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Altered Carbon conquista com cenário futurístico, identidade própria e bons personagens

Série apresenta mundo onde se engana a morte

Ao assistir pela primeira vez ao trailer de Altered Carbon (Carbono Alterado), minhas expectativas não estavam nenhum pouco altas, mesmo concordando que a série apresenta uma premissa instigante e um cenário futurista atrativo. Assim que iniciei minha maratona, minhas primeiras impressões foram de confusão, já que a história expele uma série de informações importantes que não é possível ignorar. Mas uma vez que você capta e compreende a trama, ela te conquista e, ao final, você já está roendo as unhas para saber as respostas e torcendo pelos personagens.

Baseado no clássico cyberpunk de Richard K. Morgan e criado e produzido por Laeta Kalogridis, Altered Carbon é uma história bem diferente de tudo o que eu já vi. Com um cenário futurista, pode se dizer que a série faz referências aos filmes Blade Runner e Blade Runner 2049, afinal esse pode ser o primeiro pensamento que virá à sua cabeça. No entanto, a história cria sua própria identidade a partir de uma mitologia complexa e até difícil de entender no início, mas que ganha riqueza de detalhes e te atrai pela excelente forma como os fatos são costurados, mesmo que algumas dúvidas surjam no meio do caminho.

Altered Carbon é uma história sobre assassinato, sexo, amor e traição que se passa a mais de 300 anos no futuro. Sob os moldes de ficção científica, a trama nos apresenta uma sociedade transformada por uma nova tecnologia capaz de enganar a morte. Todas as pessoas possuem um cartucho na nuca que digitalizam a consciência, memórias, personalidade e a alma do ser. O corpo é completamente dispensável e, após a morte, sua memória pode ser inserida em outro corpo, o que dá a chance da pessoa viver novamente, não importa quanto tempo passe. Na trama, acompanhamos Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) que após 200 anos morto, retorna em um novo corpo para desvendar o assassinato de Laurens J. Bancroft (James Purefoy), um matusa milionário que nega com todas as forças que não cometeu suicídio. Sob o contrato rígido de Bancroft, Takeshi (Tak) tem apenas seis semanas de aluguel de sua nova capa para solucionar o caso e, assim, ter de volta a sua liberdade. Porém, tanto o novo corpo quanto o seu passado irão trazer problemas para Tak e consequências que prendem a atenção do telespectador do começo ao fim.

Linguagem e cenários próprios

Um dos pontos positivos que contribuem para a identidade de Altered Carbon é a criação de uma mitologia complexa, com linguagem e cenários próprios. Extremamente rica em termos, informações e mundos, a série cria o seu próprio dicionário. Na trama, os denominados “matusa” são aqueles que vivem mais de 200 anos devido a uma vida muito próspera que dá a oportunidade de comprar novos corpos (que são extremamente caros) e ainda fazer backups da memória. Ou seja, se alguém atirar diretamente no cartucho a fim de que a pessoa tenha uma ‘morte real’, a memória continua intacta, dando a oportunidade de a pessoa retornar ao mundo dos vivos. O corpo é denominado ‘capa’ e uma vez danificado, ele se torna completamente dispensável podendo o usuário desfrutar de um novo corpo e rosto a seu gosto. Mas, dependendo do nível do estrago, é possível fazer reparos para que a capa não seja descartada.

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Mas Altered Carbon não fica somente em um ambiente tradicional. Com um cenário futurístico, a série cria outros mundos como o céu, onde vive os mais afortunados; mundos holográficos em que a pessoa é capaz de conversar virtualmente, viver simulações (boas ou ruins) e até deixar uma memória viva presa. Quem sofre com isso é Vernon Elliott (Ato Essandoh), que vê sua filha Lizzie (Hayley Law) presa em um mundo virtual após ter sofrido um grande ataque. Além disso, a série acerta ao criar um hotel comandado por uma inteligência artificial (o recepcionista Poe), onde Takeshi se hospeda; e outros mundos, como Harlan, terra natal que o protagonista se encontrar a 148 anos-luz de distância. Há muitos outros detalhes na série que prefiro não falar, pois acredito que sejam spoilers. O interessante é você acompanhar e descobrir cada significado. Acredite, a experiência vale a pena.

Narrativa rica e bem conectada

Mesmo com uma mitologia complexa, os 10 episódios com quase uma hora de duração apresentam fatos bem costurados a um fio condutor forte que, no caso, é o assassinato. Assim que começamos a acompanhar a investigação sobre a morte de Laurens Bancroft, descobrimos que Altered Carbon vai muito mais além do que esse mistério, transportando o telespectador ao passado de Takeshi, em que temos um conhecimento maior sobre sua família, quem ele era, porque ele se tornou um emissário, quem são os protetorados, quem é o grupo que ele faz parte e a líder pela qual se apaixona; as intenções da detetive Kristin Ortega (Martha Higareda); como ela e Takeshi se unem para desvendar o mistério; o segredo por trás da capa de Takeshi, entre outras coisas.

Sob a narração do protagonista, a série apresenta uma narrativa que não é 100% linear. Além de um episódio relatado de trás para frente (muito bem feito, por sinal) a história mescla cenas do presente e o passado que se encaixam perfeitamente, ou seja, conecta determinado momento do passado de Takeshi ou dos demais personagens com algo que estamos acompanhando atualmente. A história tem o seu grau de complexidade exigindo uma atenção redobrada do telespectador, especialmente nos diálogos bem construídos. Uma vez que você capta a essência da trama, a compreensão se torna mais fácil, mas ainda é possível que você fique com dúvidas e crie teorias sobre a história.

