As estudantes Dandara Theiss, Gabriela dos Santos e Joyce Moura, da universidade Anhembi Morumbi, desenvolveram um estudo que discute a imaginação para as telas do cinema, ou seja, o que o público e os críticos dizem sobre as adaptações das sagas de livros para filmes. Confira a pesquisa.
No começo da década de 2000 foram lançadas adaptações cinematográficas de grandes sagas de livros, como “Harry Potter” de J.K Rowling e o “Senhor dos Anéis”, obra de J.R.R. Tolkien. O sucesso foi instantâneo, sendo assim a continuidade dessas sagas já era certa, assim como novas adaptações, surgindo então uma década cheia de franquias infanto juvenis de fantasia nos cinemas. Mas até que ponto essas adaptações agradam os leitores assíduos dessas sagas? Ao longo dos anos a qualidade desses filmes pareceu cair, de acordo com os fãs e espectadores, com poucos sendo produzidos e com alguns sendo interrompidos antes de um final adequado.

Enquanto o primeiro filme da saga do bruxinho famoso arrecadou mais novecentos milhões de dólares e uma nota de 7.6, segundo o Internet Movie Database (IMDB), filmes como os da saga de “Divergente”, da qual teve o último livro dividido em dois filmes, teve a produção de seu último filme suspensa após seu antecessor ter uma nota baixa de 5.7 no mesmo site.
Caso parecido com “Percy Jackson” que teve apenas dois filmes, de notas 5.9 e 5.8 respectivamente, ou até mesmo “Dezesseis Luas” que, apesar de ter uma nota superior que as produções citadas – conseguindo um sólido 6.1 – teve uma baixa bilheteria, trazendo pouco lucro para a sua produtora, fazendo com que a saga de quatro livros, tivesse uma única produção. Porém, entre 2001 e 2003 os filmes de Senhor dos Anéis conquistaram notas sempre acima de 8.
O motivo para isso seria a falta de fidelidade a obra original, como aponta Gabriel Marques, estudante de engenharia da computação, essa é uma das maiores críticas dos fãs em relação a Percy Jackson, por exemplo, segundo a secretária Juliana Novais “Percy Jackson foi completamente não fiel ao livro, desde a idade dos atores até o segmento da história que é completamente diferente” mudanças como essas deixam, na maioria das vezes, os fãs decepcionados e frustrados com o resultado final.
Um erro em comum que a maioria dos fãs apontam são os detalhes. Em muitos filmes detalhes importantes dos livros são deixados de lado ou modificados, como citado anteriormente, já em outros, partes que nunca estiveram presentes nos livros são acrescentados, muitas vezes até com o intuito de destacar algo ou chamar atenção do grande público, mas que na realidade acabam mudando as características originais e até mesmo o enredo da história. Isso aconteceu também com a saga “Divergente” que segundo a estudante de arquitetura Yasmin Guimarães começou bem, mas se perdeu:
“Os dois últimos filmes deram tão errado que o último livro foi divido em duas partes e a segunda nem estreou, acabaram com a saga contando uma história que não tem nada a ver com o livro, fazendo outra franquia maravilhosa ser fracassada nas telas de cinema.”

Isso acontece por causa de algo chamado especificidade das mídias, como explica a mestre em comunicação, com especificação em adaptação Leyslie Martins. Ela diz que cada mídia é diferente, ou seja uma cena descritiva em um livro no qual o leitor leva alguns minutos para ler, só precisa de segundos para ser entendida em uma tela de cinema. Por isso, muitas cenas são cortadas ou diminuídas em produções cinematográficas.
“Não dá pra traduzir tudo que tem no descritivo para um filme”, ela afirma e ainda diz que “a melhor palavra para definir uma adaptação é adequação.”

Porém, é importante também destacar os casos de sucesso. “Jogos Vorazes” e “Maze Runner” aparecem no topo da lista de melhores adaptações, segundo os leitores entrevistados. Em relação ao primeiro, Juliana destaca que tanto as falas quanto os efeitos do filme são extremamente fiéis aos livros, os personagens e atuações seguem a mesma linha, ainda segundo ela, a atriz Jennifer Lawrence foi uma representação exata da protagonista Katniss Everdeen dos livros. “Maze Runner” também foi citado como uma
ótima adaptação, como destaca Gabriel, que diz que tanto o tempo de filme quanto às continuações e atores foram seguidos à risca.
Mesmo com o apoio de fãs, filmes como “Maze Runner” receberam notas
consideravelmente baixas no IMDB, apesar da nota ser construída por voto popular. Os três filmes da saga tiveram em média uma nota de 6.4. Lançado alguns anos antes, a franquia de “Jogos Vorazes” mantém notas melhores, mas ainda baixas. Os quatro filmes juntos somam uma média de 6.9, bem diferente das franquias como “Senhor dos Anéis.” Isso prova que nem sempre as notas representam fielmente os sentimentos do público geral em
relação aos filmes. Como o caso da saga “Crepúsculo”, que apesar de receber notas entre 4.7 e 5.5, arrecadou mais de oitocentos milhões de dólares com “Amanhecer parte II”, final da franquia nos cinemas.

As primeiras adaptações obtiveram maiores notas, chegando até 8.9 em 2003 com “Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, demonstrando maior qualidade. Depois houve uma pequena queda, chegando em 6.5 em 2005 com “As Crônicas de Nárnia: O leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa”, apesar disso as notas dos filmes subiram um pouco mais em 2009, com “Harry Potter e o enigma do Príncipe” que alcançou a nota 7.6, demonstrando uma constância na qualidade deles, com uma ou outra exceção.
Todo processo de adaptação pode explicar os casos de sucesso ou fracasso dessas franquias. A estudante de cinema Aline Mendes explica que é importante ter em mente que existem três tipos principais de adaptações. Ela conta que quando se diz que o filme é uma adaptação isso significa realmente tentar realizar o mais parecido possível com a obra literária. Porém podem haver também inspirações, que não necessariamente precisam ser iguais ao original, usando como influência apenas partes ou temas específicos. Por fim, há produções que usam apenas uma base pré existente para criar uma história, como o caso do “Titanic”, o navio realmente existiu mas a história do filme é fictícia.

Outros fatos que influenciam as tomadas de decisões são cortes de orçamento, tempo e opiniões pessoais do diretor “nenhum diretor vai querer fazer um filme que não tenha o ‘toque’ dele, que não prove que ele conseguiu ‘melhorar’ ainda mais história. Infelizmente
eu acho que muita mudança ainda vem do ego de quem ta filmando a história”, destaca Aline. Ela também ressalta que acha importante tentar enxergar esse processo mais como uma soma a obra original do que uma releitura boa ou ruim.
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A especialista em adaptações, Leyslie Martins, concorda com esse ponto de vista ao dizer que temos de “considerar os filmes sendo uma nova obra, uma nova experiência, um momento que o roteirista ou o diretor tem um olhar diferente do que a obra original tem a dizer.”