Filmes que relatam sobre a imagem submissa da mulher e a voz feminina silenciada sempre causam um sentimento de revolta por saber que a sociedade já foi inflexível demais com o chamado “sexo frágil”. Mas quando longas como Colette e, agora, Suprema (On The Basis of Sex) surgem para relatar a progressão da mulher diante de um mundo tão machista, a emoção e superação batem no peito por saber que nossa força é capaz de alcançar lugares que, um dia, jamais seriam iguais para ambos os sexos.

Dirigido por Mimi Leader, Suprema acompanha a jornada de Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte que foi nomeada para o Supremo Tribunal em 1993 pelo presidente Bill Clinton, tornando-se a segunda juíza mulher, depois de Sandra Day O’Connor. A conquista deste alto e respeitado cargo se deve ao seu esforço, dedicação, competência e inteligência ao se especializar nos direitos de discriminação de gêneros, que fez com que as leis americanas primitivas, que perdurou por um século, mudassem a fim de serem iguais para homens e mulheres.
A premissa é forte e empoderadora, mas nem tudo são flores na a caminhada que Ruth percorre para chegar aonde chegou. E é exatamente esta história que Suprema vai contar.
Logo no início, o público já se depara com Ruth em seu primeiro dia de aula no curso de Direito na Universidade de Harvard. No entanto, o filme faz questão de ponderar que a faculdade abriu portas para as primeiras mulheres poderem se especializar em uma profissão cabível somente ao sexo masculino. Não, isso não é exagero e o roteiro ainda provoca as personagens femininas com dizeres machistas e rudes. Em um determinado momento, as estudantes são questionadas pelo reitor sobre a razão delas estarem ocupando a vaga que seria para um homem, ao invés de estarem em casa cuidando de seu marido e filhos. E isto é apenas uma pontinha do que está por vir.

Entre altos e baixos, idas e vindas, Ruth se forma com louvor em cinco anos de esforço, uma vez que neste meio tempo, ela precisa educar sua primeira filha, Jane, e cuidar de Marty, que descobre ter câncer ainda no período de graduação. Nem com tantos afazeres, Ruth desiste do seu sonho e ainda ajuda o marido nos estudos, já que ela passa também a assistir as aulas dele, enquanto o marido caminha com o tratamento.
Mesmo com uma ótima formação, Ruth não consegue alcançar seu objetivo de poder trabalhar em um bom escritório de advocacia, pelo simples fato de ser mulher. Assim, ela passa a dar aulas de Direito, para não perder o contato com a profissão. Mas ao se deparar com o caso de Charles Moritz (Chris Mulkey), um homem que não pode adquirir os direitos tributários de cuidador – algo que só cabia ao exercício do sexo feminino – Ruth enxerga a grande oportunidade de dar um grande passo em sua carreira, mas também de mudar leis velhas, rígidas e primitivas do país.

Suprema traz uma história real que relata o quão foi (e ainda é) ser difícil ser mulher em uma sociedade que diminui o outro pela raça e pelo gênero. Mesmo com o apoio incondicional e o amor inigualável de Marty, ela não deixa de passar por perrengues e ser rebaixada apenas ao título de ‘esposa de um grande advogado’. O mais interessante é que ela bate de frente, não entrega o jogo com facilidade e, mesmo passando por tantos obstáculos, ela enfatiza a capacidade de fazer a diferença, mas também aprende com a nova geração que vai se criando. Ver o relacionamento dela com a filha Jane (já na fase adolescente) traz o conflito entre duas gerações que enxergam a sociedade de um modo diferencial. De um lado, Ruth quer mudar as leis, mas ainda se encontra em uma posição inferior; do outro lado, Jane mostra que é possível levantar a voz diante de atitudes em que a mulher não é obrigada a suportar (a cena da cantada na rua é um pouco forçada, mas é um bom exemplo).
O filme fica mais interessante quando Ruth está prestes e enfrentar o primeiro tribunal diante de tantos olhares julgadores. Em alguns momentos, os diálogos jurídicos podem não ser bem compreendidos pelo público, mas isso não diminui o desenvolvimento da trama, muito menos deixa o espectador confuso. O ápice do filme se desenrola em um bom terceiro ato, que faz a gente torcer para que Ruth encontre o caminho certo para derrubar um século de desigualdade.

Felicity Jones entrega uma boa performance que torna-se cativante o filme todo. Sua química com Armie Hammer é forte e o público acredita na cumplicidade dos dois. Ainda temos a participação de Justin Theroux, que entrega um personagem dividido entre o machismo e a vontade de ajudar Ruth; e Kathy Bates que, infelizmente, pouco aparece.
Considerações finais
O desfecho fica aberto, mas é concluído em uma narração emocionante que mostra como esta história se concluiu na vida real.
Suprema relata a vida de uma juíza que deu o primeiro passo na história americana e fez a diferença na trajetória da discriminação do gênero e da raça em um mundo tão desigual. Mas, mesmo com a primeira batalha vencida, ainda há muitas outras para lutar neste caminho.
Ficha Técnica
Suprema
Direção: Mimi Leder
Elenco: Felicity Jones, Armie Hammer, Justin Theroux, Kathy Bates, Sam Waterston, Jack Reynor, Cailee Spaeny, Stephen Root, Chris Mulkey, John Ralston, Holly Gauthier-Frankel e Arlen Aguayo-Stewart.
Duração: 2h01min
Nota: 7,8