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Resenha: Extraordinário

Fiel ao livro, história é leve, impactante e com lições que emocionam

Extraordinário (Wonder) é aquele filme de amor e alma que chega para nos ensinar a lição que julgar alguém pela aparência não é o melhor caminho; que gentileza gera gentileza; que respeito e carinho conquistam mais pessoas; que criticar e ofender afasta até os que te admiraram alguma vez. Extraordinário vai fazer muitos ficarem com vontade de chorar durante o filme e até amolecer os corações mais duros, eu espero. Adaptado da obra de R.J Palacio e dirigido por Stephen Chbosky, a história é sobre August (Auggie) Pulman (Jacob Tremblay), um menino adorável que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma deformidade facial, fazendo o garoto passar por várias cirurgias e complicações médicas desde o nascimento. Depois de alguns anos e estudando dentro de casa sob os ensinamentos da mãe, chegou a hora de Auggie encarar o mundo e o seu primeiro e grande desafio é ir à escola onde terá que lidar com o fato de ser o aluno novo e diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio em Nova York, Auggie tem a grande missão de convencer os seus colegas de classe de que, apesar de sua aparência incomum, ele é igual como todos os outros.

Lembro que assim que li as primeiras páginas do livro, em 2014, me encantei instantaneamente com os personagens e mais ainda com a história. Extraordinário não é só um livro sobre um menino vítima das circunstâncias da vida. Com um formato leve que mistura sentimentos de alegria, diversão e tristeza, a história nos envolve pelo fato de ser real e ter os pés no chão, de mostrar que é possível enfrentar os nossos problemas, seja lá qual for, mas também de compreender e respeitar que cada pessoa enfrenta uma batalha interna da qual nem sempre ficamos cientes. Ou seja, por fora podemos estar plenos, mas por dentro, um conflito com os nossos próprios sentimentos pode estar iniciando silenciosamente, sem saber a proporção que irá tomar. E se o livro nos ensina tudo isso e um pouco mais, o filme também se alinha e retrata fielmente á obra de Palacio.

Assim como no livro, a narrativa é guiada por Auggie, mas se divide com os pontos de vista da irmã Via (Izabela Vidovic), do amigo Jack Will (Noah Jupe) e da amiga de Via, Miranda (Danielle Rose Russell) com o propósito de revelar não só o que se passa na mente e no coração de Auggie, mas também como os demais enxergam o menino e como ele afeta positivamente a vida de cada um, com o seu jeito único, amável e espontâneo. Além disso, a divisão da narrativa tem o objetivo de mostrar as tais batalhas que cada um enfrenta e, ao mesmo tempo, como todos estão conectados.

Da mesma forma que a história nos encanta e nos amolece, ela também revela o lado cruel de ser julgado sem ao menos ter a chance de mostrar quem somos de verdade. Tal julgamento ganha forma e diálogo entre Auggie e Julian (Bryce Gheisar), o menino responsável pelo bullying e pelos dizeres mais duros e tristes do filme. No livro, há vários pontos de vista que faz o leitor ganhar uma perspectiva maior sobre Auggie, porém não temos o ponto de vista de Julian e nem a chance de saber a razão dele não gostar do protagonista. Julian é o exemplo perfeito de que uma maçã podre pode contaminar as demais; que a má influência pode atingir uma grande proporção e, quando percebemos, demais pessoas estão julgando e apontando o dedo sem ao menos saber a razão de estar fazendo isso. Já no filme, o público fica ciente de onde de vem essa sua personalidade e se, em algum momento, ele se arrepende ou não de fazer as coisas que faz.

Personagens extraordinários

Fazendo jus ao título, o filme também nos entrega formidáveis interpretações. Se Jacob Tremblay conquistou o público em O Quarto de Jack, aqui ele vai fazer a maioria se apaixonar por ele com o todo o seu carisma transbordando na tela. Com uma ótima maquiagem no rosto, ele entrega um Auggie inocente, ingênuo e puro, mas que, ao mesmo tempo, aprende e se entrega para as novidades que a vida lhe proporciona. Ele transmite o medo que sente, assim como raiva quando fica cansado de ouvir tantos “está tudo bem?”, quando a verdade está estampada em seu rosto. As melhores cenas são quando ele explode com a mãe em alguma discussão ou simplesmente lhe dá uma tapa de mão de luva com o seu jeito simples de encarar as situações, mesmo deslocado no mundo.

Um ponto bem legal que o filme brinca é com a preferência de Auggie por ciências, espaço sideral e a figura do astronauta. Quase sempre de capacete, o filme faz uma leitura de que Auggie é como um astronauta, reluzente e determinado a conhecer o vasto universo, mas sempre protegido com a vestimenta. Mesmo louco para conhecer o que o mundo tem a lhe oferecer, ele teme em mostrar quem é de verdade, fazendo do seu capacete o seu casulo, um escudo de proteção.

Quem também se destaca é Julia Roberts na pele de Isabel Pullman, mãe de Auggie. Com naturalidade, a atriz consegue interpretar aquela mãe cujo amor pelo filho é incondicional e com um grande peso nas costas de saber que o menino tem que encarar os desafios, mesmo que em alguns momentos isso o faça sofrer. A química de Julia e Jacob na tela é bonita e natural.

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Owen Wilson é Nate Pullman, a figura paterna que alivia os momentos de tensão, medo e constrangimento. Mais do que um alívio cômico no filme, Wilson interpreta um pai que está sempre pronto para dar o apoio que precisa à Auggie, mas também o ensina a se levantar e a encarar os problemas sozinho.

Mais do que uma irmã, Via (Izabela Vidovic) é um poço de compreensão e gentileza, mas ao mesmo tempo, é uma garota que carrega os tradicionais problemas da adolescência. Ela também tem suas falhas e batalhas e ensina Auggie a enxergar que ele não é o único que sofre, apesar de aguentar poucas e boas. A cumplicidade entre os irmãos é simples, única e extremamente doce até mesmo quando há uma troca de farpas entre os dois. Quem divide a cena com Via é a avó, vivida por Sônia Braga. A atriz tem apenas uma única cena (uma pena), mas é simples e tocante na dose certa.

Considerações finais

Extraordinário é um filme leve e repleto de bons sentimentos que, por meio da história de um garotinho com uma deformidade facial, dá lições sobre aceitação, gentileza e respeito. Mais do que extraordinário, o longa impacta dando a esperança de ensinar as pessoas a terem compaixão e serem melhores a cada dia.

Ficha Técnica

Extraordinário

Direção: Stephen Chbosky

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Sônia Braga, Noah Jupe, Danielle Rose Russell, Millie Davis, Daveed Diggs, Mandy Patinkin, Bryce Gheisar, Steve Bacic, Ali Liebert, Rachel Hayward, Nadji Jeter e Kyle Harrison Breitkopf.

Duração: 1h53min

Nota: 9,0