Não podemos negar que o cinema brasileiro está entregando produções cada vez melhores – não só nas telonas, mas também em formato de séries nos streamings e tv aberta. O Sequestro do Voo 375 é a nova aposta que chega aos cinemas retratando uma história real que marcou o Brasil no final dos anos 1980.
Uma trama tensa, intensa que até faz você achar que se trata de uma mera ficção, mas quando lembramos de que isso realmente aconteceu, a perspectiva muda, choca, instiga e intriga com excelentes atuações, uma produção formidável e um desfecho que te deixa perplexo pela forma como o caso foi encerrado. Vale muito a pena assistir e vou te dizer o porquê.
Com direção de Marcus Baldini, O Sequestro do Voo 375 retrata a história real que aconteceu no dia 29 de setembro de 1988. O cidadão Raimundo Nonato Alves da Conceição era um homem insatisfeito e infeliz com a situação política do Brasil, desde inflações até a alta taxa de desemprego.
Exausto pela falta de empregos, oportunidades e sem ter dinheiro para cuidar de sua filha e mãe, Raimundo toma uma decisão radical que mudará o seu destino e marcará a vida dos envolvidos. Durante o voo, ele sequestra o avião da Vasp 375, que partia de Confins, em Belo Horizonte, com destino ao Rio de Janeiro. Ao portar uma arma, ele coloca passageiros, comissários e pilotos como reféns e ordena que a rota seja alterada para realizar o seu objetivo: colidir com o avião no Palácio do Planalto e matar o ex-Presidente da República, José Sarney.

Independente de conhecer ou não a história real, a forma como O Sequestro do Voo 375 constrói a narrativa é o ponto crucial que faz o espectador ficar vidrado na tela até ao fim, complementado tanto pelas atuações, a produção e as informações finais que chocam ainda mais.
O início é aquele tradicional prelúdio ao caos, em que os personagens principais são introduzidos e as conexões são feitas a fim de que o público comece a se importar com eles de antemão, enquanto mira no antagonista que se prepara para começar o seu plano inconsequente e falho, cujas motivações, até então, são compreensíveis, apesar dos seus atos não serem.
Entre o primeiro e segundo ato, O Sequestro do Voo 375 desenvolve todo o caos dentro do avião já em voo, em que as ambientações se dividem entre o local dos passageiros e a cabine do piloto onde a maioria dos diálogos e negociações acontecem.

É aqui que o público se envolve completamente na atmosfera de tensão à medida que a raiva e impulsividade de Nonato move a situação, sem dar para trás com o plano até o último minuto.
O ator Jorge Paz não só está muito semelhante ao Nonato da vida real, como também entrega uma energia intensa em todos os seus movimentos, um olhar de ódio, rancor, raiva sem fazê-lo enxergar que demais vítimas também sofrem com a situação política brasileira, mas não tem nada a ver com esta situação em específico, muito menos perder a vida desta forma e por este motivo.
Em O Sequestro do Voo 375, a maior parte das cenas acontecem na cabine do piloto, em que o espectador passa a conhecer a finco o comandante Fernando Murilo (Danilo Grangheia), responsável por conduzir todo o trajeto, manter o controle de tudo e salvar a vida de mais de 100 pessoas a bordo.
Os diálogos entre os dois vão além das negociações, em que Fernando obter informações sobre Nonato, sua família e os motivos para querer sequestrar o avião, a fim de criar uma aproximação, despertar o lado humano e gentil, enquanto descobre suas vulnerabilidades. Claro que os ânimos são abalados e momentos brutais ocorrem neste cenário, o que choca o público. Ao lado do comandante, também conhecemos o copiloto Salvador Evangelista, interpretado por César Mello, que entrega medo, estresse e pânico ao ver sua vida em risco, temendo por tudo o que pode acontecer, caso algo dê errado.

Outra ambientação que vemos em O Sequestro do Voo 375 é na Sala de Controle do aeroporto, com destaque para Luzia (Roberta Gualda), que acompanha toda a situação desde o momento do desvio da rota inesperadamente, até a ciência de que se trata de um sequestro e ficar à frente das negociações. A personagem usa da identificação e do vínculo indireto para conversar e persuadir Nonato nas conversas, acatando seus pedidos e garantindo que nada irá acontecer a ele, caso dê por encerrado esta missão suicida.
Mas é neste momento que o filme também traz ao público simultaneamente a cobertura da mídia e a condução das negociações feitas pelos responsáveis no aeroporto, a polícia e, é claro, o governo com destaque para o Brigadeiro Bastos (Adriano Garib) e o ministro Sobral Quintanillha (Claudio Jaborandy), que revelam um lado hipócrita, cruel, frio e calculista ao lidar com o caos, na tentativa de proteger a imagem do Presidente, enquanto desdenha das autoridades, muito menos se importa com as vítimas dentro do avião. Inclusive, há um diálogo tão debochado que é impossível não conectar com a realidade. Sem dúvida, é uma sequência que causa raiva e náusea justamente por se tratar de algo que, infelizmente, ainda é visto atualmente.
O terceiro ato de O Sequestro do Voo 375 entrega uma sequência formidável, digna de Hollywood, quando o comandante Fernando Murilo se encontra encurralado entre os problemas técnicos no avião e acatar as ordens de Nonato. Assim, ele realiza uma manobra heroica – conhecida por tonneau – que desestabiliza o sequestrador, dando a chance de pousar em segurança no aeroporto de Goiânia.

Ainda assim, O Sequestro do Voo 375 se estende para o confronto final na pista de pouso, em que Nonato tenta seguir em frente com o seu plano, usando os reféns principais como escudo, cujo plano é interrompido pelas autoridades que coloca um ponto final neste pesadelo.
O sequestro do avião da Vasp 375 resultou em uma morte e três pessoas com feridas não graves. Mas o que vem a seguir são informações complementares que revelam ao público o desfecho desta história, como o destino de Raimundo Nonato e todo o mistério a cerca do sequestrador; a consideração de Fernando Murilo como herói nacional que, infelizmente, não foi reconhecido no país como merecia, nem mesmo a acrobacia feita no ar como forma de salvar a todos.
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Mas a cereja do bolo fica para a cena final quando o filme informa que este sequestro serviu de inspiração para Osama Bin Laden e o ataque do 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York.
Considerações finais

O Sequestro do Voo 375 retrata uma história real que merece ser lembrada, justamente por ser um marco na história brasileira. Mesmo assim, tal caso não fora suficiente na época para mudar o esquema de segurança nos aeroportos do mundo, uma mudança que só foi oficializado com a morte de milhares de pessoas em 2001.
O Sequestro do Voo 375 tem excelente elenco, uma história real, envolvente, intensa e tensa em todo o seu desenvolvimento e uma produção que não fica nada a desejar para ninguém. Fica a dica de um ótimo filme que merece ser visto no cinema por muitos.
Ficha Técnica
O Sequestro do Voo 375
Direção: Marcus Baldini
Elenco: Danilo Grangheia, Jorge Paz, Roberta Gualda, Gabriel Godoy, César Mello, Juliana Alves, Wagner Santisteban, Arianne Botelho, Diego Montez, Claudio Jaborandy, Johnnas Oliva e Adriano Garib.
Duração: 1h40min
Nota: 4,0/5,0