E se você começasse a receber cartas maliciosas e repleta de xingamentos ao ponto de virar um caso de polícia? O que você faria e como reagiria? Pequenas Cartas Obscenas (Wicked Little Letters) é uma comédia de mistério e investigação que mistura acidez e diversão em meio a uma mensagem sobre uma sociedade hipócrita e conservadora, especialmente com a mulher.
E por incrível que pareça, é baseada em uma história real que escandalizou uma pequena cidade inglesa nos anos 1920. Este é o tipo de filme afiado e sombriamente hilário que prende a atenção e mexe com os seus sentimentos.
Com direção de Thea Sharrock, Pequenas Cartas Obscenas se passa na cidade litorânea inglesa Littlehampton, nos anos 1920. A trama acompanha duas mulheres literalmente vizinhas de porta, que até compartilham o mesmo banheiro, um costume inusitado da época.
De um lado, conhecemos Edith Swan, uma mulher religiosa, solteira e que vive com os pais idosos. Do outro lado, conhecemos Rose Gooding, mãe solteira e irlandesa que migrou para a cidade após a guerra, e vive com a filha Nancy e seu novo amor e parceiro Bill. Rose é extremamente desbocada, não leva desaforo para casa e desfruta da sua liberdade de ir e vir à cidade, um costume e personalidade que contradiz fortemente com o conservadorismo desta sociedade.
Um dia, Edith passa a receber cartas extremamente obscenas, repletas de palavrões e cheias de ódio. À medida que os envelopes não param de chegar, a família de Edith acredita que Rose seja a autora das cartas, uma vez que o vocabulário pesado da vizinha seja conhecido por todos, além do desentendimento que teve com o pai de Edith, levando ao interrompimento brusco da amizade entre as duas, que estava florescendo positivamente.

A trollagem, seguida de suspeitas não conclusivas, toma proporções maiores, tornando-se um caso de polícia. Um julgamento se inicia, levando as cartas a um alvoroço nacional, que intriga as pessoas. No entanto, a policial Gladys Moss, uma aspirante a detetive e filha do renomado policial Moss, percebe que há algo de errado nesta história.
Mesmo sendo subestimada e menosprezada pelos colegas masculinos no trabalho, a policial Moss dá início a uma investigação para desvendar quem está por trás destas cartas, antes que a pessoa errada seja condenada injustamente. Para isso, Moss conta com a ajuda de um grupo de mulheres locais extremamente desconfiadas desde o primeiro momento. Agora é uma corrida contra o tempo para descobrir a verdade para inocentar Rose. E para isso, Moss e as demais mulheres terão que passar por cima do conservadorismo e machismo que as rodeiam.
Pequenas Cartas Obscenas entrega uma narrativa fluída, dinâmica e sem enrolações, uma vez que o caos das cartas se inicia logo na primeira cena, afim de que a história dê espaço ao desenvolvimento sobre os bastidores da relação de Edith e Rose, a fim de que possamos entender como esta amizade se diluiu e chegou a este ponto caótico que acompanhamos.
A comédia te envolve pelo texto ardiloso e a boa dose de acidez nos diálogos, nas personalidades das protagonistas e os demais personagens e, é claro, no vocabulário afiado que vai enriquecer sua lista de palavrões. Acredite, o filme não hesita em usar as mais variadas palavras de baixo calão e suas misturas, o que vai despertar genuínas risadas no espectador.

E por ser uma trama tão inusitada e original, é até difícil acreditar que se trata de uma história real. Mas é. Embora o filme condense a primeira leva de cartas em Littlehampton e o caso contra Rose, a trama se concentra entre os anos 1920-1921. Na vida real, a cidade foi atormentada pelas cartas difamatórias por mais de dois anos, terminando em 1923, após quatro julgamentos.
Outro ponto que prende o público são as protagonistas, cuja escolha foi ideal. Olivia Colman entrega uma Edith recatada e do lar. É extremamente religiosa, segue à risca as ordens do seu irredutível pai, enquanto a mãe sofre ao ver sua filha sendo atacada constantemente. Mas Edith despertará dúvidas e raiva ao revelar um lado hipócrita, que prejudica os outros, até mesmo quem considera amiga. É a partir daí, que o mistério ganha camadas, assim com a personagem, que mostra um lado mais complexo e triste, em meio à frustração sobre a vida que leva.

Jesse Buckley entrega uma Rose espalhafatosa, jovial, astuta, agitada, falante e alegre. Ela desfruta da liberdade e de ser quem é, um ponto que a faz ser questionada e julgada pela sociedade como mulher e mãe – seja nas atitudes ou na forma de se vestir ou falar – por não seguir a moral e os bons costumes como uma mulher daquela época deveria seguir.
Outro personagem que chama a atenção e causará um mix de ranço e certa repulsa é Edward Swan (Timothy Spall), tanto pela rispidez e desrespeito em suas falas, quanto pela forma abusiva em como trata e reprime a filha Edith. E este é um ponto relevante à história.
Aliás, a principal mensagem de Pequenas Cartas Obscenas é a forma como a mulher é tratada, questionada e julgada por uma sociedade machista e moralista. Se é uma mãe cujo casamento acabou, ou livre, ou solteira, ou expressiva, ou determinada a seguir um caminho profissional, além de dona de casa, ela será menosprezada e reduzida.
E isto fica cada vez mais evidente quando a investigação começa, liderada pela policial Moss, que sofre desrespeito e desdém por ser uma mulher policial em um ambiente dominado por homens que, muitas vezes, são bem estúpidos e ignorantes ao ponto de descartar de que alguém do sexo feminino seja inteligente ou correta em sua profissão.

Outra crítica feita é a forma como escândalos são explorados pela mídia a fim de entreter o público, fomentar a fofoca e espalhar ainda mais os boatos, levando a conclusões precipitadas. Isso é alimentado pelas reclamações feitas por Edith, que se torna em uma celebridade temporária da região, apoiando-se no vitimismo.
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E o mistério vai se afunilando à medida que Moss se aproxima da verdade, com a ajuda de um grupo inusitado de mulheres, cuja audácia, esperteza e ferocidade lhe ajudam a encontrar o autor das cartas, assim como adquirir o respeito que merece pela sua autoridade. A atriz Anjana Vasan está excepcional neste papel e, ao lado das personagens coadjuvantes, a história ganha bons alívios cômicos em meio a acidez de cada uma.
Considerações finais

A reta final desenvolve todo o ápice desta investigação caótica, desde um julgamento inicial recheado de machismo, acusações espertas ou falhas, até o momento da verdade eclodir em uma sequência deliciosamente hilária em que o espectador finalmente entende a razão para estas cartas existirem e serem espalhadas, enquanto que a identidade do autor é revelada bem antes.
Pequenas Cartas Obscenas é uma comédia ácida que mistura mistério e investigação com um elenco formidável e um trio de protagonistas que mostra a difícil tarefa de ser uma mulher livre em meio a uma sociedade que a julga por ser quem é.
Pequenas Cartas Obscenas é um filme delicioso de assistir e que vai prender a sua atenção até o último minuto, além de enriquecer o seu vocabulário de palavrões.
Ficha Técnica
Pequenas Cartas Obscenas
Direção: Thea Sharrock
Elenco: Oliva Colman, Jessie Buckley, Anjana Vasan, Joanna Scanlan, Gemma Jones, Malachi Kirby, Lolly Adefope, Eileen Atkins, Timothy Spall, Hugh Skinner, Paul Chahidi, Jason Watkins e Alisha Weir.
Duração: 1h40min
Nota: 3,9/5,0