No dia 22 de março estreou a série brasileira Coisa Mais Linda na Netflix. Com uma propaganda marcante impulsionada no Instagram semanas antes da estreia, divulgando uma cena intensa entre as personagens principais, a série ganhou repercussão por denunciar problemáticas dos meados anos 50 que ainda existem em nossa sociedade.
No final da década de 50, Maria Luiza Caroni Furtado (Maria Casadevall), burguesa da elite cafeeira paulista, viaja para o Rio de Janeiro para se encontrar com seu marido, Pedro, pois os dois sonhavam em abrir um restaurante na cidade carioca. Ao chegar lá, ela se depara com um apartamento pequeno e abandonado, um depósito sujo e bagunçado, e percebe que Pedro, além de não ter realizado o que tinham combinado, desapareceu com todo o dinheiro do casal, deixando Malu e o filho sozinhos.

Maria Luiza é a “clássica” mulher dos anos 50, dependente economicamente do marido e do pai, sem emprego ou objetivos pessoais, ficando a maior parte do tempo em casa, cuidando do filho. Logo, com toda a situação, Malu se apavora com o que as pessoas iam pensar e culpar sobre o acontecido.
Por mais que Pedro a tenha roubado, enganado, traído e abandonado, Malu sabia que seria julgada pela sociedade. Receosa com tudo que iriam dizer a seu respeito, com raiva do marido e sem dinheiro, ela resolve mudar e fazer tudo que queria fazer. Ao encontrar sua amiga Lígia (Fernanda Vasconcellos) e aceitar o convite para uma festa, Malu começa a conhecer várias pessoas, cantores, lugares do Rio de Janeiro e a “magia” de um novo gênero musical, em ascensão na época, a bossa nova. Assim, a personagem começa a batalhar por um sonho: abrir um clube de música carioca.

A série aborda a ascensão do gênero bossa nova, o próprio título foi inspirado na canção de João Gilberto e Tom Jobim “Coisa Mais Linda”. Por outro lado, retrata o machismo e suas problemáticas: salários mais baixos para mulheres, agressão, aborto, objetificação feminina e feminicídio.
Primeiras impressões de The Perfectionists
Mesmo sendo os anos 50, o empoderamento feminino é demarcado nas personagens que, não se conformando com a forma como são vistas e tratadas na sociedade, tomam coragem para seguir seus sonhos. Com muita dificuldade para receber credibilidade, Malu encontra desafios para abrir o clube, justamente por ser mulher.

Adélia (Patrícia DeJesus) é negra, mãe e empregada de uma senhora branca e preconceituosa que reside no mesmo prédio em que Malu mora. As duas se conhecem quando Adélia ajuda e dá suporte para Maria Luiza após descobrir a traição de Pedro. Depois disso, a amizade ganha força e o clube Coisa Mais Linda se torna o sonho e objetivo das duas. Além disso, Adélia sofre o preconceito racial, sendo tratada como empregada pela maioria dos personagens que a conhecem de primeira vista.
Amiga de infância de Malu, Lígia é casada com um político e sonha, desde a adolescência, em ser cantora. Mas é proibida pela família e pelo marido de buscar este sonho, pois mulheres que cantam e frequentam boates, ou bares, são vistas como “vulgares” pela sociedade. Para manter o casamento e a reputação do marido, ela é forçada a viver uma vida de agressões e abusos.

Cunhada de Lígia, Thereza (Mel Lisboa) conhece Malu e é quem incentiva a amiga a buscar os seus sonhos. Com uma vida diferente da geralmente vista nos anos 50, ela trabalha em uma revista feminina, escreve sobre feminismo (quando não é reprimida pelo seu editor) e tem um relacionamento aberto com o marido, além de uma vida sexual ativa, tanto com homens quanto com mulheres.
As quatro personagens moldam os arcos da história e, em cada parte, podemos notar que o machismo sempre as impedem de serem tratadas com respeito e/ou crédito, além disso, são sempre notadas (ou julgadas) pela aparência física, pela forma que falam e/ou agem. São criticadas pela sociedade apenas por buscarem e desejarem “coisas que não são de mulher” como um emprego (cantora), um negócio próprio (clube de música) ou uma vida de liberdade e escolhas (relacionamento aberto). Coisa Mais Linda reforça o que a filósofa e intelectual Simone de Beauvoir alertou em seus estudos sobre gênero “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Nos anos 50, o machismo e os padrões femininos de gênero reforçaram condutas para que as mulheres seguissem, legitimaram abusos e agressões domiciliares, além de terem naturalizado julgamentos e comentários que denegriam a imagem da mulher, reduzindo a um corpo ou rosto. Logo, ao nascer mulher, você aprende a se “tornar” uma mulher.
Por mais que o ano seja 2019, retratar essa época, a predominância do machismo, a necessidade de se empoderar e a coragem necessária para viver seus sonhos, sendo mulher é, além de denunciar problemáticas sociais dos anos 50, reforçar a importância da luta do feminismo e a existência de um modelo de patriarcado que moldou os resquícios do machismo que vivemos até hoje.
Coisa Mais Linda é uma denúncia social em forma de série, é criticar o ano de 1959 e também 2019. É dizer para nós que, o feminicídio, os abusos e as agressões, existem até hoje e, para isso, é preciso refletir, questionar, conhecer o empoderamento feminino e prezar a sonoridade para que, assim, não seja preciso se tornar uma mulher, apenas, ser uma mulher.
Ficha Técnica
Coisa Mais Linda
Criação: Giuliano Cedroni e Heather Roth, com colaboração de texto de Léo Moreira, Luna Grimberg e Patricia Corso.
Elenco: Maria Casadevall, Patrícia Dejesus, Fernanda Vasconcellos, Mel Lisboa, Leandro, Ícaro Silva, Alexandre Cioletti, Gustavo Vaz, Gustavo Machado.
Duração: 1ª temporada (sete episódios de 45 min apróx.)
Nota: 9,0