Entre idas e vindas turbulentas, 13 Reasons Why chega ao fim com um desfecho bom, conclusivo, melhor que a 3ª temporada, mas ainda assim, apresenta problemas na narrativa que acaba prejudicando o desenvolvimento dos personagens e a oportunidade de aproveitar episódios instigantes que poderiam ter elevado ainda mais o ritmo da série em seus episódios finais.
No geral, 13 Reasons Why continua sendo uma série que chamou a atenção na 1ª temporada com um conteúdo forte e impactante sobre suicídio, bullying, estupro, drogas, violência física e psicológica, assédio e depressão, entregando boas interpretações e uma narrativa que te prende com a essência do mistério com um desfecho perturbador e triste. Era para ter sido apenas uma minissérie, mas por ter ganhado mais três temporadas, sofreu com roteiros inchados, episódios prolongados o que levou a decisões erradas, fugindo da proposta feita lá no início.
Crítica da 3ª temporada de 13 Reasons Why
Crítica da 2ª temporada da série
A temporada final seguiu a passos tortos, errando e acertando, se salvando em alguns momentos e entregando o tão esperado ponto final nesta jornada difícil da adolescência na escola.
******CONTÉM SPOILERS******

Pelo fato da série ter desandado do seu objetivo na metade da 2ª temporada em diante, o público imaginou como e qual seria desfecho desta história, incluindo o novo tema que seria abordado nestes 10 episódios finais que, por sinal, foram bem longos e cansativos, ainda que tenham sido reduzidos (antes eram 13 episódios).
Quem assistiu a 3ª temporada, lembra que Zach, Alex e Jessica foram os grandes culpados pela morte de Bryce Walker e todo grupo se reuniu para guardar este segredo e colocar esta culpa a mais em Monty, afinal, ele já havia sido preso pela violência cometida com o Tyler. O grande problema é que o rapaz foi morto na cadeia horas depois, sendo intitulado de pedófilo, distorcendo os fatos o que, infelizmente, o levou a um destino trágico. Assim, a 4ª temporada tem como ponta pé a investigação sobre a morte de Monty e se ele, de fato, foi mesmo o culpado ou não, e esse mistério é guiado pelo personagem Winston (álibi e crush de Monty) e os demais atletas da Liberty High.
Junto a isso, a série desenvolve o sentimento de culpa e peso na consciência nos personagens, especialmente no protagonista Clay que, ao longo da temporada, sofre gravemente com ataques de pânico e ansiedade extrema, o que gera alucinações e atitudes inesperadas, o que faz o público ter uma visão distorcida e negativa do garoto.
Crítica da 1ª temproada da série
A temporada final de 13 Reasons Why contém 10 episódios de 1 hora, sendo o último episódio com 1h40min de duração, um certo exagero, afinal, ao avaliar o conjunto, era possível ter apresentado episódios de 40 minutos, mais enxutos, com cenas que poderiam ter sido retiradas e subtramas que poderiam ter sido mais sucintas. Além disso, a temporada entrega uma narrativa não-linear em que a trama entrega a primeira cena de um funeral, concretizando que mais um personagem irá morrer, retornando seis meses antes para nos contar o que decorreu para que tal tragédia acontecesse.

Mais uma vez, 13 Reasons Why tinha a faca e o queijo na mão e chegou até entregar pontos bons, mas ainda persistiu em decisões erradas e uma narrativa que não soube aproveitar o que havia de melhor a ser desenvolvido. Para começar, um ponto que me incomodou bastante foram os ganchos deixados ao final de cada episódio e mal resolvidos. A série simplesmente entrega uma cena chocante, instiga o telespectador, mas ao final nos dá uma resolução fácil e preguiçosa. Não tem como ficar satisfeito com isso. De exemplo, temos o momento em que o Clay aparece cheio de sangue na roupa e nas mãos durante a festa na escola, após descobrir quem o ameaçava pelo telefone. Logo depois, tanto ele quando o ameaçador levam apenas suspensões e logo são recompensados; o ataque sofrido no acampamento são só explicados ao final da temporada, mas até lá, o público acredita que foi só um episódio mal aproveitado; e o acidente de carro, que faz você acreditar que esteja ligado com a cena do funeral, no entanto, não passa de um susto com uma resolução sem graça. Entendem o que eu quero dizer?
Mas, o mais complicado é que 13 Reasons Why entrega quase todas as explicações ao final da temporada, fazendo o telespectador acreditar até o último minuto que muita coisa está sendo mal explicada, mal explorada, mal desenvolvida, o que frustra a maior parte do tempo. Não culpo os personagens e nem os temas abordados, mas sim as decisões erradas em uma narrativa mal construída e que sofre ainda mais com o peso negativo das temporadas anteriores (2ª e 3ª temporadas).
Por conta disso, a série perde a chance de explorar episódios que tinham tudo para serem excepcionais, como o episódio do acampamento e o episódio da simulação do atirador na escola. São episódios que abordam temas tanto sobrenaturais quanto reais, mas que poderiam ter sido aproveitados para desenvolver do jeito certo o lado psicológico atual dos personagens, objetivo principal desta temporada, além começar a expor os segredos dos alunos e deixar as verdades virem à tona. Entendem que é apenas uma questão de construção da narrativa para a história ficar melhor?
O que aconteceu com o Clay?

