O Homem Invisível (The Invisible Man) já pode ser considerado um dos melhores thrillers psicológicos do ano, seja pela boa adaptação da obra original, pela excelente atuação da protagonista, ou pelo clima de suspense do começo ao fim. Todos esses elementos complementam e fazem a trama caminhar, revelando que a verdadeira monstruosidade da história é o relacionamento abusivo e o excesso de poder que é capaz de transformar a mente de uma pessoa. Um filme que traz assuntos atuais e relevantes em meio a uma ótima atmosfera de horror, agonia e paranoia.
Com base no clássico livro homônimo de H.G Wells e dirigido por Leigh Whannell, O Homem Invisível acompanha a vida de Cecilia Kass que, um dia, prepara uma fuga sorrateira para sair da vida e das mãos do namorado sociopata e controlador Adrian (Oliver Jackson-Cohen). Com a ajuda da irmã, Cecilia finalmente se vê livre, mas os traumas ainda lhe perseguem. Após a misteriosa morte de Adrian, ela descobre que ele lhe deixou uma herança milionária, mas com algumas condições bastante questionadoras. À medida que uma série de coincidências estranhas começam a acontecer e se tornam cada vez mais perigosas, ameaçando a vida daqueles que ela ama, a sanidade de Cecília começa a se desfazer, enquanto ela tenta provar que está sendo perseguida por alguém que ninguém pode ver.

O primeiro grande mérito de O Homem Invisível vai para o roteiro que aborda um assunto importante e relevante nos dias de hoje: o relacionamento abusivo, grande estopim que faz a trama caminhar, originando a grande atmosfera de horror do filme. Mais do que o monstro em si, o que realmente assusta e cria certa agonia no espectador é acompanhar o controle forçado da protagonista, fazendo os demais personagens duvidarem da sanidade de Cecilia que, infelizmente, fica submissa ao que ninguém pode ver, até que se comprove o contrário. Até lá, a figura feminina se torna inferior, minimizada e rotulada à loucura, um caminho fácil a solucionar tal questão, uma vez que Adrian está morto. No entanto, o mais interessante é que o público duvida, ao mesmo tempo que está ciente de que há algo de errado ali, até o filme confirmar ou não. Enquanto isso, a protagonista sofre consequências à medida que vai mergulhando em uma investigação perigosa e enfrentando um trauma que lhe segue há anos.
Um ponto interessante é que o espectador toma conhecimento da relação abusiva de Cecilia e Adrian sem que o filme tenha a necessidade de trazer algum flashback do passado do casal, se confirmando não só pelo trauma explícito da personagem, como também pelo que ela passa a viver no decorrer da história.

O segundo mérito do longa vai para a excelente interpretação de Elisabeth Moss, que vem dando um show de atuação desde The Handmaid’s Tale. A atriz encarna uma Cecilia que coloca um ponto final no relacionamento de forma radical e desesperada, uma vez que a única saída para o relacionamento agressivo e controlador é a fuga. E mesmo se passando semanas após o ocorrido, a personagem ainda exala medo diante dos traumas vividos, como por exemplo, ficar sem sair de casa por semanas, não conseguir andar até a calçada sozinha, ficar reclusa a qualquer movimento estranho ao redor, entre outras coisas.
Assim que ela tenta seguir com a vida e dá os primeiros passos para reiniciar a sua rotina independente – como arrumar um emprego, ficar sozinha em casa, andar na rua – Cecilia nota movimentos e situações estranhas em sua volta que a faz perceber que há algo ou, neste caso, alguém lhe observando. São estas cenas que tornam o filme forte e assustador, enfatizando a atuação da atriz. É pela expressão facial e o olhar que a protagonista tenta provar a todo custo que há alguém ali ao seu lado, mesmo que não tenha nada a sua frente. O auge do momento são as cenas de contato físico, em que Cecilia luta e se debate com o nada, ao mesmo tempo que o público tem a noção de que há alguém ali. A maior agonia é quando a atmosfera de suspense se instala e caminha para a loucura, testando a sanidade de Cecilia e fazendo todos duvidarem da sua palavra.

Uma técnica que ajuda muito a criar a atmosfera do horror e o terror psicológico é o movimento das câmeras que, em vários momentos, se encontra em um canto da casa, justamente para criar a dúvida de que há alguém observando, ou a câmera faz um movimento panorâmico para mostrar que algo pode acontecer, sem saber como, quando e por onde virá.
O Homem Invisível ganha uma tensão que está sempre em evolução, ou seja, não há intervalo para cenas mais paradas ou, certas barrigadas, uma vez que o perigo manipula tudo e todos, sem que a gente saiba em que momento a ação vai acontecer. E é isso que torna o filme melhor e ainda entrega três reviravoltas que fazem o público ficar impactado e surpreso. Aliás, depois de assistir ao filme, é possível compreender que o trailer engana bem.

Além da excelente atuação de Moss, o filme conta com um ótimo elenco de apoio, como Oliver Jackson-Cohen, que interpreta um Adrian misterioso que faz o público ficar ansioso ao querer saber mais sobre ele, entender a sua mente, o poder em suas mãos, já que que ele é líder de uma grande empresa de óptica, ao mesmo tempo que o filme entrega o suficiente para saber quem ele é.

Aldis Hodge interpreta o policial James, amigo de Cecilia que tenta entender o que está passando e a ajuda a comprovar a existência ou não deste ser invisível. Storm Reid é Sydney, filha de James, que tem uma participação menor e com boas cenas. Harriet Dyer é a irmã de Cecília que a ajuda na fuga, ao mesmo tempo que tenta compreender o que aconteceu neste relacionamento. Michael Dorman interpreta Tom, a pessoa que comunica Cecilia sobre a herança deixada, um personagem que se deve prestar bastante atenção.
Considerações finais
O desfecho deste filme é a cereja do bolo e não poderia ser melhor. Mesmo baseado em um livro, O Homem Invisível se encaixa perfeitamente aos dias atuais com assuntos relevantes, como o relacionamento abusivo, sociopatia e o excesso de poder à mente humana, transformando esses elementos no grande monstro do filme. O terror psicológico e a atmosfera de paranoia são bem construídos, ganhando uma excelente atuação de Moss, que nada fica a desejar.
Se é o melhor thriller do ano, ainda não sei, mas já pode entrar na lista de favoritos.
Ficha Técnica
O Homem Invisível
Baseado na onra de H.G Wells
Direção: Leigh Whannell
Elenco: Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Aldis Hodge, Storm Reid, Harriet Dyer e Michael Dorman.
Duração: 2h04min
Nota: 8,9