Imortalidade vs Religião

Um ponto forte na trama é o enaltecimento da imortalidade, que bate de frente com os mais religiosos que não aceitam esse novo “estilo de vida” e acreditam e defendem que a morte deve ser para sempre. Logo no primeiro episódio, conhecemos os Salvadores de Alma, um grupo que é contra o reencapamento e luta para deixar os mortos em paz. No entanto, a série apenas dá pinceladas no assunto, deixando esse arco a desejar, já que não há nenhuma profundidade sobre esse “fanatismo” e o duelo contra aqueles que são a favor da ressureição. Tal assunto é ainda levado a diante pela família de Kristin, que é adepta a morte definitiva e bate de frente com a detetive, uma vez que ela entende a concepção de vida eterna, mas se vê dividida com a opinião forte de sua religiosa mãe.

Outro ponto muito interessante, mas que infelizmente é apenas citado na série é a “Resolução 653”. Tal lei permite liberar juridicamente católicos armazenados para que eles possam ser intimidados a testemunhar crimes, porém o Vaticano é contra a aprovação da lei. Já pensou o quão foda seria se as vítimas voltassem à vida e apontassem os verdadeiros culpados, sem perder tempo com investigações ou estender o sofrimento alheio? A série até faz isso algumas vezes, mas superficialmente.

Personagens

Uma boa história se faz com bons personagens e Altered Carbon entrega figuras ricas, complexas e divertidas, cuja química é construída aos poucos e funciona bem. No presente, acompanhamos Takeshi Kovacs (se pronuncia Kovach) na capa de Joel Kinamman que, na minha opinião, entrega uma boa performance. É possível enxergar bem a mente do personagem em um corpo que não é seu, algo que poderia estragar a história se fosse mal executada. No começo, Kovacs se mostra completamente indiferente a qualquer pessoa. Para ele, só importa resolver o caso para conquistar sua liberdade e fugir daquele mundo a qual ele não pertence. Mas a cada episódio vamos conhecendo pouco a pouco sobre ele, os motivos que o levaram à morte até ser ressuscitado novamente, um passado recheado de informações que vão fazer muitos ficarem de queixo caído. Mesmo turrão e chato em alguns momentos, Kovacs te conquista, porque lá no fundo, ele se importa, especialmente com aqueles que entram na sua vida e não por acaso. No passado, o personagem é interpretado por Will Yun Lee, que também executa muito bem o papel e entrega o personagem mais humanizado e que luta não só para proteger a família e a mulher que ama, mas também os seus ideais com relação à imortalidade.

Quem vai cair nas graças do público é Kristin Ortega, interpretada por Martha Higareda. O ponto principal é o temperamento forte da detetive e a impulsividade de como ela lida com os problemas e as pessoas, à base de muito palavrão e momentos de explosão. Em alguns momentos, você pode até achá-la chata, mas não se deixe levar por isso. Assim que ela passa a atuar ao lado de Kovacs, a dupla garante boas cenas. No início é possível que você ache muito estranha a repentina obsessão de Kristin por Kovacs, e de fato de é, mas a série explica a razão dela ir atrás do emissário tantas e tantas vezes.

Além da dupla principal, outros personagens simpatizam, como é o caso do recepcionista Poe (Chris Conner) que, por sinal, protagoniza a melhor cena no hotel com Kovacs; Vernon que, apesar de também ter uma personalidade um pouco explosiva, te conquista devido à compaixão que criamos ao conhecer melhor o seu passado e o sofrimento que o aflige; e Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry), a mulher que ensinou Kovacs a lutar, controlar os impulsos, a mente torturada e a combater os inimigos. Há também os personagens que causam repulsa, justamente por suas ações egoístas, arrogantes e vingativas, como é o caso de Bancroft, sua esposa Miriam (Kristin Lehman), seu filho Isaac (Antonio Marziale); Dimitri Kadmin (Tahmoh Penikett) que persegue Kovacs o tempo todo; e Reileen Kawahara (Dichen Lachman), uma mulher do passado de Takeshi que retorna para mudar completamente o caminho do personagem. A série apresenta os vilões da história, mas isso não significa que os heróis não tem sua parcela de culpa, uma vez que cometem erros e atitudes inesperadas que fogem do controle.

Considerações finais

Mesmo com referências que possam lembrar outras obras já existentes, Altered Carbon é uma série que surpreende por criar uma identidade, linguagem e regras próprias que são desenvolvidas em uma narrativa complexa e bem informativa, exigindo a atenção de quem assiste. Em um cenário futurístico bem construído, a série tem ótimos personagens e não foge do que já é clichê, como um assassinato a ser desvendado e muitas cenas repletas de lutas bem coreografadas, violência, sexo e traição. Há alguns escorregos na temporada, mas mesmo assim Altered Carbon se consolida com uma boa história que te conquista aos poucos. Fica aí a dica para a sua próxima maratona.

Ficha Técnica

Altered Carbon

Criada por: Laeta Kalogridis

Direção: Miguel Sapochnik, Uta Briesewitz, Peter Hoar, Nick Hurran, Andy Goddard e Alex Graves.

Elenco: Joel Kinnaman, Martha Higareda, James Purefoy, Will Yun Lee, Ato Essandoh, Renée Elise Goldsberry, Chris Conner, Kristin Lehman, Tahmoh Penikett, Tamara Taylor, Dichen Lachman, Hayley Law, Leonardo Nam, Trieu Tran, Marlene Forte, Byron Mann, Adam Busch, Olga Fonda, Hiro Kanagawa, Cliff Chamberlain, Antonio Marziale, Teach Grant, Waleed Zuaiter e Lisa Chandler.

Duração: 10 episódios (apróx. 60 min)

Nota: 8,9 (1ª temporada)