Hebe – A Estrela do Brasil nos presenteia não só com a história de uma das maiores apresentadoras da televisão brasileira, mas também entrega facetas desconhecidas de esposa, mãe amorosa e, mais do que isso, uma mulher de voz, que soube espalhar as palavras mais sinceras e reais pelos quatro cantos do país em uma época ainda repressiva e com seus resquícios de preconceito. Hebe Camargo é uma rainha em vários sentidos e sua história tem muito o que dizer.
Dirigido por Mauricio Farias e roteirizado por Carolina Kotscho, Hebe – A Estrela do Brasil não é uma cinebiografia com começo, meio e fim sobre a vida pessoal e carreira de Hebe Camargo. O roteiro tem o propósito de trazer um recorte específico da vida da estrela, mais especificamente na década de 1980, uma época de grandes transições na vida profissional desta figura e revelações cruas sobre quem é Hebe Camargo por trás das câmeras; quem é a mulher que chama atenção por sua exuberância no figurino e nas joias brilhantes; quem é a mãe que idolatra o filho amado; quem é a esposa que ama e bate de frente com o seu parceiro; quem é a mulher que segura o microfone e exalta a sua voz para defender uma sociedade reprimida; afinal, quem é Hebe Camargo?

Nesta década, o Brasil vivia uma de suas piores crises, enquanto Hebe Camargo aparecia exuberante, poderosa e repleta de sucesso na tela da televisão. Mas só isso não bastava. No auge dos 60 anos, Hebe não aceitava ser apenas mais produto que se vende bem na TV, sujeita a ser submissa por homens que acreditavam no seu talento e a podavam a qualquer custo, especialmente em uma época de pós-censura, mas que a tal proibição ainda permanecia firme forte, uma válvula que fazia Hebe Camargo mais forte, ousada e afrontosa na medida e hora certa.

Um dos pontos fortes da narrativa é mostrar a força da censura que ainda exalava pelo país e como isso afetava especialmente a protagonista, que vivia do suor do trabalho e jamais se rebaixava para apenas aceitar ordens. Hebe enfrentava e driblava uma fase misturada ao preconceito, machismo e chefes poderosos, que é bem especificado quando a apresentadora leva gays, lésbicas, performers, transexuais e figuras chamativas ao seu programa, contrariando as regras e o que era militado na época, a ponto de bater de frente com o próprio governo e a justiça.
Mas é por esse viés que Hebe – A Estrela do Brasil caminha, revelando uma Hebe Camargo que dava voz para aqueles que não tinham, que sofriam calado e encurralado por um preconceito forte e brutal. No filme é comum ouvir palavras como ‘bicha’, ‘travesti’, ‘viado’, termos que, hoje, são considerados ofensivos. Tente levar isso em consideração justamente para compreender melhor como a minoria era referida em uma época regressiva e opressora que, por coincidência, espelha certos momentos atuais da nossa sociedade.
Uma mulher de facetas

Hebe – A Estrela do Brasil não faz somente um perfil perfeito do que conhecemos da apresentadora pela televisão. Através de ângulos diferentes da câmera, até incômodos em alguns momentos, o filme faz questão que o espectador conheça vários lados de Hebe e não apenas uma frente bonita, brilhosa e majestosa, o que também não deixa de ser magnifico de contemplar.
A atriz Andrea Beltrão acerta ao entregar uma performance crua, verdadeira e repleta de referências da apresentadora – há as famosas frases como ‘A gente volta já, já’ e ‘Ai que gracinha’ – transparecendo similaridades com Hebe Camargo, mas sem forçar uma interpretação exatamente igual, o que deixa o filme ainda melhor de assistir.
Crítica: Predadores Assassinos
Aliás, outro ponto positivo é que além dos diálogos sensacionais das conversas frente a câmera, discussões com os demais personagens, o filme faz questão de trazer mensagens e transições de forma imagética para uma interpretação mais densa. Há uma cena em que Hebe termina o programa ao vivo e vai embora dirigindo. O momento em que ela está no carro e entra em um túnel, ganha-se um silêncio total, relatando a saída da apresentadora de sucesso e o retorno para sua vida simples com seu marido, filho, sobrinho e empregados; da vida luxuosa frente às câmeras para o cotidiano de sua casa.

E é neste outro lado que o público conhece uma Hebe que briga, ama, comete erros, chora, grita, idolatra, cansa e recomeça tudo outra vez. Isso pode ser visto em dois momentos: o seu lado amigo e afetuoso com seu cabelereiro (Ivo Muller) de longa data; e seu afeto com o filho Marcello (Caio Horowicz), revelando um amor maternal singelo e puro em muitas cenas, mas que poderia ter sido mais aprofundado com diálogos mais robustos entre mãe e filho, uma vez que vários pontos da vida pessoal de Marcello ficam sugestivos no filme, aguçando a curiosidade do espectador, mas que, infelizmente, não entrega muitas explicações.
Neste lado mais pessoal também conhecemos a paixão de Hebe pelo seu marido Lelio Ravagnani, muito bem interpretado por Marco Ricca, e o conflito entre dois, movido por um ciúme doentio e descabível, que contradiz com a mulher empoderada, poderosa e de sucesso. É uma relação complicada e interessante de acompanhar.
Personalidades

Outro ponto que chama bastante a atenção em Hebe – A Estrela do Brasil é a personificação das grandes personalidades que passaram pelo sofá da apresentadora. Assim como Andrea Betrão fez em seu papel, a ideia era representar similaridades, mas sem trazer um retrato ideal, perfeito e igual destes famosos, e tal proposta funciona bem no filme, com destaque para a apresentação do cantor Roberto Carlos (Felipe Rocha) no programa da Hebe em sua estreia no SBT; a aparição engraçada e extravagante de Dercy Gonçalves (Stella Miranda) e figura ilustre de Roberta Close (Renata Bastos) ainda no programa antigo da rede Bandeirantes; o jantar divertido com as amigas Nair Bello (Claudia Missura) e Lolita Rodrigues (Karine Teles); e o grande momento em que Hebe assina o contrato com Silvio Santos (Daniel Boaventura).
Considerações finais
Hebe – A Estrela do Brasil traz como proposta um trecho de um dos momentos mais marcantes da vida da apresentadora, discutindo a censura, a força da voz da mulher brasileira mais importante da televisão; o retrato pessoal de uma Hebe mãe, esposa, dona de casa e mulher; momentos divertidos com personalidades que marcaram presença no sofá mais aclamado da TV; cenas intimistas que falam mais que palavras.
Hebe – A Estrela do Brasil enaltece a saudade da apresentadora, uma mulher cuja figura e voz fazem falta nos tempos atuais, mas que jamais será esquecida. É um filme que te dá um gostinho de querer ver mais sobre uma Hebe Camargo irreverente em vários ângulos.
Ficha Técnica
Hebe – A Estrela do Brasil
Direção: Mauricio Farias
Elenco: Andrea Beltrão, Marco Ricca, Danton Mello, Caio Horowicz, Daniel Boaventura, Stella Miranda, Felipe Rocha, Otávio Augusto, Gabriel Braga Nunes, Karine Teles, Claudia Missura, Danilo Grangheia, Renata Bastos, Roberto Gouvea e Ivo Muller.
Duração: 1h52min
Nota: 8,0