Corrente do Mal (It Follows), segundo filme do diretor americano David Robert Mitchell, retrata a vida da jovem Jay (Maika Monroe) que, ao acaso, se relaciona sexualmente com um ‘quase desconhecido’ e, após o acontecimento, este conta que era perseguido por assombrações, e o único modo de se livrar delas seria repassando esta maldição para outra pessoa por meio do ato sexual. Muitos apontam que esta premissa seria uma analogia as DST’s, principalmente porque a história se trata sobre jovens, e não estão errados, mas seu subtexto ultrapassa tal questão.
Primeiramente, o ”monstro” criado não é algo grotesco, mas sim, a imagem de um ser humano que caminha lentamente sempre em direção ao amaldiçoado, podendo aparecer a qualquer hora e lugar, algo que parece banal a um filme de terror, mas dentre os erros que podemos cometer ao assisti-lo é exatamente taxá-lo deste gênero: o filme tem suas pequenas doses de sustos, embora não muito fortes e chocantes, mas a tensão criada por todos os seus aspectos é sua chave.
A ideia do caminhar do ”monstro” e da imagem de uma pessoa possivelmente normal, nos entrega uma atmosfera na qual qualquer personagem, ao fundo ou não da tela, pode ser aquele que a persegue.
A direção e a escolha da câmera parada pelo diretor nos da uma apreensão bem maior do que aqueles movimentos bruscos e os ‘zoom in’s’ em demasia dos filmes de horror, com sustos clichês que entregam ”jumps scares” sem graças. Pelo contrário: o longa é cheio de planos abertos pontuais e sua fotografia é nebulosa e escurecida.
A trilha sonora, talvez, seja o ponto mais forte do filme. Criada em apenas três semanas por Rico Vreeland (Disasterpeace) ela é de aplaudir: dialoga com a atualidade oitentista, aliás, esse fato do diálogo entre gerações está presente na produção do filme. Objetos não destacam com exatidão em qual época ele está inserido. Em alguns momentos, vemos TV’s antigas em outros celulares modernos e esse processo é uma tentativa de fazer com que a película se torne atemporal.
Apesar das positividades, o longa peca em algumas coisas. No elenco, além da atriz principal, consta Keir Glichrist (Paul), Daniel Zovatto (Greg), Lili Sepe (Kelly) e Olivia Luccardi (Yara) e, em nenhum momento é mostrado camadas ou evolução dentre as personagens, mas isto é aceitável pois remeteria a um desfoque da ideia principal do filme. Porém, o problema é que, diante de todas as atuações nem boas e nem ruins, os diálogos entre eles são totalmente descartáveis em vários momentos, não somando nada ao que é contado.
Há uma personagem por exemplo, que só existe para, miseravelmente, impor um tom de alívio cômico num momento totalmente inoportuno e, mais pra frente, só para citar frases demasiadamente intelectuais de Dostoiévski, mostrando uma metalinguagem forçada ao filme que, diante de outras cenas, conseguiu ser representada, utilizando outros recursos.
Diante de tudo isto, resumo: não encare Corrente do Mal como um filme de horror. Você irá suprir suas necessidades analisando e assistindo o longa como um ”thriller” ou suspense. É um filme em que quase toda sua composição é satisfatória e ultrapassa o monótono gênero do qual é taxado tendo pitadas de ”filme arte”. Em toda sua construção de boas cenas, sua câmera é inventiva e nos dá a sensação de estarmos também perseguindo a personagem amaldiçoada, nos deixando numa visão em que, às vezes, parece que a espionamos.
Com boas ideias e metáforas, Corrente do Mal é um filme indicado para aqueles que não tinham mais esperanças nos longas independentes de suspense e, que, com certeza se tornará um cult (filme que não necessariamente arrecada bilheteria e milhões, mas cria fãs e notoriedade diante disso) de nossa época em algumas décadas a frente. Vale a pena assistir.
Ficha Ténica
Corrente do Mal
Direção: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Daniel Zovatto, Linda Boston, Olivia Luccardi, Lili Sepe e Heather Fairbanks
Duração: 1h40min
Nota: 7,0