Se tem um filme de terror mais esperado de 2023 é M3GAN, cujo hype deu início em sua estreia nos Estados Unidos, alcançando nota alta tanto dos críticos quanto do público. Já em exibição em terras brasileiras, posso dizer que a empolgação é real e as expectativas são atendidas.
O longa apresenta uma aparente boneca bonita, doce e inteligente, cujo olhar assustador julga, além de fazer outras coisas sinistras. É uma produção que desperta o lado cômico no timing perfeito, apresenta um horror diferente do que estamos acostumados e entrega críticas essenciais sobre o uso da tecnologia. Um filme deliciosamente intrigante para assistir.
Com direção de Gerard Johnstone, roteiro de Akela Cooper (Maligno) a partir de uma história original de James Wan (Invocação do Mal), M3GAN é um terror que acompanha a pequena Cady que, após perder os pais em um terrível acidente de carro, a garota vai morar com a sua tia Gemma, uma brilhante roboticista de uma empresa de brinquedos.
Ao ver sua vida mudar radicalmente com chegada da sobrinha, além de não saber como lidar e cuidar de uma criança, Gemma tenta se aproximar e fazer as coisas darem certo, mas sem muito sucesso. No trabalho, ela foca arduamente em criar um novo brinquedo que supere todas as expectativas, surpreenda, faça sucesso unânime no mercado e ultrapasse a concorrência. Com a presença de Cady, ela consegue desenvolver M3GAN, uma boneca realista com inteligência artificial capaz de ser a maior e melhor companheira de uma criança e aliada dos pais. No entanto, ao colocar o protótipo para ajudar a cuidar de Cady, a boneca cria uma conexão forte com a menina e passa a tomar decisões sinistras, além de apresentar erros graves no sistema.

M3GAN é um filme que dá certo justamente por entregar uma história cujo desenvolvimento foi levado a sério, ao mesmo tempo que trabalha com elementos e diálogos que tornam o conjunto da obra com menos seriedade. Se estiver esperando por um filme de terror com vários jump scares e momentos de alta tensão, coloque o freio nesta expectativa, pois a proposta não é esta.
Crítica – I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston
De fato, o horror existe, mas é implementado na crítica que se quer passar, juntamente com os poucos jump scares e a vibe sinistra da boneca. Isso se mistura à enorme atmosfera cômica que se cria, em que o espectador dá boas risadas com o estilo, a ironia e o sarcasmo da boneca que se mistura com o seu lado medonho e intrigante, resultando em cenas de tensão e medo. É o famoso ‘estou rindo, mas é de nervoso”.
A dinâmica de M3GAN e Cady é fofa, na qual uma inteligência artificial capta todos os sentimentos, expressões e ações da garota e trabalha para tornar a ambientação e o convívio melhores com conforto, apoio, conhecimentos educativos e aprendizados, seja na higiene pessoal, alimentação, nas horas recreativas e nos estudos.
Tal conexão se torna mais profunda quando a boneca consegue criar um laço afetivo maior ao trabalhar e discutir os sentimentos e a dor do luto que Cady está passando, tomando o lugar de Gemma que deveria ter tal responsabilidade. À medida que a narrativa desenvolve esta amizade entre boneca e garota, o longa apresenta o horror ao criticar o uso excessivo da tecnologia e como esses gadgets ultra inteligentes são capazes de substituir uma pessoa e interferir negativamente nas relações interpessoais.

E tal mensagem se desdobra nas cenas em que vemos Cady entrar em uma espiral obsessiva e dependente da boneca, enquanto M3GAN consegue manipular sua própria inteligência e tomar decisões sem o controle do seu usuário principal, deixando Gemma preocupada não só com a segurança da sobrinha, mas como tal protótipo ganha uma independência assustadora, o que a faz questionar se este tipo de brinquedo é o ideal para se colocar no mercado e na vida de outras crianças.
Enquanto a história desenha a mensagem, o espectador se depara com as duas facetas de M3GAN, em que ora é uma boneca dócil, gentil, educadora e boa companhia; ora se torna uma protetora obsessiva e machuca aqueles que ela considera nocivo à Cady. Mas tal conclusão é precipitada, pois a boneca não sabe distinguir o perigo de ensinamentos, broncas e discussões construtivas a fim de que garota cresça, aprenda e amadureça. Mesmo que Gemma cometa erros (mas percebe a tempo) na relação com Cady, tal comportamento e postura da tia são vistos pela boneca como uma grande ameaça, gerando o horror nas cenas em que M3GAN não pensa duas vezes em agir e reagir, seja com a vizinha, o garoto valentão da escola ou com a própria pessoa quem a criou.

O elenco tá muito bom e temos Allison Williams como uma Gemma inteligente e sagaz no trabalho, mas insegura no quesito maternidade, que chega de supetão em sua vida em meio ao luto e a tristeza remoídos. Violet McGraw é uma atriz que surpreendeu lá em A Mansão da Residência Hill e aqui ela apresenta uma Cady perdida em meio ao estranho, cuja perda dos pais a faz comprimir a dor e se encontrar na relação com a boneca, aumentando sua dependência e obsessão tecnológica quando, na verdade, a garota necessita de relações afetivas e humanas.
Já Amie Donald e Jenna Davis dão voz e movimento à M3GAN formidavelmente, seja no jeito robótico de andar, o olhar extremamente julgador e as atitudes medonhas, além do lado comicamente sinistro que dá o excelente tom à boneca. A cena da dancinha ficará na sua cabeça por muito tempo. Já é marca registrada do filme.
M3GAN vai voltar? – final explicado

A reta final entrega uma sequência eletrizante, medonha e cheia de tensão com o embate final entre boneca, tia e criança, resultando em um desfecho bastante satisfatório.
Como sabemos, M3GAN surgiu a partir de uma inteligência artificial em que, aos poucos, ela mesma conseguiu ter o autocontrole. Mesmo sendo derrotada pelas protagonistas, a boneca pode ter perdido o seu corpo, mas não a sua mente. De boba ela não tem nada e, prevendo que o pior poderia acontecer, M3GAN faz o backup de toda a sua inteligência artificial para Elsie, a ‘Alexa’ que Gemma usa em sua casa. Com isso, temos um bom gancho para um possível segundo filme que, por sinal, o desenvolvimento já está sendo trabalhado.
M3GAN é um suspense que mistura horror e comédia de forma equilibrada, discute sobre o excesso da tecnologia na rotina de uma pessoa e como tal uso pode interferir nas relações interpessoais a partir de uma boneca doce e sinistra que julga e pode atacar de acordo com suas conclusões sobre o que pode ser uma ameaça.
É um filme esquisito e divertido cujas combinações tanto dos elementos cômicos e de horror quanto dos diálogos afiados, sarcásticos e até bregas resultam em algo bom de assistir até mais de uma vez.
Ficha Técnica
M3GAN
Direção: Gerard Johnstone
Elenco: Allison Williams, Violet McGraw, Amie Donald, Jenna Davis, Brian Jordan Alvarez, Jen Van Epps, Ronny Chieng, Stephane Garneau-Monten, Lori Dungey, Amy Usherwood, Jack Cassidy, Kira Josephson e Millen Baird.
Duração: 1h42min
Nota: 3,9/5,0