Em 2013, Invocação do Mal trouxe um frescor moderno ao gênero terror com histórias reais e sobrenaturais investigadas pelo casal Ed e Lorraine Warren, como os casos da ‘Família Perron’ e o ‘Poltergeist de Enfield’, dando início ao universo próprio de horror em que o grande sucesso se estendeu com produções de spin-offs ao longo dos anos, como a trilogia Annabelle, A Freira e A Maldição da Chorona.
Com o saldo positivo de seus dois primeiros filmes, a história de origem ganha um terceiro capítulo que, finalmente, chega aos cinemas após um bom tempo de espera. Invocação do Mal: A Ordem do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It) traz uma proposta diferente dos filmes anteriores, explora temáticas sobrenaturais já vistas em outras produções, ganha referências interessantes, mas o seu toque especial se encontra na investigação feita pelo casal paranormal mais famoso do cinema. Será que esta nova história supera os longas anteriores? Fecha a trilogia com chave de ouro?
Com direção de Michael Chaves (A Maldição da Chorona) e produção de James Wan e Peter Safran, Invocação do Mal: A Ordem do Demônio retrata a história real de Arne Cheyenne Johnson, um rapaz acusado de assassinato que, durante o julgamento – conhecido como o caso de “O Diabo Me Fez Fazer” – a defesa buscou provar a sua inocência com base na alegação de possessão demoníaca e negação de identidade pessoal. Resumindo, o rapaz cometeu homicídio por estar possuído por um demônio.

A princípio, Invocação do Mal: A Ordem do Demônio faz acreditar que pode seguir passos semelhantes da trama de O Exorcismo de Emily Rose (2005), uma vez que a história é desenvolvida à medida que um julgamento acontece. É até possível o espectador lembrar deste filme algumas vezes, o que é normal, mas a proposta deste roteiro é mostrar os bastidores deste mal que faz não só Arne cometer um ato criminoso, como também ameaça a sua vida e de quem tenta ir contra este mal.
Se os dois primeiros filmes envolvem uma casa assombrada por um mal que acomete as vítimas que passam por lá, aqui temos como tema central uma maldição a ser quebrada que se ramifica de forma macabra entre possessão e bruxaria, temáticas essenciais desta história. Outro ponto interessante é que, enquanto o mal já está enraizado em determinado local, neste filme, tal maldição é manual, ou seja, é feita por algo ou alguém, seja a qualquer distância que for, o que torna a investigação expansiva – ganha focos em pontos geograficamente diferentes – e mais desafiadora para o casal Warren, que enxerga e interpreta a situação pelas visões da Lorraine e ganha forma à medida que cada peça se encaixa neste quebra-cabeça de horror. Mas até isso acontecer, todos são provocados e testados constantemente, seja pela fé ou pelo amor.
Invocação do Mal: A Ordem do Demônio acerta em cheio com uma ótima sequência inicial de possessão demoníaca do garoto David Glatzel, que faz o público entender como tudo começou e a razão para Arne cometer tal crime hediondo que marcou os anos 80. Inclusive, esta cena ganha uma referência clássica do filme O Exorcista (1973), que é impossível você não reconhecer.

A partir do momento que o crime é cometido, o filme não perde tempo e se desenvolve em cima desta investigação sobre possessão provocada por uma bruxaria, o que faz o casal Warren desmistificar todo o significado que está por trás desta maldição, a razão para ser feita, quem a faz e o objetivo de levá-la até as últimas consequências. Existe uma explicação e o roteiro entrega isso de forma coerente à sua proposta.
Cinco motivos para assistir Invocação do Mal 2
Em termos de narrativa, desenvolvimento e personagens, o filme acerta e entrega uma trama de terror satisfatória. No entanto, Invocação do Mal 3 ganha uma direção muito mais fantasiosa, deixando de lado a sutilidade de se criar uma atmosfera de suspense que vai gerar paranoia nos personagens, dúvida e receio no espectador, que anseia pela sensação do inesperado, do medo que pode vir acontecer ou não. O filme deixa às claras cada passo, cada manobra, cada susto que, na minha opinião, não amedronta como os filmes anteriores.
As possessões, por si só, são sombrias e causam uma boa impressão no filme, no entanto, os efeitos em volta destas cenas são exageradas e diminuem a atmosfera de medo que se almeja na trama. Você gosta do que vê, mas não sente o impacto que gostaria de sentir.

