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Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente

Um assassinato, vários suspeitos e uma resolução surpreendente

Uma adaptação cinematográfica de uma obra literária deve alcançar e agradar tanto aqueles que leram o livro quanto os que não leram e, felizmente, Assassinato no Expresso do Oriente (Murder On The Orient Express) cumpre essa missão. Baseado na obra de Agatha Christie e dirigido por Kenneth Branagh, o filme convida o espectador a embarcar no expresso do oriente, cenário lindo e palco de um assassinato misterioso. Pouco depois da meia-noite, uma tempestade de neve impede o trem de seguir viagem. Surpreendentemente cheio, o trem fica com um passageiro a menos em uma manhã congelante. Um americano é encontrado morto em sua cabine e, misteriosamente, a porta está trancada por dentro.

Na trama, conhecemos Hercule Poirot (Kenneth Branagh), um dos maiores detetives do mundo. Prestes a iniciar a tão aguardada férias, ele é recrutado para um novo caso em Londres. Assim, ele embarca de última hora no trem Expresso do Oriente, graças à amizade que tem com Bouc (Tom Bateman), coordenador da viagem. A bordo, Poirot conhece os passageiros um a um, até se deparar com Edward Ratchett (Johnny Depp), que insiste na aproximação a fim de contratá-lo para ser o seu segurança particular, uma vez que ele está sofrendo ameaças de morte. Após recusar o convite e afirmar não gostar da pessoa, Poirot dá as costas para este caso estranho. Porém, Ratchett é encontrado morto em sua cabine no dia seguinte, após o trem descarrilhar devido uma forte nevasca. Com a viagem momentaneamente interrompida, Bouc convence Poirot para que use suas habilidades dedutivas para desvendar esse crime misterioso e silencioso.

Como em todas as adaptações de um livro, sempre rola aquele frio na barriga para saber se o filme vai conseguir capturar a essência do original e nos entregar uma boa história. Felizmente, Assassinato no Expresso do Oriente segue essa linha e, posso dizer que aqueles que não leram o livro vão gostar da história, dos personagens, do desenvolvimento e, é claro, do desfecho. Há algumas diferenças da obra de Agatha Christie? Sim, mas isso não diminui o longa em nenhum momento.

Logo nos primeiros minutos do filme, o espectador tem uma breve apresentação de Hercule Poirot, conhecendo sua personalidade, características, peculiaridades (uma vez que ele tem toque) e sua inteligência perspicaz. Após essa introdução, o público embarca no trem e, logo, já se depara com os demais personagens: Mary Debenham (Daisy Ridley), Ratchett, Mrs. Hubbard (Michelle Pfeiffer), Hector MacQueen (Josh Gad), Dr. Arbuthnot (Leslie Odom. Jr), Pilar Estravadod (Penelope Cruz), Gerhard Hardman (Willem Dafoe), Edward Masterman (Derek Jacobi), Conde e a Condessa Andrenyi (Sergei Polunin e Lucy Boynton), Hildegard Schmidt (Olivia Colman), Princesa Dragomiroff (Judi Dench), Pierre Michel (Marwan Kenzari), Marquez (Manuel Garcia-Rulfo) e Imam (Joseph Long). Assim que a apresentação é encerrada, o roteiro caminha já para o assassinato para, assim, iniciar a tão aguardada investigação.

Mesmo com um roteiro bom, não é possível negar que há momentos bastante lentos no filme, especialmente durante o interrogatório de cada passageiro. Pode ser que alguns fiquem um pouco entediados, mas assim que essa parte se encerra (e não demora tanto para isso acontecer), a adrenalina engatilha quando as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar. Outro ponto que alguns podem notar é que, durante a investigação, o roteiro não se excede no suspense e não há um clima tão tenso, tanto no instante em que o assassinato é cometido quanto no desenrolar da resolução, até chegar ao grande desfecho.

Já assistiu Liga da Justiça?

Em termos técnicos, Assassinato no Expresso do Oriente apresenta uma fotografia linda, com cores frias e fortes para enfatizar o clima frio. O movimento das câmeras, especialmente nas cenas em que a câmera fica acima das cabeças dos personagens, ou transita por fora do trem, nos dá a sensação de que somos o próprio expresso presenciando toda a situação, ou uma pessoa de fora observando o mistério e sendo convidado a desvendar o caso junto com o detetive.

