Ao retratar o estupro, a violência e o machismo de forma tão delicada (e realista), Inacreditável (Unbelievable)ganha em enredo, trama e clímax, mas causa um pequeno desequilíbrio que incomoda o telespectador. Não tem como negar a grandeza que há na nova minissérie da Netflix, mas ainda é preciso pensar alguns aspectos e questionar se eles foram, ou não, propositais.
Inacreditável é uma adaptação do artigo, ganhador do prêmio Pulitzer, de T. Christian Miller e Ken Armstrong, chamado “Uma Inacreditável História de Estupro” (tradução livre), disponibilizado pela ProPublica, canal de jornalismo investigativo e independente de Nova York.
Inacreditável é uma adaptação do artigo, ganhador do prêmio Pulitzer, de T. Christian Miller e Ken Armstrong, chamado “Uma Inacreditável História de Estupro” (tradução livre), disponibilizado pela ProPublica, canal de jornalismo investigativo e independente de Nova York.
A história é contada em duas linhas do tempo, com anos e locais distintos, mas interligados, assim como também é feito no artigo da ProPublica. Uma é em Washington, 2008, que conta a angustiante e dramática vida de Marie Adler (Kaitlyn Dever); outra é no Colorado, 2011, que retrata o trabalho árduo de duas investigadoras, Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette).

Marie leva uma vida difícil desde criança, como se fosse uma “sobrevivente”, vive em lares adotivos desde os três anos, sofreu inúmeras agressões psicológicas e até físicas (quando foi, por exemplo, alimentada com comida para cães). Em 2008, é estuprada e retira sua queixa ao alegar falsa acusação após ser pressionada pela polícia, pois “não havia provas que comprovassem o crime” e por Marie ser “uma pessoa complicada que viveu muitos traumas” poderia ter “inventado” o estupro.
A investigadora Karen Duvall assume um caso de estupro em 2011, após batalhar muito para avançar na investigação, pois, curiosamente, o local e a vítima não tinham nenhuma prova do estupro, assim como no caso de Marie. Duvall encontra semelhanças entre o seu caso e o da reconhecida (e admirada) investigadora Grace Rasmussen. Assim, elas começam uma jornada juntas em busca de um ‘estuprador em série’ que violentou Marie anos atrás e as demais vítimas dos dias atuais.

Inacreditável apresenta uma trama envolvente, um relevante e uma história assustadora. As três personagens compõem narrativas que nos intrigam, afinal, quem é o abusador e quantas mulheres ele já violentou? Por onde começar se não há provas? Por outro lado, o tema nos faz questionar se as vítimas de estupro (geralmente mulheres) serão questionadas sobre a veracidade de uma denúncia.
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“Eu sinto muito por isso, Marie. Ninguém questiona se alguém foi assaltado, se foi agredido fisicamente, mas quando é agressão sexual, questionam”, frase do advogado de Marie. Além disso, a história assusta por ser real e, ao mesmo tempo, inacreditável. Afinal, como, por anos, um estuprador em série consegue invadir inúmeras casas, violentar e traumatizar diversas mulheres e sair impune por tanto tempo?

O tema, a trama, o enredo, o clímax e a emoção transformam Inacreditável em uma ótima produção. Mas há um sutil desequilíbrio que incomoda o telespectador. A atuação de Toni Collette é perfeita, consegue se aprofundar na personagem e nos faz sentir a indignação, frieza e as emoções dela. Por outro lado, Merritt Wever e Kaitlyn Dever atuam por outro viés que desequilibra as atuações.
A presença de uma expressão apática, fria e indiferente em ambas as personagens, incomoda. Principalmente por parecer, muitas vezes mais em Wever do que em Dever, uma apatia inapropriada, como se a atriz tentasse, sempre, se demonstrar fria, mas em vez disso, expressa uma frieza fraca, como se a tristeza, a indignação ou a raiva da personagem fossem cobertas por um fino véu de apatia.
Uma hora ou outra, Dever faz com que os sentimentos fracos, cobertos por um véu perceptível de apatia, sumam de uma vez por todas e as emoções de sua personagem tomem conta da tela por alguns minutos, transformando sua atuação em algo emocionante. Por outro lado, Wever não faz o mesmo, o véu permanece na personagem durante todos os episódios, se esforçando, a todo instante, não sentir nada.

Até mesmo nas cenas que a personagem pode (ou poderia) mostrar suas emoções com fervor, ao desabafar sobre um trauma no trabalho, ou ao prender o criminoso e ganhar o mérito, ou até quando vai ao bar ver o marido cantar, a detetive Duvall parece ter emoções mornas, ou simplesmente fracas e ausentes, até mesmo quando tem a chance de expô-las fielmente.
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Isso pode causar um incômodo no telespectador, ao perceber que as outras duas personagens conseguem medir seus sentimentos ou, em certos momentos, escondê-los a todo custo e/ou soltá-los minimamente, com um sorriso sutil ou com uma ou duas lágrimas resistentes a cair, mas que caem, sem apatia, frieza, apenas raros momentos que estão, de fato, emocionadas. A personagem de Wever não se emociona em nenhum momento.

A apatia na personagem de Wever pode ser proposital, ou não, mas incomoda o telespectador, ao ser destoante com as atuações de frieza das outras duas atrizes que, mesmo existindo, às vezes são deixadas de lado para a emoção ganhar o palco. Collette e Dever incorporam personagens frias, mas fortes, que demonstrar sua força quando permitem, minimamente, as emoções às tomarem.
Mais do que isso, esse incômodo na detetive Duvall nos direciona para as outras duas personagens que, mesmo parecendo tão distantes e frias em alguns momentos, são vividas por atrizes que revelam vagarosamente as emoções e vulnerabilidades em seus papeis, conseguindo nos convencer e emocionar, algo que a apatia de Merritt Wever, não faz.
Ficha Técnica
Inacreditável
Criação: Susannah Grant, Michael Chabon e Ayelet Waldman
Elenco: Toni Collette, Merritt Wever, Kaitlyn Dever, Blake Ellis, Dale Dickey, Kai Lennox, Austin Hébert, Eric Lange, Annaleigh Ashford, Danielle Macdonald, Charlie McDermott, Scott Lawrence e Connor Tillman.
Duração: 8 episódios (60 min aprox)
Nota: 8,0