A temática bruxaria já tem um tom fantasioso por si só, que poderia ter sido reduzido no filme se ganhasse um clima maior de dúvida e aflição a partir das investigações, das visões da Lorraine – que, por sinal, são boas e instigantes – e, é claro, do ótimo efeito colateral deste mal que faz um ficar contra o outro em momentos de confronto, o que é uma ideia genial, mas que teria ficado melhor se toda a trama ganhasse toques de imprevisibilidade.
Outro ponto que fica a desejar no filme são os efeitos sonoros que, assim como os efeitos visuais, são exagerados em cenas que não necessitam de um barulho. O filme se esforça para entregar alguns jumps scares, mas acaba tornando alguns momentos um pouco forçados – a batida dos pés no chão, o ranger forte da porta – mas que é possível relevar.
Em compensação, se tem um ponto que continua formidável no universo de Invocação do Mal é o casal Warren. Em Invocação do Mal: A Ordem do Demônio, Vera Farmiga e Patrick Wilson entregam uma química ainda mais envolvente, evidenciando uma história de amor que fortalece ambos e os ajudam a se proteger durante a investigação. O roteiro faz questão de relembrar do primeiro encontro do casal, do amor construído ao longo de 30 anos de união e como tal sentimento servirá de escudo para um desafio na qual jamais imaginariam enfrentar, se comparado aos demais casos do currículo do casal.
O filme equilibra bem os destaques dos personagens e cada um tem os seus grandes momentos dentro da trama, seja as visões da Lorraine, a forma como ela conduz a investigação, vive a situação já ocorrida e desvenda cada pista, como vemos na sequência que se passa na floresta e no penhasco que, inclusive, o próprio trailer mostra; do outro lado há a vulnerabilidade de Ed diante de sua saúde debilitada, em que ele abafa tal fragilidade colocando sua coragem e o amor por Lorraine em primeiro lugar; as interpretações rápidas sobre a maldição e a decisões impulsivas que funcionam.
O casal Warren não só fica diante da maldição para quebrá-la, como também fica à mercê dela, colocando a prova o amor que um tem ao outro, o que aparenta ser bobo e clichê, mas torna-se fundamental para o desfecho desta história.

Os demais personagens são bons, com destaque para Julian Hilliard como David Glatzel que protagoniza a ótima cena de exorcismo no início; o ator Ruairi O’Connor entrega um Arne perturbado na medida certa e uma boa atuação na cena final de possessão.
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Já o ator John Noble e a atriz Eugenie Bondurant que interpretam o padre aposentado e a madame de preto são personagens instigantes no filme que aguçam a curiosidade do espectador até certo ponto, no entanto, seus plots acabam se tornando previsíveis, o que pode fazer o público desvendar a charada antes do previsto.
Considerações finais
Invocação do Mal: A Ordem do Demônio entrega uma história real instigante de assassinato em que a trama desenvolve os bastidores de uma investigação com possessão, exorcismo e bruxaria como temáticas centrais, trazendo de volta o casal de protagonistas que entrega uma cumplicidade mais forte. No entanto, o filme erra a mão ao entregar um tom fantasioso e efeitos exagerados, deixando de lado a atmosfera de dúvida e suspense e inclinando a história para previsibilidade em alguns pontos. É um filme bom, mas não é o melhor da trilogia Invocação do Mal.
Ficha Técnica
Invocação do Mal: A Ordem do Demônio
Direção: Michael Chaves
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Ruairi O’Connor, Julian Hilliard, Sarah Catherine Hook, John Noble, Eugenie Bondurant, Shannon Kook, Ronnie Gene Blevins, Keith Arthur Bolden, Steve Coulter, Vince Pisani, Ingrid Bisu, Andrea Andrade, Ashley LeConte Campbell e Sterling Jerins.
Duração: 1h52min
Nota: 7,0