Livro X Filme

Assassinato no Expresso do Oriente agrada tanto os que leram quanto aqueles que nem se quer tocaram no livro, pois a trama carrega a essência da história com uma alta porcentagem de fidelidade, mudando apenas alguns aspectos. Por exemplo, a cena de apresentação de Hercule Poirot desvendando um caso no início do filme não aparece no livro, assim como certas características de alguns personagens que foram modificados, como é o caso do Conde Andrenyi. No livro, ele é um pouco ardiloso e rude em suas palavras, mas não perde a pose de lorde. No filme, o personagem é agressivo e violento, batendo naqueles que o provocam ou perturbam sua esposa. Já o Dr. Arbuthnot é médico e coronel no filme, enquanto no livro ele é apenas o coronel e o Dr. Constantine é o médico. Além disso, há algumas ações que foram acrescentadas no filme para impactar e prender a atenção do espectador, como cenas de tiros e de perseguição dentro e fora do trem.

Assim como no filme, o livro também não esbanja suspense ou cenas que levam ao clímax de tensão. Há um mínimo de ganchos impactantes, até o instante em que o mistério é desvendado. A ideia é dar aquele susto repentino no leitor e espectador ao revelar a identidade do assassino, como o plano se procedeu e como o detetive conseguiu desvendar tudo.

Personagens

Kenneth Branagh encarna um Hercule Poirot meticuloso, bem sincero em suas palavras e repleto de toques, desde o seu incômodo com a gravata torta até o tamanho dos seus ovos no café da manhã. Se no livro Poirot é mais calmo e utiliza suas palavras e sua inteligência como armas principais, no filme o detetive é um pouco mais agitado, confrontando alguns passageiros verbalmente e fisicamente. Claro que o bigode não poderia faltar e tal elemento é excêntrico e extraordinário. Gosto da forma como ele conduz a investigação, mas senti falta do personagem procurando mais pistas e avaliando cada uma delas. O detetive foca mais nos interrogatórios do que do cenário do crime, algo que o livro enfatiza mais.

Johnny Depp é Ratchett, a própria vítima e um homem misterioso, rude e grosseiro, fazendo com que todos sintam desprezo só de olhá-lo. Como no livro, o personagem aparenta ser um pouco mais simpático, mas no filme achei estranho ao me deparar com essa antipatia, mas depois compreendi e até achei melhor ver as verdadeiras ações mal intencionadas do personagem.

Não vou dizer muita coisa para não dar spoiler, mas Michele Pfeiffer, Daisy Ridley, Josh Gad e Leslie Odom Jr nos entregam ótimas performances e são os grandes destaques do filme, depois de Poirot. Os demais atores e seus respectivos personagens não ficam para trás, mas é melhor você assistir e avaliar cada um.

Considerações finais

O terceiro ato deslancha como uma avalanche e o espectador fica ciente da resolução do caso ao acompanhar o raciocínio final de Poirot e surpreende até aqueles que já leram o livro, pois o desfecho vai muito mais além do final da obra, mexendo com a nossa emoção e até trazendo uma reflexão sobre o conceito de justiça. Pra melhorar, há um leve gancho para um próximo filme que será a adaptação do livro Morte no Nilo, também da mesma autora.

Assassinato no Expresso do Oriente nos dá uma boa introdução, um desenrolar lento e um desfecho emocionante e surpreendente. O elenco é formidável e os personagens não ficam a desejar, mesmo que alguns aspectos e características sejam diferentes da obra original. É um filme bom e que vai agradar o público geral, leitores ou não da obra de Agatha Christie.

Ficha Técnica

Assassinato no Expresso do Oriente

Direção: Kenneth Branagh

Elenco: Kenneth Branagh, Johhny Depp, Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley, Josh Gad, Penelope Cruz, Willem Dafoe, Derek Jacobi, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr, Tom Bateman, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo e Joseph Long.

Duração: 1h54min

Nota: 8,0