A Casa Que Jack Construiu (The House That Jack Built) não se trata de uma simples história sobre um assassino sangue frio. Mais do que um thriller, o filme constrói o conceito de ‘serial killer’, molda e desconstrói as camadas perversas do protagonista, com inúmeras pinceladas de metáforas e referências artísticas, tornando o filme uma obra de arte pelas mãos de Lars von Trier.
Na trama, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack (Matt Dillon) mata uma mulher. Este evento desencadeia um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar pessoas ao longo de 12 anos. Devido ao descaso das autoridades e a indiferença dos habitantes locais, Jack não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executá-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres em um frigorífico abandonado. Tempos depois, ele compartilha o seu rastro de sangue com o sábio Virgílio, iniciando uma jornada rumo ao inferno.
Mesmo se tratando de uma história sobre um homem e seus casos macabros, A Casa Que Jack Construiu não é um filme que cairá no gosto de todo mundo, pois a trama exige paciência, atenção e uma boa análise com relação às interpretações de Lars von Trier. Mais do que um filme de entretenimento, o filme pode ser considerado um bom material de estudo, que extrai várias interpretações sob diferentes olhares, seja fã ou não do diretor, cinéfilo ou simplesmente um espectador.
O roteiro apresenta uma trama dividida em cinco grandes partes, intituladas nos incidentes marcantes cometidos por Jack. Junto a esses incidentes, o público acompanha a narrativa entre Jack e Virgílio que se passa no tempo presente, enquanto que os assassinatos são retratados em flashbacks da vida do protagonista ao longo de 12 anos. Nota-se que até a última parte do filme, não se sabe claramente quem é Virgílio e o tipo de relação que ele tem com Jack, até o momento em que a própria figura aparece em cena para sanar as dúvidas do espectador.
O assassino
Enquanto acompanha-se a narração paralelamente aos assassinatos, o espectador toma conhecimento sobre o conceito de ‘serial killer’ e a construção de Jack. Desde pequeno, o personagem aparenta certas estranhezas, mas é no primeiro crime que o seu pior instinto humano é ativado. No decorrer das mortes, vemos Jack ganhar experiência, seja em atrair a vítima, domar, provocar, matar e guardar o corpo. O momento da morte é um dos pontos altos do filme, revelando a frieza contemplativa do protagonista exercida pela ótima atuação de Matt Dillon, que dá os primeiros passos como um assassino amador – que, a princípio, não consegue nem estrangular a vítima corretamente – e se transforma em um expert serial killer.
Diante de um retrato grotesco, o personagem ainda ganha certa veia cômica devido ao seu problema de TOC, a forma desdenhosa de provocar e caçar a vítima, além do fato da sorte sempre favorecê-lo nos momentos mais cruciais. Pelo fato de Jack ter TOC, torna essa condição uma das melhores coisas do personagem e do filme, mas infelizmente este fator é reduzido e deixado de lado rapidamente o que, para mim, torna-se um ponto negativo.
Em meio à construção de Jack e ao conceito de assassino em série, Lars von Trier aplica infindáveis metáforas e referências artísticas a fim de tornar o filme uma obra de arte grotesca perfeita. No entanto, até certo ponto, essas metáforas condizem e complementam a construção do protagonista e a temática abordada, porém há momentos em que essas incisões metafóricas perdem o sentido, podendo confundir o espectador. Mas esta é apenas a minha opinião.
Os incidentes
Em 2 horas e 35 minutos de filme, o público conhece Jack e os cinco principais assassinatos. Coincidência ou não, todas as mortes ocorrem com mulheres, trazendo uma crítica forte e questionável ao feminismo em meio à brutalidade do homem. E essas palavras são ditas claramente pelo próprio personagem.
O próprio diretor revela que “por anos fez filmes sobre boas mulheres, mas agora fez um sobre um homem mau”. No entanto, von Trier entrega mulheres estereotipadas, ou seja, donzelas que precisam ser salvas (1º incidente), inocentes, ingênuas e burras, pois mesmo desconfiando das intenções de Jack, elas caem na lábia do assassino, dando-lhe abertura para o próximo passo mortal. Isso fica nítido no 2º e 5º incidente.
O primeiro incidente é bem interessante, pois ele não só introduz o protagonista ao mundo da morte, como desdenha da sua capacidade, o que ativa o instinto primitivo e mortal de Jack. O diálogo dele com a atriz Uma Thurman é provocador e debochado, o que torna a cena ainda melhor.
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Todos os incidentes são desenvolvidos em cenas rápidas, frias, cruas, violentas e de extrema agonia, pois você sabe que a vítima vai morrer, mas cria-se uma expectativa agoniante de como e que horas isso vai acontecer. Um bom exemplo é o 5º incidente. De todos, o 3º incidente com a família é o mais brutal do filme.
Considerações finais
O último ato traz o significado do título do filme, o propósito de Jack, a identidade de Virgílio, além de trazer um grande desfecho metafórico que pode ser referente ao Inferno de Dante (A Divina Comédia, de Dante Alighieri). Tudo isso torna o final trágico e poético que, como disse, pode ganhar interpretações distintas do público.
A Casa Que Jack Construiu é uma obra de arte sobre um assassino em série que exige paciência, atenção e análise. Não é um filme de entretenimento que cairá no gosto de todos, mas é um filme que deve ser contemplado e desconstruído sob diversos olhares.
Ficha Técnica
A Casa Que Jack Construiu
Direção: Lars von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Grabol, Riley Keough, Jeremy Davies, Yoo Ji-tae, Ed Speleers e Johannes Kuhnke.
Duração: 2h35min
Nota: 8,0