O Diabo de Cada Dia é a adaptação da obra O Mal Nosso de Cada Dia, do autor Ray Pollock. Uma adaptação angustiante e inquietante, no bom sentido da palavra, que destrincha a fé, violência e redenção em seus caminhos paralelos, mas que se conectam de alguma forma. Uma história que se ramifica em várias subtramas em que vemos a jornada de personagens que, num dado momento, se cruzam. Seria por coincidência? Destino? À medida que mergulhamos nesta trama cujo cenário é rústico e, aparentemente, calmo, vemos os justos e corruptos travando uma batalha. Mas qual o significado de justo nesta história? Só assistindo para saber.
Com direção de Antonio Campos, que co-escreveu o roteiro ao lado de Paulo Campos, O Diabo de Cada Dia apresenta uma narrativa não linear em que vamos acompanhar a jornada de vários personagens – com destaque para alguns – mas que, em um dado momento, os caminhos se cruzam. Algumas tramas ocorrem paralelamente na mesma época, enquanto outras em um espaço de tempo a frente, mas não muito.
A ideia desta crítica é não dar spoilers, mas é necessário pontuar algumas informações, descrições e comentários a respeito dos personagens para uma melhor compreensão.
Qual é a história?

A trama se inicia na cidade de Knockemstiff, Ohio, em que acompanhamos o personagem Willard Russell (Bill Skarsgard), que retorna após lutar na Segunda Guerra Mundial. A caminho de sua casa, ele conhece a garçonete Charlotte (Haley Bennett), que viria a se tornar a sua esposa em pouco tempo. Com um pequeno salto do tempo, eles já estão casados e com o pequeno filho, Arvin Russell, na qual acompanhamos o dia a dia desta pequena família. Até que, um dia, Charlotte inicia a luta contra uma doença fatal, deixando Willard se sucumbir a uma fé regada ao sacrifício, o que torna Willard desorientado, cego pela fé em salvar a esposa e agressivo com Arvin, o que o faz tomar certas atitudes que deixará traumas e marcas na vida do filho.
De garoto tímido, Arvin se torna um adolescente um pouco frio, marcado pelos traumas do passado e que sabe agir na hora certa. Ainda pequeno, ele vai morar com a avó Emma (Kristin Griffith), o tio Earskell (David Atkinson) e a irmã adotiva Lenora (Eliza Scanlen), que nos faz conhecer a segunda trama deste filme.
Em O Diabo de Cada Dia, conhecemos Helen (Mia Wasikowska), vizinha de Emma na qual seria a sua promessa para casar com Willard, se ele voltasse vivo da guerra. Mas a vida faz com que Helen conheça Roy (Harry Melling) e Theodore (Pokey LaFarge), irmãos conhecidos por pregar fortemente a palavra de Deus, e de um jeito bem peculiar. Helen e Roy se casam e tem a filha Lenora. Mas Roy acaba perdendo a sua fé, o que o faz ficar ainda mais estranho, uma vez que o fanatismo ainda está dentro dele. Para recuperar a imagem de pregador, ele comete um ato horrível em nome deste fanatismo religioso, o que o faz sumir da cidade e destruir sua família, deixando Lenora aos cuidados da família Russell.
Em outro tempo, mas na mesma época, conhecemos a história do casal Sandy (Riley Keough) e Carl (Jason Clarke), assassinos em série cujo modus operandi é bem peculiar e grotesco: eles são caroneiros e seus passageiros são suas vítimas. Além disso, Carl prostitui a Sandy e ainda fotografa suas vítimas mortas ao lado da esposa seminua.
Sandy é irmã de Lee Bodecker (Sebastian Stan), xerife corrupto que, no momento, está se candidatando às eleições da cidade. E agora, mais do que nunca, ele precisa conter os atos da irmã e do cunhado, para não manchar a sua imagem e reputação de ‘homem da lei’.
Desenvolvimento
Assim que o filme introduz as tramas principais, o público acompanha todo o desenrolar que ganha um ritmo um pouco lento, mas não cansativo, uma vez que as cenas são instigantes, criando uma atmosfera sombria e uma expectativa macabra sobre quais serão as próximas ações dos personagens.
