no mercado artístico com críticos exigentes, investidores milionários, assessores artísticos, museus e exposições extravagantes, sempre demonstrando o quanto o capitalismo lucra com a arte, relevando que o meio artístico colide diretamente com o mercado consumidor.
O primeiro erro é a ótima crítica que o filme traz no início, mas que não se encaixa com a proposta de terror. O cenário, a palheta de cores e os personagens ressaltam tanto o rumo sombrio e capitalizado da arte contemporânea quanto os artistas, empresários e críticos perdidos entre o significado, dinheiro e a fama que a arte pode proporcionar.
Após essa sinopse, parece que, de uma hora para outra, há uma tentativa de aproximar o terror da premissa sem contextualização ou história prévia para isso. O mistério ajuda a manter o enredo interessante e prende a atenção ao revelar um personagem novo, intrigante e assustador: o artista recém-falecido com uma arte provocante e de sucesso, mas que trará grandes consequências aos personagens e ao enredo.

Já que o contexto anterior de crítica passa despercebido e é esquecido diante das mortes (mais criativas do que assustadoras) causadas pela arte, o mistério ganha força, presença e instiga a trama, afinal quem é esse artista que produziu quadros e desenhos tão perigosos, misteriosos e feitos até por substâncias suspeitas? Por que a arte tem esse poder ou essa maldição perante aos personagens?
O segundo erro – mesmo após uma tentativa forçada de mudar o gênero – não foi desenvolver e solucionar a razão da maldição. Ficamos esperando as respostas que os personagens tentam encontrar, em meio ao desespero das mortes e o desaparecimento de várias pessoas. O terror também não é muito explorado, apesar do esforço de entrar nesse gênero. É decepcionante ficar esperando a história ganhar significado, razão ou motivo e, quando começa a aparecer alguma resposta para o mistério envolto, o filme acaba sem nenhuma conclusão e com mortes previsíveis e sem grandes sustos.
O terceiro erro é ter ótimos atores, mas dar a eles personagens planos, estereotipados e com relações superficiais e de interesse. Tudo é jogado na trama sem motivo, fora relevar as características dos personagens que ficam deslocadas no enredo, sem nenhuma ligação com o terror ou o mistério.
Considerações finais
Velvet Buzzsaw tem ótima premissa, mas não articula bem para o enredo fluir de maneira autêntica e natural. Gilroy tenta criar um filme incomum, a arte como terror, mas aponta vertentes demais, incluindo uma crítica no começo, um mistério mal resolvido e personagens simples demais, perdendo completamente a sua coerência.
Ficha Técnica
Velvet Buzzsaw
Direção: Dan Gilroy
Elenco: Jake Gyllenhaal, Billy Magnussen, Toni Collette, John Gavin Malkovich, Natalia Dyer, Rene Russo, Zawe Ashton e Daveed Diggs.
Duração: 1h52min
Nota: 5,0