Desde a 1ª temporada, Clay é aquele personagem que serviu como fio condutor da narrativa e a ligação entre os demais personagens para desenvolver toda a trama e tentar trazer resoluções plausíveis em meio a tantos momentos infelizes. Era de se esperar que o protagonista fosse sofrer um colapso após tantas tragédias e tantos segredos guardados. A 4ª temporada veio para desenvolver o lado psicológico quebrado de Clay que, finalmente, ganha ajuda de um terapeuta para tentar entender o que está acontecendo com ele, e se o garoto irá colocar tudo para fora, incluindo a verdade sobre a morte de Bryce.
A verdade é que 13 Reasons Why faz a gente compreender que o Clay está sofrendo de depressão, ansiedade e ataques de pânico, mas até chegar a esta conclusão, o garoto passa por várias alucinações (desenhadas na faceta de Monty e Bryce) para sofrer com essa culpa, o que o leva a tomar atitudes radicais e errôneas, como pichar a escola, protestar na escola, colocar fogo em carro, assustar os amigos no acampamento, entre outras coisas. Todo o mistério estava em volta do Clay, autor de das cenas instigantes e misteriosas, mas isso só é descoberto lá no penúltimo episódio, Até lá, o personagem é pintado como irritante e extremamente babaca com todos, especialmente com Justin, que tenta ajudá-lo. Por outro lado, estava nítido que o garoto não estava bem e, nem assim, seus amigos enxergavam isso direito, mesmo sabendo de tudo o que estava acontecendo.
Para complicar ainda mais, o Clay e a Ani ainda resolvem manter mais segredos da turma, sendo que isso não compensa mais a esta altura do campeonato. Estão todos no mesmo barco, certo? Não tinha o porquê manter sigilo de novas informações. E é por causa disso que novas consequências são acometidas.
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A conclusão é que, no geral, é normal você se irritar profundamente com o Clay (eu me irritei várias vezes), especialmente com as alucinações – um recurso exagerado e cansativo – mas é claramente possível entender e compreender a razão dele ter agido desta forma: Clay está com problemas de ansiedade e depressão, o que exigia um tratamento o mais rápido possível, uma recuperação que demorou para vir, mas veio.
Quem morre no final?

Antes de falar dos demais personagens, preciso falar de Justin, o personagem mais injustiçado desta temporada de 13 Reasons Why. Infelizmente é ele quem morre no final – o funeral que vemos – e não queria que seu desfecho fosse este. Por conta das drogas, recaídas e por ter se relacionado com homens (prostituído), Justin é diagnosticado com Aids que, infelizmente, está evoluído e recebe tratamento tardio, o que faz desenvolver uma série de infecções e outros problemas que o leva a falecer.
Justin foi a prova viva de que pessoas podem mudar, dependendo do grau de erros que cometeu. Ele se tratou em uma clínica, ganhou uma nova família, voltou a estudar e jogar e até foi aceito na faculdade. Optou por terminar com a Jessica, não por não amá-la, mas por precisar focar em si a fim de melhorar e, para isso, relacionamento não era uma prioridade, o que é super cabível para ele.
O que mais incomoda é que não se pode ter felicidade em 13 Reasons Why. Parece que o sofrimento é uma regra na série. Em meio a tantos problemas, o público gostaria de ter visto momentos felizes para os personagens, e Justin seria o exemplo perfeito para dar a volta por cima, mas infelizmente ele não teve esta opção.
Quem evolui ou regride?

Os demais personagens também tiveram seus altos e baixos, além do lado psicológico ser colocado à prova com alucinações, provocações, medos e desafios. Jessica é a personagem que mais apresentou evolução na 3ª temporada ao lidar com tudo o que passou, a ser uma líder e representante feminina e feminista na escola, a criar uma independência forte. No entanto, a personagem sofre uma leve regressão ao não aceitar o término de namoro com Justin (ela podia ter entendido o lado dele) e ainda se relacionar com o Diego, um dos atletas da escola cuja masculinidade é bastante tóxica. Mas ainda assim, Jessica consegue dar a volta por cima, corrige e aprende com os erros.

