De uns tempos pra cá, o cinema vem entregando filmes sobre representatividade como o vencedor do Oscar, Uma Mulher Fantástica e o romance Com Amor, Simon. Desta vez, chega às telas Desobediência (Disobedience), uma história sobre amor, sexualidade e religião, que quebra tabus e levanta temas pertinentes que muitos vão gostar de ver e discutir; outros mais conservadores pode ser que nem tanto.
Dirigido por Sebastían Lelio, Desobediência conta a história de Ronit, que retorna à sua cidade natal com a morte de seu pai, um rabino conhecido e querido pela comunidade. Sua chegada é uma grande surpresa, uma vez que ninguém ao menos se deu ao trabalho de avisá-la sobre o falecimento do pai (apenas uma pessoa se importa com isso). Ronit é recebida por seus amigos de infância Esti e Dovid que, por sinal, estão casados. A notícia e o reencontro torna o momento desconcertante, mas tudo fica ainda mais desconfortável quando o público toma conhecimento de que Ronit abandonou a família e a cultura judaica para viver fora da caixa, criando os seus próprios princípios. Essa atitude se deve a um envolvimento amoroso entre ela e Esti, que aconteceu anos atrás.
Apesar de Desobediência trazer uma temática forte e cabível a discussões, o filme fica um pouco a desejar. Além de melancólico, o roteiro engrena lentamente o que pode deixar alguns espectadores entediados enquanto assiste. Há cenas acompanhando apenas os personagens durante uma caminhada ou um encarando o outro, ocupando um tempo mais do que necessário em tela. Talvez a ideia seja contemplar mais esse clima de intimidade, o que é até interessante, mas há certo exagero, tornando as cenas monótonas.
Mesmo com essa lentidão, o roteiro acerta ao explorar a religião e a sexualidade, quebrando costumes mais conservadores e, consequentemente, impactando ao retratar a homossexualidade na cultura judaica. Mais do que isso, o filme fala sobre escolhas e o livre arbítrio, independentemente da fé que tem ou que lhe foi ensinada. De um lado, temos Ronit que representa essa liberdade, mesmo tendo sido criada sob costumes mais conservadores. Ela opta em criar o seu próprio estilo de vida que choca parentes e amigos da comunidade. Já Esti representa a escolha que lhe foi imposta. Ela segue os costumes e a tradição, reprimindo quem ela é de verdade. No entanto, essa repressão começa a se quebrar assim que Ronit cruza o seu caminho novamente.
O filme contempla ainda mais a distinção desses dois mundos com uma atmosfera fria e triste, utilizando uma paleta de cores acinzentadas para representar momentos de reflexão, solidão, dúvidas e medo. Há também uma atmosfera mais quente e cores mais fortes, o que traz certo alívio cômico e leveza em cenas um pouco mais despojadas.
Com relação à cultura judaica, Desobediência aponta alguns detalhes tradicionais, como o fato da mulher usar peruca e roupas escuras e compridas para mostrar o corpo o mínimo possível; a relação (sexual ou não) entre marido e esposa; o costume de falar sobre negócios apenas no escritório, sem misturar trabalho e lazer, etc. Porém, acredito que o filme poderia ter trazido mais detalhes sobre a cultura, a fim de não só aguçar a curiosidade do espectador, mas também criar um impacto ainda maior com a temática em pauta.
Personagens
Desobediência apresenta um trio que carrega bem o filme, com cada um representando uma vertente do assunto. Rachel Weisz entrega uma Ronit convicta das escolhas que fez, mas melancólica, desconcertada e reflexiva por sentir que não faz mais parte da comunidade em que foi criada. Mais do que isso, ela questiona se amor do pai se desintegrou a partir do momento em que ela abriu mão da sua tradição.
Para mim, Rachel McAdams é um dos destaques do filme. Ao mesmo tempo em que Esti segue religiosamente a cultura judaica, vemos uma personagem reprimida. O reencontro com Ronit revela que há uma chance de ser feliz, no entanto, ela ainda permanece em cima do muro. Afinal, o que realmente vale a pena? Abrir mão de tudo e começar um caminho do zero? Ou seguir os costumes e sacrificar os sentimentos, o seu verdadeiro eu?
Desobediência traz uma cena de sexo real e sentimental entre Ronit e Esti, com certa nitidez na sensualidade, mas sem tornar o momento vulgar. Este é o ápice da história que, para mim, já vale o filme todo.
Quem também se destaca é Alessandro Nivola, que traz um Dovid adorado pelo pai de Ronit, um promissor rabino da comunidade, mas que traz grandes conflitos internos, colocando-o também em cima do muro, uma vez que ele presa por sua família e os costumes, mas está ciente do que acontece em sua volta e tenta aceitar essas diferenças, dando a chance das pessoas que ele ama serem felizes.
Considerações finais
Desobediência é um filme que começa minimalista e cresce ao transitar sobre religião, sexo, amor, liberdade e escolhas em uma atmosfera mais conservadora. As atuações são ótimas e a química de Weisz e McAdams é fenomenal. No entanto, o filme perde um pouco do seu potencial por não trazer mais detalhes sobre a cultura judaica, além de cair em um ritmo lento que pode tirar a atenção do espectador. Mesmo com algumas ressalvas, é um filme que vale a pena ser visto.
Ficha Técnica
Desobediência
Direção: Sebastían Lelio
Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Anton Lesser, Allan Corduner, Nicholas Woodeson, David Fleeshman, Bernice Stegers e Lasco Atkins.
Duração: 1h54min
Nota: 7,0