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Resenha: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Filme tem excelentes efeitos especiais e um roteiro que perde a força

Baseada na clássica saga de quadrinhos de ficção científica francesa ‘Valerian et Laureline’, criada pelo artista Jean-Claude Mézieres e o escritor Pierre Christin, o diretor Luc Besson utilizou referências do comic para criar uma versão bem épica, contemporânea e fantástica do original. Na trama, Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) são agentes especiais do governo do território humano, responsáveis pela manutenção da ordem em todo o universo. Valerian deseja ter uma relação com Laureline que vá muito mais além do que a profissional, no entanto, a parceira fica arredia e rejeita o romance por não querer fazer parte da lista de mulheres com quem seu colega de trabalho já saiu. Seguindo as ordens de seu Comandante Arun Fillitt (Clive Owen), Valerian e Laureline embarcam em uma missão para a cidade intergaláctica Alpha, uma metrópole em constante expansão composta por milhares de espécies diferentes de todos os quatro cantos do universo. Os 17 milhões de habitantes da cidade convergiram no tempo e no desejo de unir talentos, tecnologia e recursos para a melhoria de todos. Porém, não são todos que pensam dessa mesma forma e tem os mesmo objetivos. Na verdade, forças invisíveis estão operando na cidade, colocando a raça humana em grande perigo.

Quero deixar claro que falarei somente do filme, sem fazer comparações com a HQ, até porque eu ainda não tive a oportunidade de ler. Observações à parte, o ponto mais chamativo e, sem dúvida, a melhor coisa do filme são os efeitos especiais e uma pós-produção de primeira linha. Luc Besson não mediu esforços ao construir um ambiente espacial futurista e psicodélico. Os cenários ganham excelentes gráficos, uma paleta de cores fortes e radiantes (azul, verde, amarelo, laranja, roxo, vermelho, e muitos outros) e uma tecnologia em alta definição para retratar esse universo futurista. É muito interessante ver os personagens interagindo no mundo high tech, onde as pessoas conseguem ficar invisíveis aos olhos dos outros, sem movimentar em outros espaços sem sair do lugar de onde está, criar diferentes ambientes em um único espaço (como o Valerian cria uma praia dentro da nave), entre outras coisas. As criaturas alienígenas estão muito bem construídas e desenhadas, fazendo o público acreditar que aquele ser animado é real.

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Enquanto Valerian e a Cidade dos Mil Planetas nos encanta com os seus efeitos especiais e uma ótima e colorida fotografia, o filme desleixa no roteiro, deixando a história e os personagens a desejar. O primeiro ato tem uma boa estrutura, apresentando a paz entre as diferentes raças humanas e alienígenas, os personagens principais e o início do conflito: a destruição do planeta Pearls, um lugar paradisíaco onde os habitantes alienígenas viviam felizes e em paz, fornecendo pérolas preciosas e altamente poderosas.

Após o conflito se consolidar, o público começa a acompanhar a jornada de Valerian e Laureline. À medida que seguimos os passos de ambos, a história deixa claro o papel e a missão de cada um na cidade Alpha, ordenada pelo Comandante. O grande problema se instala no segundo ato, ao conectar a jornada dos protagonistas com a tragédia apresenta no início do filme. Até compreendemos o que realmente aconteceu, mas o filme estende demais a aventura dos personagens, passando por obstáculos e outros conflitos que podem fazer o espectador questionar se realmente é necessário. Alguns momentos até são interessantes de acompanhar, mas não ao ponto de fazer o filme durar duas horas e dezoito minutos.

Um segundo problema são os diálogos. Além de frases clichês e de efeito, há momentos em que o filme se torna explicativo demais quando, na verdade, o espectador já compreendeu o que está acontecendo. Ou seja, o uso da palavra se torna dispensável, principalmente quando os personagens fazem comentários aleatórios. Seria para preencher aquele “vazio”? Talvez. Outro ponto que pode incomodar é o excesso de flerte que ocorre no filme. Quem leu a sinopse ou já conhece a HQ, já tem plena consciência de que Valerian é apaixonado por Laureline. E mesmo que a pessoa não tenha lido nem a HQ ou a sinopse, não haveria motivo para tanto flerte assim. Não há necessidade em enfatizar esse sentimento o tempo inteiro, ainda mais com flertes baratos. Isso sem contar que eles acontecem em um timing errado algumas vezes. Fiquei um pouco irritada com isso.

Personagens

Dane DeHaan (A Cura) conquista o público aos poucos na pele de Valerian, mas não convence em alguns pontos, como por exemplo, ser o galanteador nato do universo, com sua enorme lista de mulheres com quem já saiu. Soa forçado no filme. A química com Cara Delevingne é boa, mas não traz 100% de credibilidade.

Cara Delevingne está dando passos curtos e para frente na carreira de atriz, mas, de longe, é uma das minhas atrizes favoritas. Ela me decepcionou em Esquadrão Suicida, mas até que em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas ela está bem. Ela cumpre o seu papel e impõe uma personagem forte e independente, mas o que me incomoda é o fato de Laureline sempre provocar Valerian para provar que pode fazer algo sozinha. Eu acredito nela e sei que ela pode se posicionar a frente de alguma situação de maior risco, mas não há necessidade em provar isso o tempo todo. Misturado ao excesso de flerte e a química meio estremecida, talvez o espectador não se sinta tão atraído à personagem. Claro que, se você for fã da Cara, talvez sua concepção seja outra e você a adore no filme. Essa é apenas a minha opinião.

Clive Owen está completamente apático na pele do Comandante e nem se dá ao trabalho de tentar conquistar a atenção do público. O personagem mostra quais são suas verdadeiras intenções, mas, mesmo assim, você não torce e nem fica contra. Aliás, o público nem vai ligar se ele viver ou morrer. Ele simplesmente está sem graça na trama e só não fica completamente inútil devido ao plot twist.

Uma das participações mais esperadas é da cantora Rihanna. Eu gostei da sua performance e convence bem no pouco tempo em que aparece em tela, mas não chega a ser algo marcante e estrondoso. Nem é culpa dela. Para mim, Rihanna soube cumprir com o seu papel.

Ethan Hawke também faz uma breve participação na pele de Jolly, um tipo caubói cafetão que é introduzido no filme ao lado de Rihanna. Não tem nem o que falar dele, pois o personagem pouco aparece e não acrescenta em quase nada.

Considerações finais

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas tem uma excelente pós-produção que apresenta cenários, personagens animados e efeitos especiais impecáveis. A introdução é consistente, mas a história enfraquece ao longo do seu desenvolvimento com cenas extensas demais e algumas até desnecessárias, diálogos fracos e personagens que não convencem 100% com sua química. Acredito que se o filme tivesse uma duração um pouco menor, talvez a história funcionasse melhor. É um longa que tem prós e contras, por isso cabe a cada um assistir para tirar suas conclusões.

Ficha Técnica

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Direção: Luc Besson

Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Kris Wu, Sam Spruell, Alain Chabat, John Goodman e David Michie.

Duração: 2h20min

Nota: 5,5