Além de Clay, Zach também sofre com o peso na consciência pela morte de Bryce. Ele se entrega ao álcool e às drogas, não dá a mínima para os estudos, provoca e desafia quem tenta ajudá-lo, mas no final, ele dá início a sua recuperação. Demora a temporada toda? Demora, mas pelo menos ele consegue.
Alex sente grande dificuldade em aceitar que pode ser feliz e isso é colocado à prova quando ele tenta se relacionar com Winston, mas descobre a verdade sobre o rapaz, e se envolve com Charlie, que realmente tem sentimentos verdadeiros por ele.

Aliás, o arco do Winston acaba ficando um pouco jogado, uma vez que ele insiste em trazer justiça para o Monty, se junta com os atletas para descobrir a verdade, mas perde a força quando ele se envolve com o Alex e faz amizade com Tyler. A verdade é que o caso de Bryce é encerrado sem revelar a verdade, acobertando a mentira de todos. Winston tinha até um bom objetivo, mas não tinha força suficiente para executar o que queria, o que acaba perdendo um pouco o foco.

Tyler é o personagem que continua evoluindo nesta temporada, entende o significado de perdão e superação ao se envolver com a irmã de Monty, que compreende tudo o que o irmão fez e a razão para ele ter ido para a cadeia. Além disso, há o arco das armas, em que o Tyler é quase visto como “vilão”, mas a verdade é que ele estava apenas ajudando a polícia a capturar o traficante de armas da cidade.
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Já a Ani continua controladora, mas agora ela finalmente admite que é manipuladora e entende que não dá mais para ser assim, o que faz com que a personagem se torne mais suportável e, até mesmo, um pouco mais agradável nesta temporada.

Já o Tony ainda mostra frustrações com a deportação de sua família, mas consegue dá a volta por cima ao entrar no mundo da luta e receber uma chance de estudar em uma boa universidade. No entanto, eu queria ter visto um pouco mais da cumplicidade dele com o Clay nesta temporada. Gostaria que o Tony tivesse ajudado mais o Clay.

Mas o pior de todos, sem dúvida, são os atletas. Com o Diego como o personagem representante dos atletas da Liberty High, a série retrata mais uma vez a masculinidade tóxica e cegueira em continuar defendendo Bryce e Monty depois dos crimes cometidos. Mesmo que eles ainda considerem a amizade, será que em nenhum momento eles pararam para pensar nas coisas erradas que a dupla cometeu? O julgamento e a sentença de Bryce e Monty não foi correta (como era para gente ter visto lá na 2ª temporada), mas ainda assim, não dá mais para passar pano para eles e não entender que a cultura do estupro ainda continua e não pode ser mais aceita. Infelizmente a série derrapou neste arco.
Final conclusivo

Após a morte de Justin e um doloroso luto que faz o público se emocionar bastante, especialmente com a atuação de Brandon Flynn (confesso que chorei nesta parte!) 13 Reasons Why consegue entregar um final conclusivo em meio a altos e baixos. Todos se formam, com direito à festa de formatura e a finalmente a conversar com os seus pais (mesmo que com interesse, né?). Mais do que isso, o episódio final relembra os personagens que passaram pela série, especialmente Hannah Baker. Clay e todos finalmente colocam um ponto final em tudo ao enterrar as famosas fitas, que foi o estopim para tudo o que acompanhamos até agora.
Todos já sabem qual será o próximo passo, e a série entrega um desfecho não exatamente feliz, mas com alívio por tudo isso ter acabado.
Mesmo com problemas, 13 Reasons Why é uma série forte, com temáticas importantes que precisam ser faladas, explicadas e citadas por muito tempo. É uma série que precisa ser assistida, mas não é uma série para ser vista novamente em pouco tempo. Quem sabe daqui uns 10 anos?
O que acharam do final da série?
Confira 14 curiosidades sobre 13 Reasons Why:
Ficha Técnica
13 Reasons Why
Baseado na obra de Jay Asher
Criação e Produção: Brian Yorkey
Elenco: Dylan Minnette, Alisha Boe, Brandon Flynn, Christian Navarro, Miles Heizer, Grace Saif, Devin Druid, Ross Butler, Justin Prentice, Timothy Granaderos, Amy Hargreaves, Josh Hamilton, Kate Walsh, Brenda Strong, Steven Weber, Wilson Cruz, Bryce Cass, Mark Pellegrino, RJ Brown, Anne Winters e Nana Mensah.
Duração: 10 episódios (60min aprox)
Nota: 6,8 (4ª temporada)