Tal linha que vai conectando os personagens, ajuda o telespectador a entender como a fé, violência e redenção caminham juntas. De um lado a gente tem um marido/pai que se sucumbe a fé e ao sacrifício para salvar a esposa, mesmo que isso deixe feridas no filho; temos um casal que enxerga Deus em suas vítimas, como forma de prazer e sobrevivência; temos uma menina, ‘abandonada’ pelos pais e que sofre bullying na escola, mas que a fé a faz perdoar os que a ferem; e temos um garoto que questiona a fé e a esquece, justamente por ter deixado feridas abertas.
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À medida que vamos entendendo o significado da fé no filme, juntamente com as ações dos personagens, compreendemos melhor a forma como o caminho de todos se cruzam e o que leva a cada um a ter o seu ato final. Coincidência? Destino? Justiça tardia? O famoso carma? Quando vocês assistirem ao filme, vão entender melhor o que estou querendo dizer, já que não quero dar spoilers.
O Diabo de Cada Dia ganha um cenário rústico dos anos 60, de uma cidade cujas casas são afastadas, a população é pequena, a vizinhança aparentemente se conhece, e a ações, sejam boas ou ruins, não ficam encobertas por muito tempo.
Personagens

Por mais que o filme apresente vários personagens, o enredo consegue posicionar e destacar muito bem tanto o protagonista quanto os principais coadjuvantes.
Tom Holland está fenomenal no filme e é muito bom ver o ator fora da zona de conforto em um papel mais rústico, brutal e angustiante. Tom interpreta um Arvin carregado de feridas abertas de um passado triste e conturbado, cujas lembranças do pai se divide em aprendizado e amarguras. Antes visto como um garoto tímido e sem atitude, Arvin se torna mais obscuro, questiona e perde a fé, mas ainda há um lado amoroso e protetor com sua família, especialmente com a irmã Lenora. Mas quando feridas são reabertas e novas tragédias acontecem, Arvin desperta aquele lado sombrio, igual a de seu pai, o que o faz ter atitudes questionáveis aos nossos olhos com relação a famosa ‘justiça feita pelas mãos’, destino ou carma, no sentido em que vemos as ações dos homens e suas consequências no tempo.
Outro grande destaque neste filme é Robert Pattinson que, novamente, arrasa na atuação e não tem como dizer o contrário. Ele interpreta o recém-chegado pastor Preston Teagardin na Igreja da cidade. O que posso dizer é que Pattinson entrega um pastor profano, hipócrita, nojento, cujas ações sombrias e horrorosas são camufladas com sua sabedoria religiosa que cega os demais fiéis e pecadores. O ator faz um trabalho de voz incrível ao dar ao personagem um sotaque americano do interior bastante carregado. Nitidamente você nota que aquela não é a voz do ator, mas que está maravilhoso.
Não quero dizer exatamente quem é o pastor Preston, mas sua trama envolve o Arvin e a Lenora, que entrega um desfecho estrondoso. Aliás, a cena de Arvin com Preston é inquietante e reveladora, uma das melhores cenas e diálogos do filme, na minha opinião.
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Jason Clarke e Riley Keough também estão muito bons no papel dos assassinos em série, e é também uma trama inquietante de acompanhar. Junto a eles temos Sebastian Stan como o xerife, que também está muito bom no papel, protagoniza cenas cruciais, mas sua participação é menor, assim como a de Bill Skarsgard, que também tem uma participação menor, importante, crucial e com uma ótima atuação em O Diabo de Cada Dia.
Considerações finais
O Diabo de Cada Dia é um filme denso e reflexivo sobre fé, violência e redenção que caminham juntos e se destrincha pelas ações e caracterizações dos personagens cujas tramas se conectam em um dado momento, entregando plots interessantes, angustiantes e inquietantes, com atuações incríveis e fora da zona de conforto do elenco, o que é muito bom de ver. Vale a pena não só assistir ao filme, como também ler o livro.
Ficha Técnica
O Diabo de Cada Dia
Direção: Antonio Campos
Obra: O Mal Nosso de Cada Dia, de Ray Pollock
Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Eliza Scanlen, Bill Skarskard, Jason Clarke, Riley Keough, Sebastian Stan, Haley Bennett, Harry Melling, Mia Wasikowska, Pokey LaFarge, Kristin Griffith e David Atkinson.
Duração: 2h18min
Nota: 8,0